Carpe diem

Carpe diem! Aproveite o dia! É o que dizem os adeptos da autoajuda para convencer a si mesmos que é preciso viver bem o presente. O passado já passou e não se pode fazer mais nada a seu respeito; o futuro ainda não chegou e, o que é mais importante, depende do que fizermos no presente. Portanto, vamos viver bem o presente para construir um futuro em que se possa viver bem, também. Carpe diem!

Resolvi levar a sério esse conselho e começo, a partir de agora, a procurar viver bem o presente. Não vou mais me preocupar obstinadamente com a minha segurança e a de meus familiares, como se a qualquer momento algum de nós pudesse ser sequestrado ou atropelado ou morto por uma bala perdida. Não quero mais viver pensando nisso. É claro que não vou dar sopa para o azar atravessando a Avenida São João, em São Paulo, com o sinal vermelho, ou usando um GPS no Rio de Janeiro. Quero dizer que não vou mais deixar que essa preocupação tome conta da minha vida.

Também não vou mais ficar preocupado com a minha situação profissional e financeira. Empregos vão e vêm e a falta temporária de dinheiro para fazer uma viagem ou para comprar um carro novo, coisas com que sempre sonhei, significa apenas o adiamento do sonho e não a sua eliminação. Mais importante é alimentar esses sonhos. Mais importante, ainda, é ter saúde para os ficar perseguindo.

Ao falar em saúde vem logo a preocupação com as doenças. Não quero mais pensar em doenças; elas também vêm e vão. Se ficam, podem ser controladas e se não puderem ser controladas não há mais o que fazer a respeito. Então por que se preocupar? Finalmente achei um jeito de pensar a respeito delas. Graças ao milagre do carpe diem.

Fico sempre preocupado com a situação do nosso país quando vejo os noticiários. Penso que estamos à beira de uma catástrofe e que o nosso país vai se transformar numa terra sem lei, do salve-se quem puder. É muita incompetência e corrupção por parte dos nossos políticos. Mas não vou mais me preocupar com isso também. Não vou ficar pondo a culpa só nos governantes pois todos nós temos culpa do que está acontecendo. Os políticos são uma amostra da nossa sociedade. Há políticos bons e ruins na mesma proporção em que há pessoas boas e ruins na população. Vou procurar escolher os políticos entre as pessoas boas e deixar o resto com a justiça. Sei que ela sempre tarda, mas, a partir de agora, vou pensar que um dia, talvez ela possa não falhar.

Nossa! A noite está chegando e eu passei um dia proveitoso exorcizando essas preocupações que não merecem povoar os meus pensamentos e estragar o meu dia. Amanhã vou continuar este processo e eliminar outras preocupações que estejam me impedindo de ser feliz e viver bem o dia. Vou fazer isso até acabar com todas elas. Acho que é assim que funciona. Carpe diem!

Moral da história: “Ao aderir a um programa de autoajuda combine antes com quem realmente está no comando: a sua mente”.

É ou não é verdade?

Depois de escrever mais de 200 artigos neste blog e de mudar de opinião sobre os temas abordados inúmeras vezes, resolvi fazer um resumo das conclusões a que cheguei, das quais acho que poucas pessoas irão discordar. As conclusões estão separadas por tema abordado.

– Sobre as leis da natureza:

As leis da natureza não podem ser desobedecidas. A pena para isso é a busca de uma nova teoria.

– Sobre vida após a morte:

Não importa se existe ou não vida após a morte; em qualquer caso só existirão os vivos.

– Sobre criadores e criaturas:

A criatura transforma-se no criador quando começa a cometer os mesmos erros dele.

– Sobre a passagem do tempo:

Procurar entender a passagem do tempo é a maneira mais fácil de desperdiçá-lo.

– Sobre os seres alienígenas:

Os ETs não dão as caras aqui pela mesma razão por que não os visitamos: não sabem o endereço.

– Sobre a natureza humana:

Esperar que uma campanha contra a criminalidade tenha sucesso é o mesmo que esperar que uma pessoa inconsciente entenda o que você está falando.

– Sobre o livre-arbítrio:

O livre-arbítrio só existe quando praticamos boas ações.

– Sobre a mente:

A mente humana fez do Homo sapiens a espécie dominante. Pelo menos é nisso que ela nos faz acreditar.

– Sobre a evolução das espécies:

A evolução foi generosa com o Homo sapiens não permitindo que ele perceba os próprios erros.

– Sobre inteligência artificial:

Um conselho aos técnicos em inteligência artificial: as máquinas só terão sucesso quando pararem de imitar a nossa inteligência.

– Sobre o sentido da vida:

O sentido da vida é viver, isto é, postergar a morte. Se você falhar nessa empreitada, console-se, não estará sozinho.

Se vocês conseguiram tirar outras conclusões de meus textos, por favor avisem-me.

A árvore de Platão

Uma grande ideia é sempre uma coisa admirável, seja nas ciências, nas artes, no trabalho ou no dia-a-dia. Ela deixa incrédulas as pessoas que tomam contato com ela a ponto de fazê-las perguntar: De onde ele tirou isso? Como é possível ter uma ideia assim do nada? Onde essa ideia estava antes de ser revelada? Vagando no éter?

As grandes teorias científicas, as obras primas nas artes, as invenções tecnológicas, as receitas culinárias que dão água na boca, todas são derivadas de ideias que parecem ter surgido na cabeça de alguns privilegiados como uma benção. É admirável vê-las nascer como também o é ver nascer os bebês, os filhotes e os frutos nas árvores. Mas, no caso das ideias, é diferente pois trata-se de algo abstrato. Seu nascedouro está na mente das pessoas.

É claro que existe um processo por trás da geração de uma ideia, um encadeamento de pensamentos, catalisado por estímulos externos e memórias armazenadas, que acaba por gerar na mente do criador aquela ideia genial. Comumente chamamos esse processo de inspiração. A inspiração não surge do nada como num passe de mágica. Mas é como se surgisse, até para o seu agente! É como um esticar de braços que esbarra na ideia que estava flutuando ao redor.

Todos já experimentaram a sensação de ter uma ideia, ainda que de algo bem simples. Ela pode ter vindo de supetão ou como uma pequena semente que foi germinando até se tornar alguma coisa concreta. E a impressão que ficou disso é que não se sabe bem como se teve o insight. É bem possível que se possa rastrear as pistas que levaram ao insight, mas ainda assim parecerá que ele tenha surgido num passe de mágica.

Talvez Platão tenha razão em distinguir o mundo perfeito do mundo que percebemos, de simples aparências. É naquele mundo perfeito que estão as ideias, dizia ele. Se elas estão nesse mundo perfeito, então nós fazemos algum tipo de conexão com ele quando temos uma ideia. É como colher um fruto de uma árvore de difícil acesso. Alguns podem ter mais facilidade outros menos para apanhar o fruto, mas todos conseguirão algum dia colher algum, mesmo que não seja o maior e o mais viçoso.

É mesmo curioso o que se passa em nossas mentes. Por sorte não conseguimos perceber os detalhes de como a mente funciona, do contrário ficaríamos loucos. Essa questão do surgimento de uma ideia é um exemplo. Como não conseguimos rastrear o processo todo, ficamos com a impressão que a ideia simplesmente surge. Plagiando Platão, novamente, percebemos apenas um mundo de aparências quando perscrutamos as nossas mentes – como as sombras na caverna idealizada por ele –, iludidos quanto ao que se passa realmente lá no fundo delas. Mas se uma árvore – cujos frutos são as nossas ideias, os quais podemos colher de vez em quando – for uma imagem satisfatória, não será preciso ir atrás de explicações mais elaboradas para a criação das ideias. Então, o mundo de aparências pode ser tão útil quanto o real, mesmo porque não há outra alternativa em que se apoiar.

Por fim, se você não for um dos privilegiados que têm grandes ideias não se preocupe porque você ainda é um privilegiado por poder desfrutar delas. Essa é uma das boas coisas da vida.

Sinais exteriores

Cabeça e voz baixas, olhar indireto, rubor na face, braços esticados e entrelaçados em frente ao corpo, mãos entrelaçadas atrás da cabeça, sorriso amarelo. Todos esses gestos denunciam a timidez de uma pessoa e são mais frequentes nas crianças que ainda não desenvolveram técnicas de disfarçar seus sentimentos.

Assim como esses traços que denunciam a timidez, outros gestos e expressões podem ser captados que denotam outros sentimentos das pessoas. São os sinais exteriores. Observando-os atentamente pode-se ter uma ideia do que se passa na cabeça dos outros. Mas só uma ideia, porque o real conteúdo está inacessível a tudo e a todos, guardado dentro de um buraco negro no qual reside, em completa solidão, a mente humana.

Nas histórias infantis que tenho escrito, o personagem Nuno, uma criança, tem a capacidade de ler a mente das pessoas e captar os seus sentimentos mais secretos. Mas isto, evidentemente, é só ficção. Na realidade, nem com o auxílio dos equipamentos mais sofisticados se consegue observar ou entender o que se passa em outra cabeça.

Muitas das emoções, sentimentos, ou seja lá que nome se dê ao que se passa em nossas mentes, só podem ser transmitidos por quem os experimenta e ainda assim, muitas vezes, com dificuldades para expressar o que ele de fato está sentindo. Se nem mesmo ele consegue expressar direito os seus sentimentos, imagine alguém de fora!

A bem da verdade, é uma sensação muito rica essa de poder apreciar os sinais exteriores emitidos pelas pessoas e ver neles indícios de sentimentos que nós próprios experimentamos. Os astros de cinema, teatro e televisão são mestres em captar e reproduzir esses sinais e não é à toa que conseguem emocionar os espectadores. Essa linguagem dos sinais é o auge da experiência de compartilhar a sensação de pertencer a uma mesma espécie.

Outras espécies podem, também, revelar seus sentimentos por meio de expressões. Quem tem um cachorro ou gato sabe disso. Nessa hora podemos imaginar o que se passa na cabeça desses bichinhos e é bem possível que estejamos certos, pois algumas expressões, especialmente dos olhos, são muito parecidas com as nossas e, portanto, devem refletir sentimentos também parecidos com os nossos.

A situação pode ficar confusa, entretanto, quando se está diante de um robô que procura simular os gestos humanos. É bem verdade que, no atual nível tecnológico, suas expressões ainda são pouco convincentes, mas é possível que logo se construam robôs com expressões faciais semelhantes às nossas. E voz, olhar, gestos e muitos outros sinais exteriores parecidos com os das pessoas. Afinal, essa não é a parte mais desafiadora da inteligência artificial.

Quando isso acontecer, estaremos diante de uma máquina que reage como uma pessoa, embora internamente ela possa ser um mero processador de zeros e uns. A grande maioria das pessoas certamente não entenderá os mecanismos que farão um robô demonstrar sentimentos. A questão é se isso fará diferença na nossa interação com eles. Não ter ideia de como aquelas reações são produzidas na cabeça daquele ser metálico será fatal para uma interação afetiva entre homem e robô? Se pensarmos bem não deveria fazer diferença, porque não sabemos, também, o que se passa na cabeça de outra pessoa, a não ser por comparação com a nossa. O fundamental deveria estar nos sinais exteriores que são tudo o que nossa mente gostaria de perceber em quem (ou naquilo que) interage conosco.

Mas vai ser preciso tempo para se acostumar com a ideia de compartilhar uma experiência com uma máquina. Para as crianças, essa tarefa vai ser mais fácil, mas acho que os adultos, depois de certa relutância, também tirarão proveito da companhia dos robôs. Depois de algumas gerações, quem sabe, as máquinas poderão ser tratadas como pessoas em certos aspectos.

As pessoas são muito carentes da interação com outras pessoas, nas quais buscam apoio, solidariedade ou simplesmente companhia. Certamente os seres humanos serão sempre mais eficientes nessa forma de interação do que os mais evoluídos dos robôs poderão vir a ser. Mas é uma pena que não a pratiquem tanto quanto se deveria praticar para dispensar a ajuda das máquinas. Estas deveriam nos ajudar em outras tarefas que possam executar melhor do que nós, frágeis mortais.

Trocando em miúdos

Depois de muito escrever neste blog, achei que seria útil fazer uma pausa para resumir o monte de asneiras que foi escrito em um pequeno número de itens que pudesse deixar mais compreensível o conteúdo do blog. Não se esqueçam que o propósito original do blog reza que eu não procuraria dar respostas às perguntas aqui levantadas e que, na sua discussão, eu poderia utilizar a ficção, a irreverência e o humor como ferramentas de trato das questões. Com isto quero simplesmente dizer que as asneiras estavam e ainda estão completamente liberadas aqui. (“Mas isso deveria ter um limite!”, sei que algum leitor deve estar pensando neste momento.)

Dito isto, sumarizo a seguir as discussões apresentadas nos posts, agrupadas em tópicos que procuram organizar os assuntos abordados:

  1. Em um blog sobre “criadores e criaturas” o tema principal não poderia ser outro senão a vida. Aqui, ela foi criada e recriada, reencarnada, evoluída até um futuro a perder de vista e regredida à época dos Neandertais, num vai-e-vem interminável. Sua origem na Terra, no entanto, continuou obscura, assim como o é, ainda, para os cientistas e filósofos. Até sobre vida após a morte se falou aqui, sem se chegar a qualquer conclusão, é claro, além do pensamento surreal segundo o qual “se existe vida após a morte, só saberão aqueles que sobreviverem”. Sobre a “imortalidade” pouco foi dito neste blog e o assunto acabou “morrendo” cedo. (Opa! Acabei de usar uma metáfora, recurso de linguagem sobre o que muito se falou aqui como ferramenta útil para entender as teorias científicas.)
  2. A mente, representada alternativamente por duas de suas propriedades – a consciência e o livre-arbítrio – foi aqui esmiuçada, fatiada, clonada, reproduzida artificialmente, comparada com a dos outros animais e inserida em seres inanimados. Nada disso, entretanto, resultou em um melhor entendimento da sua funcionalidade, deixando este blogueiro na invejável situação de poder ser equiparado aos maiores neurocientistas do mundo, pois eles também não conseguem explicar exatamente o que acontece em nossas cabeças. Ah, não faltou nem a insinuação de que o mistério possa estar na existência de uma alma em cada indivíduo.
  3. A questão da existência de Deus foi amplamente mal discutida e a divindade algumas vezes vilipendiada em uma série de textos – alguns irreverentes e outros sérios – pelos quais peço desculpas àqueles que se sentiram ofendidos em sua fé. Se eu pudesse dar um palpite final a esse respeito, esse palpite seria o de que este assunto não tem como ser discutido, e pronto! (Não considerem isto uma promessa de que eu não vou mais discuti-lo no futuro.)
  4. Sobre a natureza do tempo (o fluir do tempo), as sugestões dadas vão desde a sua completa inexistência, até a proposição de ser ele uma propriedade da matéria, gerada por uma partícula – à semelhança do que ocorre com a massa e a força, que são geradas por partículas especiais -, passando pela alternativa de que ele existe em três dimensões (passado, presente e futuro) mas só conseguimos detectar uma delas, o presente. No primeiro caso, não teria nenhum sentido falar em viagem no tempo, enquanto que no último, viajar no tempo equivaleria a detectar uma outra dimensão temporal (passado ou futuro), ou seja, tarefa tão difícil quanto poder enxergar uma quarta dimensão espacial.
  5. Os ETs foram aqui tratados como mocinhos, bandidos, políticos, internautas mal-intencionados, fabricantes de pesadelos e de outras maneiras mais. No entanto, não se apresentou prova alguma de que eles existem e nem sequer opinião a seu favor ou contra. Todavia, vale a pena citar algo que não foi dito em nenhum dos textos anteriores: segundo o entomologista e biólogo Edward O. Wilson, em “The meaning of human existence”, a visita de um ET a um outro planeta onde existe vida seria a sua condenação (do ET) à morte causada pela contaminação por micro-organismos. Portanto, se um ET, que provavelmente sabe disso, vier à Terra ele terá que exterminar a vida por aqui antes de desembarcar. É por isso que muitos dizem que os ETs só são viáveis na forma de robôs e não de seres vivos.
  6. As leis da natureza também foram objeto de discussão aqui. Talvez a mais citada delas tenha sido a da evolução das espécies, revelada por Charles Darwin. Poucas outras teorias que procuram descrever as leis naturais têm tanta aceitação como a de Darwin, o que remete a várias questões: Seremos capazes um dia de descobrir todas as leis da natureza? Teríamos ferramentas capazes de descrevê-las, como parece ser o caso da matemática em relação a algumas leis físicas? Será mesmo o universo regido por leis imutáveis? Existem outros universos ou multiversos, com outras leis?

Enfim, muita discussão e poucas conclusões. Mas acho que todos concordarão que o prazer está, simplesmente, em falar sobre esses temas, tão envoltos em mistérios que desafiam a nossa imaginação.