Orotour: o dia seguinte

Realizamos no período de 08 a 11 de dezembro a reunião comemorativa de 40 anos de formatura da Turma 71 do ITA, no hotel Orotour, em Campos do Jordão. Foi uma festa tipo arrasa-quarteirão, daquelas que deixam uma tristeza agradável quando terminam. É isso o que sinto agora. Só me lembro de ter passado por essa sensação quando era criança, nos dias que se seguiam ao Natal, depois de ter passado a manhã daquele dia brincando com os primos, cada um exibindo o brinquedo que havia ganho e esperando pelo almoço, na casa de meu avô, sentindo o cheiro gostoso da comida – meio italiana, meio caipira – sendo preparada pela minha avó, ajudada pelas filhas e noras.

Num artigo anterior (Orotour) eu disse que os amigos da Turma 71 eram amigos virtuais, existentes apenas na minha imaginação, e que no evento de Orotour eles seriam transformados em amigos reais de carne e osso. Agora, vocês devem estar perguntando: E então, a experiência funcionou? Para responder a esta pergunta eu vou transcrever o texto escrito por meu amigo Paulo Roberto Bergamasco para homenagear outro amigo, Ary Handler, e, de certo modo, toda a Turma 71. Segue o texto, que foi intitulado “A cosmologia da T71 segundo Galileu”.

“Se Galileu ainda pudesse avaliar o universo novamente, descobriria um corpo cósmico novo, situado no Quadrante T71, no braço SJC da Via Dutra, composto de cerca de uma centena de elementos, todos muito diversos entre si e todos passando por Deformações contínuas

Ao calcular a idade deste corpo chegaria a um número preciso: 45 anos! Ao calcular a provável duração, surpreso, concluiria ser de, com sorte, mais 35 anos! Após este período, deste corpo nada mais físico restaria…

Intrigado, esmiuçaria as Energias regendo o funcionamento deste improvável corpo, logo batizado de T71. Veria logo que havia uma Energia desconhecida, emanando de um Elemento Central que mantinha o T71 coeso, independentemente do número variável de Elementos e das Deformações destes Elementos. Convencionaria chamar esta singular Energia de AH. ) “ A” representando o Começo, o Ponto de Referência e o “H” representando a capacidade de Manejo (Handling) do Elemento Central (Handler).

Observaria que AH emitia Energia de forma contínua durante o ano, nível DC. Observaria,também, vários picos de emissão durante o ano e, a cada 5 anos, emissão exuberante de Energia.  O efeito desta energia nos demais elementos era, também, singular: ao captá-la, todos os outros elementos começavam a trocar Energia entre si, aproximando-se uns dos outros, fortalecendo, assim, o Corpo T71 como um todo! Enfim, diminuindo a Entropia, em franca oposição à natural tendência de afastamento dos Elementos…

Com o tempo Galileu seria tomado de carinho por AH e passaria a chamá-lo, sem nenhuma motivação científica, de Ary Handler, aquele onde as coisas começam e de onde vem a Energia que mantém o T71 coeso!

Galileu, por fim, desejaria que AH sobrevivesse a todos os outros elementos para que este raro, improvável e singular Corpo Cósmico batizado de T71, situado no braço SJC da Via Dutra, tivesse a máxima duração possível!

Longa vida a você, amigo ARY Handler!!”

A julgar pela mensagem acima, o projeto Orotour teria sido um sucesso completo se não fosse por uma pequena falha: ao invés de seres de carne e osso, meus amigos virtuais foram transformados em seres de pura energia … e sentimento. Sorry!

Até 2016!

Orotour

Este texto não é recomendado para os desavisados, pois contém trechos de solipsismo explícito. A esses é recomendado ler antes Gênese e Granjota.

No dia 08 de dezembro vamos iniciar as comemorações de 40 anos de formados (ou deformados, como queiram) da Turma71 do ITA, no hotel Orotour, em Campos do Jordão. É mais uma das histórias que a minha mente cria, mas desta vez estou pensando em um roteiro menos convencional. Já planejei os eventos principais, quem vai comparecer, quem vai faltar, mas deixei algumas pendências para improvisar na última hora. Tinha pensado em incluir a todos e idealizar uma festa de arromba em que todos se sentissem plenamente felizes. Acabei decidindo que essa não seria a melhor opção. Não teria muita graça. Seria mais uma daquelas histórias que invento e que caem no esquecimento logo depois. Quero alguma coisa nova, radical e inesquecível. Então, tomei a decisão de não planejar alguns detalhes e improvisá-los na última hora. Isto dará um toque de realidade a esta história virtual. Far-me-á acreditar que os personagens têm vida própria, que podem tomar decisões, que são amigos de carne e osso.

Quero um final parecido com o da história do Pinóquio (também de minha autoria, claro), mas real. Para isso, basta constatar que esses amigos virtuais demonstraram bravura e lealdade (como Pinóquio) em todas as histórias de que participaram. Se eu me concentrar nisso como um monge tibetano, ao final do encontro todos os personagens da Turma71 deixarão de ser virtuais, indivíduos existentes apenas em minha imaginação, para se transformar em pessoas de carne e osso. Sairemos de lá, não apenas como um único indivíduo e suas fantasias, mas como um grupo de amigos, aqueles dos meus sonhos, só que reais. A partir de então terei a companhia deles para dividir comigo a tarefa de imaginar a continuação deste mundo que criei até aqui. Uma continuação que seja muito melhor do que a história que tem se desenrolado até agora. Admito que não tenha sido capaz de imaginar um mundo minimamente justo, pacífico e alegre. Eles terão plena capacidade de me ajudar, pois são grandes pessoas. Afinal, estudaram em uma excelente escola.

Que grande sacada esta minha, a de inventar a amizade! O amigo nos ajuda a carregar o fardo da vida, como se diminuísse a força da gravidade; espanta a nossa solidão, como se multiplicasse o nosso “eu”; alivia a nossa tristeza, como se a roubasse para si; absolve-nos da culpa como se fosse um juiz todo-poderoso; discorda, corrige e orienta sem nos apequenar. A amizade, enfim, completa a natureza humana igualando-a ao divino. Com ela é possível construir um mundo de verdade. Estou muito orgulhoso dessa invenção. 

___________                                                                                                                                       Oops!…de repente entendi qual é o plano divino para o mundo! Por que não havia pensado nisto antes? Está tão claro: Deus, no seu isolamento, sentindo falta de amigos, criou este mundo para produzi-los. Criador e criaturas juntam-se por meio da amizade para formar a “unidade”. Essa unidade é como uma imensa obra em que Deus é a fundação e as suas criaturas são os tijolos que vão sendo sobrepostos numa construção infinita. Então, Deus é único, mas dele fazem parte também as suas criaturas. É um deus multifacetado. Porém, só a unidade é completa. Ninguém isoladamente pode ser completo. Nem mesmo Deus. Nem mesmo Ele conseguiria “viver” sozinho. Até Ele precisa de amigos.

Granjota

         Poucos vão entender este texto; aos demais peço desculpas.

         Tive um novo acesso de solipsismo e quero falar sobre essa experiência. Há muito criei uma história que tem preenchido quase todo o meu tempo. É uma história sobre uma escola de engenharia chamada ITA (o nome dela talvez tenha a ver com a grande quantidade de nordestinos que ali coloquei). Diz a história que fui um aluno daquela escola e que fiz grandes amizades lá. O tempo que lá passei foi tão marcante que são raras as noites em que eu não sonho com algum episódio que envolva a escola ou os amigos que lá fiz. Mesmo acordado, minha mente trabalha na confecção desses amigos “personagens” e eles estão ficando cada vez mais perfeitos. É incrível a diversidade de personalidades que consegui criar, todas elas, evidentemente, de ótimo caráter. Criei não só os amigos mas, também, suas esposas e famílias. Infelizmente não sou perfeito e permiti que alguns desses meus amigos abraçassem ideologias políticas ultrapassadas. Mas são poucos e, claro, não vou citar nomes.

         O fato novo é que, neste exato momento, estou imaginando que eles estão se confraternizando num almoço de Natal na Granjota. Não estou presente nessa confraternização porque quis testar se os meus personagens podem ter vida independente da minha imaginação. Constato agora que eles podem (they can!)! E como se divertem! Isso me deixa um pouco frustrado porque me faz sentir menos poderoso, como se houvesse um distúrbio na “força”.

         Admito que foi um erro não ter me imaginado também como parte da folia e, humildemente, – mesmo sabendo que me dirijo a seres imaginários – digo: “Desculpem-me pela ausência e estou feliz que vocês estejam se divertindo!”

         Para compensar vou idealizar uma grande confraternização para os 40 anos de formatura. Já estou pensando no local, nos detalhes e … diabos, não consigo bolar um slogan para ela!