A chegada (filme)

Meu amigo Otávio tinha razão; o filme “A chegada (Arrival)” é muito bom. Continuar lendo

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Vista panorâmica (The big picture)

A imagem com muita definição é o inimigo número um dos vaidosos porque ela acentua as pequenas imperfeições do nosso corpo. Acho que a profissão mais beneficiada com a chegada da TV de alta definição foi a dos maquiadores que têm que fazer milagres para encobrir essas imperfeições. O problema está nos detalhes. O mundo dos detalhes é um mundo estranho e nem sempre belo. Tome, por exemplo, a foto ampliada de um ácaro (a primeira da sequência abaixo). Não existe bicho mais feio! Se fôssemos lutar contra inimigos com essa aparência nos entregaríamos logo de início. E, no entanto, eles estão à nossa volta sem nos preocupar. Nunca ouvi dizer que alguém tivesse pesadelos com ácaros. Isto porque não os vemos a chafurdar em nossos sofás, tapetes e alimentos. Num plano mais aberto, que é o que nós enxergamos, os sofás, tapetes e alimentos parecem totalmente inabitados.

O problema imagem1

O mesmo acontece com as cidades. Vistas das ruas elas podem estar imundas, mas do alto elas parecem maravilhosas. Não é à toa que um dos programas mais populares da televisão é “O mundo visto do céu”, do Discovery Chanel, que mostra lindas cidades e paisagens filmadas a bordo de aviões e helicópteros. Entretanto, é curioso notar que mesmo as imagens tomadas do alto podem não ser tão agradáveis, como, por exemplo, aquelas tomadas de cidades onde ocorre uma guerra civil ou logo após terem sido abaladas por um terremoto ou visitadas por um tsunami. Para fugir dessas cenas teríamos que nos afastar ainda mais do objeto de visão.

De um novo ponto de vista, por exemplo a bordo de uma espaçonave, o nosso planeta, que aparece na foto acima, não dá uma única pista de que a coisa aqui em baixo está se degringolando a cada dia. Ele parece majestoso nas suas cores azul, branca, verde e marrom, movendo-se calma e harmoniosamente em torno do sol, como uma bailarina numa pista de dança. Todavia, as coisas ao seu redor também não estão tão calmas. Do sol irrompem frequentes tempestades solares, asteroides se chocam com planetas, estrelas explodem em supernovas, buracos negros engolem estrelas e o que passar por perto deles. É preciso se afastar ainda mais para ficar livre dessas visões catastróficas e, novamente, focalizar a beleza do quadro mais aberto, neste caso o universo inteiro. Mas para onde se afastar se não existe nada além do universo?

Precisaríamos de um lugar privilegiado onde montar a nossa câmera para tirar uma foto do universo todo, numa tomada onde as catástrofes mencionadas fossem apenas detalhes imperceptíveis. Mas a ciência ainda não encontrou esse lugar. Ela apenas especula sobre algumas alternativas. Uma delas é a possibilidade de existência de outras dimensões espaciais além das três dimensões conhecidas. A outra alternativa é a da existência de universos paralelos ao nosso, os multiversos. Uma terceira, mais esdrúxula, é a ideia do block universe, que especula sobre o congelamento da linha do tempo fazendo com que passado, presente e futuro sejam percebidos simultaneamente.

Ainda que uma dessas alternativas venha a ser confirmada pela ciência, nada garante que, na foto tirada desse novo ponto de vista, enxergaríamos a beleza, a harmonia e a ordem definitivas que não conseguimos ver nos detalhes.