O que veio antes, o ovo ou a galinha?

A pergunta do título, que povoa o imaginário popular, pode remeter a questões filosóficas profundas como a origem da vida e até a existência de Deus. A maioria das pessoas, no entanto, está interessada no sentido literal da pergunta, ou seja, aquele associado com a evolução das espécies. Para elas, uma pesquisa rápida na internet traz a resposta (ou as respostas) sugerida por cientistas e filósofos, numa forma fácil de entender. Sem querer ser um desmancha-prazeres, a resposta consensual é que o ovo veio primeiro, desde que se entenda o ovo não como um ovo de galinha, mas o ovo de um ancestral da galinha – que vou chamar de “penosa” – que já carregava as mutações genéticas que dariam vida à galinha como a conhecemos. Se, no entanto, a pergunta se referir ao “ovo de galinha”, fica claro que a galinha teria que vir antes, para poder botá-lo. Decepcionante, não é?

Mais intrigante – e este é o foco deste texto – é pensar que não existe uma linha clara que separa o ancestral das espécies que dele se originam. O que quero dizer é que a galinha não surgiu da penosa da noite para o dia. Entre a penosa legítima e a galinha legítima existe uma área cinza em que exemplares com diferentes mutações genéticas fizeram parte da mesma espécie, até que essas diferenças se tornaram significativas a ponto de separar as espécies. O difícil é precisar quando e onde as novas espécies surgiram.

A seleção natural trabalha numa escala de tempo de milhares ou milhões de anos, o que não é facilmente percebido por nós que vivemos por meros setenta a oitenta anos ou um pouco mais. Para nós, as espécies parecem imutáveis neste nosso pequeno horizonte de vida, mas elas estão em contínuo e lento processo de evolução. A área cinza que mencionei está presente em todo o reino dos seres vivos, que estão em constante processo de transformação. Isso inclui a nossa espécie; ou você acha que já somos um produto acabado?

Não estamos percebendo, mas as mudanças estão acontecendo devagar com as espécies existentes. Algumas estão sendo aceleradas por nós, como as dos animais de estimação e das plantas. A nossa espécie também está em mudança e essa mudança não é só cultural, mas biológica. A diminuição dos pelos em nossos corpos, a textura da pele e a resistência a alguns vírus e bactérias foram mudanças biológicas adquiridas pelos nossos organismos ao longo do tempo. São mudanças pequenas e insuficientes para indicar o aparecimento de uma nova espécie, mas não era de se esperar que durante a curta história do Homo sapiens mudanças mais drásticas pudessem já ter acontecido.

Entretanto, nem por isso se poderia deixar de especular sobre que tipos de espécies poderiam se originar dos sapiens. O historiador Yuval Noah Harari, em seu livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, fala de três possíveis abordagens que podem produzir seres diferentes dos atuais sapiens: a engenharia biológica, a engenharia cyborg e a engenharia de vida inorgânica. A primeira tem o potencial de modificar geneticamente os seres humanos, prolongando o seu tempo de vida e até dando-lhes novas capacidades biológicas que nem podemos imaginar no momento. A segunda, consiste no uso de próteses e acessórios não orgânicos em complemento ao nosso organismo. Essa tecnologia tem o potencial de produzir seres híbridos com uma porcentagem cada vez maior de elementos não biológicos em substituição às peças orgânicas originais ou como complemento a elas. A terceira consiste na produção de um ser totalmente robotizado dotado de inteligência artificial.

É difícil dizer se os produtos dessas intervenções humanas levarão a novas espécies no futuro. Se por um lado parece não haver limite para os avanços da tecnologia, por outro lado fatores culturais poderão criar barreiras para os avanços em uma ou outra direção. Não se pode esquecer, também, que a natureza ainda continuará a dar as cartas com o seu processo de seleção natural e, sem qualquer aviso prévio, pode descartar tudo o que os sapiens tenham planejado.

O Todo Poderoso

Tempos atrás meu filho alertou-me para o fato de que eu estava submetendo os leitores a uma overdose de textos sobre o livre-arbítrio. De fato, eu estava. Agora vou cometer o mesmo erro mudando o foco para o assunto da espiritualidade. Já falei sobre isso nos dois últimos textos e volto a falar agora. Peço desculpas aos leitores que já estão cansados do assunto e prometo falar de coisas mais amenas no futuro próximo.

Em “Natureza sem rumo” escrevi sobre as peripécias do Homo sapiens, cuja história está brilhantemente narrada no livro do historiador Yuval Noah Harari, de título “Sapiens – Uma breve história da humanidade”. Nesse livro, o autor termina a sua narrativa conjecturando que o homem está se investindo no papel de Deus e indaga, preocupado, como isso poderá afetar o nosso futuro.

Para fazer essa conjectura, Harari se baseia nas ações do homem ao longo de sua história, mas, principalmente, nas ações do homem moderno, ao fazer uso dos avanços nas áreas da medicina e da genética, que têm o potencial de transformá-lo num ser superpoderoso. Vou adicionar aqui alguns outros aspectos que também podem estar contribuindo para que o homem se considere um deus.

Um primeiro aspecto diz respeito à questão da imortalidade. O sucesso da medicina, como o citado autor enfatiza, de fato tem aumentado o tempo de vida das pessoas a ponto de nos fazer pensar que um dia o homem será imortal (só morrerá em decorrência de acidentes). Todavia, acho que o sentimento de imortalidade já estava presente mesmo antes desses avanços da medicina. É curioso mencionar isso, mas é uma afirmação irrefutável dizer que nenhum ser ainda vivo já passou pela experiência da morte. Essa constatação óbvia pode dar ao ser humano a impressão de que a morte nunca vai lhe atingir. “Pode acontecer com os outros, mas não comigo” é um pensamento que ocorre às pessoas, ainda que elas não o admitam, nem a si próprias. Isso é uma característica da natureza humana, decorrente da nossa mente sofisticada e complexa.

Essa mesma mente nos dá a sensação de total privacidade e liberdade de pensamento. Em seu interior ninguém pode penetrar e espionar e, muito menos, proibir que ela pense no que quiser, pelo menos enquanto não houver tecnologia disponível para isso. Ela é um território com um dono único e soberano.

Outro aspecto refere-se à nossa visão do mundo. Até prova em contrário, cada indivíduo tem a sua própria percepção da realidade. A realidade que cada um percebe é fruto da interpretação das coisas e fatos pelos seus próprios processos mentais, que são exclusivos do indivíduo. Além disso, essa visão particular da realidade pode ainda ser exacerbada pelo uso de psicotrópicos. Uma doutrina filosófica antiga, chamada solipsismo, leva ao extremo essa questão da visão do mundo ao afirmar que a única coisa real no mundo é a mente pensante (quem sabe uma única mente), sendo o resto apenas uma criação dela. Embora antigo, esse conceito de solipsismo nunca foi refutado porque não há meios de fazê-lo. Como provar que uma mente (a sua ou a minha) não está só no mundo? Isso dá bem a medida da complexidade da mente, algo que faz o indivíduo acreditar que pode tudo e, ao mesmo tempo, o faz sentir uma solidão absoluta (caso sua mente seja a única coisa existente). Uma solidão, diga-se, só comparada à solidão divina.

Por fim, a tecnologia atual permite que tenhamos uma ideia muito satisfatória do resto do universo e da sua imensidão. E não há evidências de que outros seres inteligentes estejam habitando qualquer parte dele. Ainda que ETs possam existir, não há perspectivas de que possamos encontrá-los algum dia. (Leia aqui um interessante artigo sobre este assunto.) Diante desse panorama, é inevitável ao Homo sapiens pensar que o seu papel é dar significado a esse imenso universo sem vida.

Todas essas manifestações mentais são exclusivas do Homo sapiens, que teve o privilégio de receber uma mente diferenciada da dos outros animais. Em conjunto, elas o induzem a acreditar que a sua espécie tem um papel central no universo e ele, indivíduo, um papel único num mundo que é percebido a seu modo. Daí a sentir-se Deus é um pequeno pulo.

Natureza sem rumo

A natureza é mesmo admirável e cheia de mistérios. Ela pode não ser boa nem má, mas é disciplinada. E como! Obedece rigorosamente às suas próprias leis, doa a quem doer. E como doeu para as espécies dos dinossauros, dos mamutes e outras! Já nós, os Homo sapiens, tivemos sorte ou ainda é cedo para dizer isto? A nossa vez de desaparecer ainda vai chegar?

Como eu disse, a natureza segue rigorosamente as “leis da natureza”. Se essas leis mandam congelar o planeta, dá-lhe frio. Se é para descongelar, que se derretam as calotas polares. Ela já fez isso várias vezes e nesse processo muitas espécies acabaram sendo vítimas. Ela já criou terremotos, vulcões, impactos de asteroides e outras calamidades. Se isso tudo prejudicou algumas espécies, paciência; a culpa é das leis da natureza. (Portanto, cuidado, nem tudo que é natural é correto ou melhor!)

“Tudo isso tem um propósito?” é o que homem sempre perguntou e nunca respondeu de forma satisfatória. E o próprio homem é o motivo dessa pergunta, porque ele apareceu no planeta de uma forma inesperada e surpreendente, fruto das estripulias da natureza seguindo as suas leis. É um ser vivo que adquiriu características tão especiais que lhe proporcionaram subjugar todas as outras espécies e, de certo modo, até a própria natureza.

Fritjof Capra e Pier Luigi Luisi, em seu livro “A visão sistêmica da vida” (leia mais aqui), conjecturam que o planeta tem a capacidade de se autorregular (como um ser vivo) e a utilizou para criar as condições (temperatura, atmosfera etc) propícias para o aparecimento da vida. É apenas uma conjectura. Eles não explicam por que as placas tectônicas continuam se movendo e causando os terremotos que matam milhares de pessoas. Estaria o planeta ainda se autorregulando até encontrar a espécie merecedora de morar aqui com tranquilidade?

É mais fácil acreditar que a natureza faz as coisas de forma imparcial e sem qualquer propósito. Pelo menos era assim antes de chegarmos aqui. A parcialidade e o propósito, no entanto, surgiram com o aparecimento da espécie humana. Em um grau cada vez maior o homem está conseguindo influir no meio-ambiente e direcionar a ação da natureza. Já extinguimos muitas espécies de animais e plantas, domesticamos e alteramos geneticamente outras e cercamos as mais arredias numa espécie de zoológico – as selvas ainda existentes – para o nosso entretenimento.

A natureza, que hoje incorpora o Homo sapiens, continua a seguir as suas leis, mas agora tem a ajuda desse agente com poder de direcionar conscientemente a sua ação por meio de tecnologias cada vez mais sofisticadas. Com a ajuda desse agente, pode-se dizer que a natureza se tornou má, pelo menos para as inúmeras espécies de animais que vivem confinados com o objetivo único de alimentar a raça humana. Também para uma grande quantidade de indivíduos da própria raça humana que estão à margem da sociedade, não por conta de desastres naturais, mas por conta da ação de seus próprios semelhantes.

O homem ainda não conseguiu se livrar das ameaças das grandes catástrofes naturais e, com as suas ações, pode até potencializar novas catástrofes como a do aquecimento global. Entretanto, com suas tecnologias está conseguindo avanços tão grandes na medicina que o fazem pensar até na imortalidade, dentro de um horizonte de tempo não muito longo. Afetada por um ser tão complexo como o homem, que às vezes parece se passar por Deus, é difícil prever que rumo a natureza irá tomar no futuro. A pergunta com que o historiador Yuval Noah Harari termina o seu livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade” (leia mais aqui) dá bem a dimensão dessa incerteza: “Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?”