Como o orgulho venceu a razão e o medo

A razão está sempre certa, mesmo quando erra em seus palpites. Não é assim que a ciência progride? Por erros e certos, mas sempre racionalmente. Deve-se à razão tudo o que se tem de moderno e avançado, seja para a nossa saúde, conforto ou entretenimento. Ela também é grande inimiga das práticas nocivas à vida em sociedade. Mas ela nem sempre vence as batalhas porque tem fortes competidores.

Um deles, talvez o mais forte, é o instinto. Graças ao instinto estamos vivos hoje, mas graças a ele, também, estamos sempre entrando em frias. Porque ele provoca impulsos – muitos deles inconfessáveis – e preconceitos – não menos inconfessáveis -, além de crenças enganosas que levam ao fanatismo injustificável. Mas quase nunca reconhecemos esses defeitos porque temos um outro sentimento que impede que isto aconteça.

Esse sentimento é o orgulho. Ele é, em primeira instância, uma recompensa pelas nossas conquistas ou de nossos entes queridos. Mas, como nada é perfeito, ele também tem seus efeitos colaterais. É o orgulho que impede que admitamos os nossos erros. E quando não se admite um erro nunca se vai atrás de corrigi-lo, simplesmente porque não se trata de um erro.

Não sou eu que advogo o que foi dito acima, mas um amigo que sempre foi muito racional e orgulhoso de suas atitudes e convicções. É claro, ele sentia as provocações de seus instintos, mas as reprimia debaixo do tapete porque não conseguia colocá-las de vez no lixo.

Não que fosse obrigatório para qualquer indivíduo racional, mas o fato é que ele era ateu e execrava todas as religiões e aqueles que induziam o indivíduo a abraçá-las. Em sua ordem mental, a religião e a devoção a um deus não eram coisas aceitáveis. Para ele, os mistérios da vida e do mundo eram algo a reverenciar e um fim em si mesmos, sem a necessidade de procurar um criador de tudo. O acaso era o seu Deus.

Viveu bem a vida com esses conceitos e nunca se arrependeu de tê-los como dogmas. Teve alegrias e frustrações e sofreu em muitos momentos, como a maioria dos indivíduos, sem ter que perguntar pelo sentido de tudo aquilo. Pois ele sabia que não havia nenhum sentido a procurar.

Envelheceu e ficou doente, como todos os outros. A sua saúde piorou e acabou em um leito de hospital, sem muitas esperanças de sobreviver por muito mais tempo. Entretanto, ele aceitava tudo com a razão que lhe era característica. Com o passar dos dias foi piorando até encontrar-se em uma situação em que a morte estava iminente, até para ele, combalido mas ainda lúcido.

Era a hora de a sua razão ser colocada em cheque naquele momento singular da sua vida. No auge da luta para manter-se vivo ele ainda resistia para mantê-la. E esbravejava contra a natureza por não ter ela um jeito menos doloroso de tirar a vida de uma pessoa. Mas aos poucos foi desviando a sua atenção da dor para a proximidade da morte.

Era a deixa que seu instinto aguardava. A razão, até há pouco soberana, se deu por vencida dando lugar para o instinto trabalhar à vontade invocando todas as suas armas. O medo, então, instalou-se imediatamente e com ele a involuntária busca por ajuda. Sua rendição só não foi completa porque o seu orgulho era ainda maior do que essas forças. Deliberadamente ele não pronunciou o nome que tanto tinha rejeitado em vida. Somente balbuciou: Ei, Você aí em cima! Ajuda-me por favor!

Epitáfio (ou Agora é tarde demais)

  1. Eu devia ter dormido mais … e sonhado menos.
  2. Eu devia ter perseguido os meus sonhos … e não ser perseguido neles.
  3. Eu devia ter falado mais … como a maioria tem feito.
  4. Eu devia ter andado mais devagar … se soubesse que, depois de todo esse tempo, ainda continuaria no mesmo lugar.
  5. Eu devia ter rezado mais … para não ter sido abduzido por nenhuma religião.
  6. Eu devia ter bebido mais vinho … e desperdiçado menos água.
  7. Eu devia ter esquecido os meus traumas … e não onde deixei o meu celular ou meus óculos.
  8. Eu devia ter trabalhado mais … nos meus planos de férias.
  9. Eu devia ter comprado logo um GPS … e não ter perdido tanto tempo em achar um sentido para a vida.
  10. Eu devia ter ficado com os pés em terra firme … ao invés de me endividar com esse iate.
  11. Eu devia ter olhado mais as estrelas … antes de fazer uma reserva em hotel.
  12. Eu devia ter visto mais o sol nascer … sem esquecer de proteger os olhos.
  13. Eu devia ter ouvido mais os conselhos … se tivesse cuidado melhor dessa minha surdez.
  14. Eu devia ter curtido mais os meus filhos … se fosse o seu avô.
  15. Eu devia ter sido uma pessoa melhor … se ao menos soubesse o que isso significa.

O clone e o efeito borboleta

A clonagem de humanos é um assunto que intriga a todos. Experiências com animais mostraram que a clonagem é perfeitamente possível também em humanos. Mas ela será feita algum dia? Os problemas éticos e religiosos associados a ela são enormes, assim como o são os benefícios medicinais da clonagem de órgãos. Todavia, não quero falar da clonagem sob este ângulo, mas sob outro mais ameno e ficcional. A clonagem que instiga a todos é aquela tratada no filme “O sexto dia”, em que um sujeito tem não só o seu corpo clonado, mas também todo o conteúdo do seu cérebro: memórias, experiências e todo o resto. E mais, a clonagem é feita em pouco tempo, como numa linha de produção. Neste caso, como seria bizarra a experiência de ficar diante de um outro eu!

Uma prova de como somos atraídos pela clonagem é o nosso interesse por histórias de gêmeos univitelinos, quer sejam elas sobre gêmeos criados no mesmo ambiente ou em ambientes diferentes. Temos curiosidade em saber que semelhanças e diferenças eles carregam entre si e quais as influências genéticas e ambientais que predominam no seu desenvolvimento.

Para instigar um pouco mais essa curiosidade sobre clonagem, vou descrever uma situação absolutamente hipotética. Um indivíduo é clonado – segundo o mesmo processo do filme mencionado – e ele e seu clone acordam em uma sala onde se veem um diante do outro. O ambiente foi preparado de tal forma que os estímulos externos (cores, sons, cheiros e outros), que afetam a ambos, fossem os mesmos. Ambos têm a mesma visão do parceiro à sua frente e da sala perfeitamente simétrica em que se encontram. Exatamente no meio de ambos está um leitor de impressões digitais e uma instrução que pode ser lida por ambos: “Se precisar de ajuda coloque o polegar no leitor”. Em poucos segundos eles notam que estão executando as mesmas ações, como: levantar-se da cadeira, dar um passo à frente, erguer a mão direita etc. Quando um tenta falar o outro faz a mesma coisa e ambos silenciam, surpresos. Eles não podem saber, mas os seus pensamentos são, também, os mesmos. Depois de alguns segundos, ambos tentam colocar o polegar sobre o leitor de impressões digitais e imediatamente notam que não conseguem, pois os seus dedos se interferem. Não conseguem se comunicar e estabelecer uma estratégia de ação. Como definir quem vai colocar o polegar no leitor? E assim, ficam diante desse impasse até morrer. (Alguém consegue ver uma saída para esta situação?)

Qual é a moral desta história? Nenhuma! As hipóteses são tantas que tornam a história risível. Ainda que a clonagem atingisse um estágio de perfeição, as variáveis e suas inter-relações são tantas que seria impossível evitar o efeito borboleta. (À guisa de esclarecimento, o efeito borboleta, tão explorado em filmes de ficção científica, refere-se às mudanças amplificadas no estado final de um sistema quando se alteram ligeiramente as suas condições iniciais, num experimento de simulação.) O indivíduo e seu clone nunca serão exatamente iguais e, ainda que fossem, seria difícil imaginar que agissem de maneira absolutamente sincronizada (E o livre-arbítrio como fica?). A história nem mesmo serve para um filme de ficção científica, pois quem teria paciência de aturar por duas horas seguidas duas pessoas executando pateticamente os mesmos gestos?

Pensando bem, a história tem sim uma moral: Viva a diversidade! Viva a imprevisibilidade! Sem elas não existiria uma vida que valeria a pena ser vivida.

Rosa negra

O escritor de ciências, Marc Kaufman, fala de seu último livro no blog 13.7 e diz que “… estou ficando um pouco confuso sobre essa coisa chamada natureza. Isto porque estou lendo uma nota recente da Universidade de St. Andrews, do Reino Unido, que fala sobre a possibilidade de existência de alguns mundos onde as plantas são negras e não verdes (leia aqui). Quando as pessoas pensam em vida fora da terra…isto levanta uma das mais intrigantes perguntas: Como a descoberta de vida, atual ou passada, fora da terra, mudaria o nosso senso do que é a natureza?”

O escritor está se referindo, como ele explica em outras passagens do livro, ao que ele considera o conceito de natureza que a maioria dos indivíduos tem, ou seja, tudo aquilo que nos cerca, que influencia o nosso dia-a-dia. Segundo ele, a chuva, a neve, as marés são parte da natureza, mas a maioria não considera as estrelas ou o espaço interestelar como natureza. Para a maioria, as estrelas e planetas no céu são simples imagens, como quadros dependurados nas paredes de nossas casas, distantes o suficiente para não participar de nossas vidas. Entretanto, saber que existe vida lá fora de alguma forma alteraria essa visão?

A questão posta pelo escritor nos faz pensar nas tantas vezes em que o homem mudou a sua ideia sobre a natureza. Nossos ancestrais mais primitivos enfrentaram transformações radicais do clima (até mesmo uma era glacial) que alteraram significativamente o meio ambiente obrigando-os a se adaptar a uma nova realidade. Outras vezes, movidas pela espiritualidade estimulada pelas religiões, sociedades inteiras mudaram o seu modo de encarar o mundo, redefinindo o que chamavam de natureza. A comunicação e a arte também foram agentes de transformação da natureza. Quando menciono esses exemplos não quero me referir à mudança de vida (maior conforto, mais entretenimento e progresso) que eles propiciaram aos indivíduos, pois neste caso eu deveria incluir uma infinidade de outras atividades que também contribuíram para isso. Refiro-me à nova forma de enxergar o mundo, ou a natureza, que essas atividades propiciaram ao indivíduo. É o mesmo sentido, acho eu, a que o escritor acima se refere quando questiona se a descoberta de vida fora da terra alteraria a nossa visão da natureza.

A ciência, mais do que todas as atividades acima, obrigou-nos a mudar o conceito de natureza. De uma terra plana passamos a viver numa terra esférica; do centro do sistema solar fomos deslocados para a periferia; quando éramos cientes de que nossa espécie era imutável, acabamos por descobrir que viemos de ancestrais esquisitos; chegamos até a visitar a Lua, comprovando que ela não era um simples círculo brilhante no céu. Como se isso ainda não fosse suficiente, a ciência diz que podemos estar provocando um super aquecimento em nosso planeta, poder que, antigamente, só era atribuído aos deuses. Mais radical do que tudo isso é o que afirmam algumas teorias científicas sobre a fragilidade do que chamamos de realidade, que pode não passar de uma concepção subjetiva do ser humano.

É verdade que algumas dessas constatações não afetaram grande parte da população que continuou com o seu conceito de natureza inalterado. Alguns por não acreditar nelas e outros por não se interessar por elas. Creio que uma possível descoberta de vida primitiva, ou até de uma rosa negra, fora da terra, também não teria grande impacto na população. Todavia, muito diferente seria se a rosa negra fosse flagrada sendo regada por alguém.

O infinito em incontáveis versões

         Li hoje três textos que tratam do conceito de infinito. O primeiro foi uma notícia do The Washington Post que divulga uma teoria segundo a qual o nosso universo pode estar dentro de um buraco negro (leia aqui). O segundo texto é de autoria do físico Marcelo Gleiser, com o título “Infinity, the electron and other inventions” (Infinito, o elétron e outras invenções). O terceiro é um ensaio escrito pelo especialista em educação, meu amigo Nilson José Machado, no seu site “Mil toques e uma idéia”, intitulado “Justiça e infinito”.

         O primeiro traz a noção de infinito implícita na ideia de que se o nosso universo está dentro de um buraco negro, então os buracos negros que existem em nosso universo podem conter outros universos e assim sucessivamente, ad infinitum. O segundo trata dos mundos macroscópico e microscópico onde a noção de infinito está obrigatoriamente presente. O terceiro lembra que a vida finita de um indivíduo está sujeita a injustiças e que a garantia de justiça exige a perspectiva de infinito, de eternidade.

         Os textos não foram publicados simultaneamente, mas a facilidade com que foram encontrados (sem nenhuma busca no Google) é uma boa indicação de que o conceito de infinito é muito discutido na mídia. O termo infinito vem do latim infinitas (wikipédia), que significa ilimitado, sem fronteiras. A ciência, em especial a matemática, é pródiga de situações onde esse conceito aparece. Em geral ele caracteriza uma situação extrema e inatingível (um ponto limite), só concebível em hipótese, onde uma determinada conclusão pode ser validada. Uma frase de domínio popular ilustra bem essa ideia: duas retas paralelas só se encontram no infinito.

         A religião também utiliza o adjetivo infinito para qualificar os atributos de Deus, como a bondade, a sabedoria, o amor, e para, implicitamente, definir a eternidade após a morte. Em nosso quotidiano também empregamos esse conceito quando olhamos para o céu e imaginamos a imensidão do universo, ou quando pensamos no passado ou no futuro longínquos.

         Infinito é um conceito bastante abstrato mas muito presente na mente dos indivíduos. Por que temos essa atração pelo infinito? Quando olhamos para o céu, por que preferimos imaginar um universo infinito ao invés de finito? Por que é mais fácil imaginar que o tempo sempre existiu e nunca terá um fim? Por que temos a sensação de que o progresso é irreversível e o futuro aponta para um aprimoramento social e tecnológico ilimitado? (Nossas visões de apocalipse, embora muitas vezes estimuladas por ameaças reais, parecem ser apenas uma simples reação a essa ideia fixa de continuidade.)

         Não sei responder a essas perguntas, mas desconfio que as respostas têm a ver com algumas peculiaridades da natureza humana. Temos um forte anseio por liberdade e um repúdio a fronteiras e confinamento. A seleção natural nos dotou de uma especial capacidade para sobreviver e vencer obstáculos para perenizar a espécie. O progresso, portanto, é bem-vindo; a estagnação e o retrocesso não. O nosso desejo de imortalidade é um subproduto das forças naturais que nos moldaram como somos. Com todas essas características só poderíamos acabar atraídos por tudo que é eterno e que não tem fronteiras, ou seja, o infinito.