Contos

Memórias

1.     A missão

Não era comum a uma instituição de pesquisa dar as boas vindas aos seus visitantes com os dizeres que cintilavam naquela enorme placa diante do imponente edifício do LES. Mas aquela não era uma instituição de pesquisa comum!

Laboratório de Estudos do Sono

LES

  O sono é um procedimento regulador da nossa memória. É durante o sono que as nossas memórias são reconfiguradas para consolidar em nossas mentes as experiências pelas quais passamos durante a vigília.

  Distinguimos entre passado, presente e futuro por meio do conteúdo de nossas memórias. O que está presente nela é passado, o que não está é futuro e a fronteira é o presente.

  O tempo é um ente ilusório; todo o desenrolar da história não passa de um mero instantâneo do passado, presente e futuro, de um quadro onde se poderia vê-los todos ao mesmo tempo, caso se dispusesse de um mecanismo adequado de manipulação da memória.

  É inevitável concluir que o sono seja um túnel do tempo pelo qual se pode visitar qualquer pedaço desse quadro.

  No momento não conseguimos comprar ingresso para utilizar esse túnel com um destino escolhido, mas, teoricamente, isso seria possível.

Tornar essa viagem real é a nossa missão!

  Nos seus dez anos de existência o LES já demonstrou a sua utilidade no tratamento de distúrbios do sono e da memória, embora esteja claro nos dizeres da placa que essa não é a sua missão principal. O mais incrível é que ultimamente ele tem atendido aos pacientes sem cobrar qualquer taxa, aceitando, quando muito, doações daqueles que têm recursos para fazê-las.

Na verdade, o LES usufrui dos tratamentos para recolher dados para as suas pesquisas do sono e memória e, não se pode negar, esses dados são valiosos, pois seria difícil conseguir voluntários para a experimentação com o cérebro. Não é a toa que os sócios do LES dizem que o Laboratório poderia até pagar, se fosse necessário, para tratar de seus pacientes. A riqueza de dados que as experiências com os pacientes oferecem para as pesquisas do Laboratório são um pagamento mais do que justo, melhor do que qualquer quantia em dinheiro.

O Laboratório recebe verbas públicas para as suas pesquisas, mas em quantidades muito inferiores àquelas que despende para manter o pessoal qualificado do seu quadro e, especialmente, para arcar com os recentes investimentos feitos em sofisticados equipamentos. Um bom observador poderia facilmente deduzir que nenhum empreendimento do porte do LES seria viável sem um grande aporte de recursos, o qual, seguramente, não era proporcionado somente pelas verbas públicas e pelas eventuais doações dos pacientes. Mas o LES prestava um grande serviço à sociedade e ninguém estava interessado em verificar de onde vinham os seus recursos.

2.     Os sócios

O Dr. Nomura estava especialmente ocupado naquela manhã com as novas perspectivas que o seu trabalho de pesquisa lhe apresentava. Todavia ele tinha que atender àquele compromisso diário de falar com o seu colega antes de iniciar os trabalhos do dia. Por isso subiu rapidamente as escadarias de acesso àquele edifício imponente.

Ofegante, saudou a secretária que estava detrás de um balcão de mármore fazendo alguma anotação em um livro à sua frente:

– Bom dia! O Dr. Li está em seu escritório? – perguntou e, sem mesmo esperar uma reposta, foi se dirigindo à rampa que levava ao andar de cima.

– Bom dia Dr. Hiroyuki. – respondeu a secretária, que costumava chamar a todos pelo primeiro nome. – O Dr. Yung está à sua espera há algum tempo.

O Dr. Nomura não se cansava de admirar aquele ambiente silencioso e de arquitetura imponente que visitava todos os dias nas últimas semanas. Subiu rapidamente a rampa ladeada por corrimãos talhados em mármore e chegou rapidamente ao seu destino. Bateu à porta de madeira maciça e foi logo entrando, sem mesmo ouvir uma resposta do outro lado.

O Dr. Yung Li, que estava sentado diante de sua escrivaninha, virou-se para o recém-chegado e, estendendo a sua mão na qual segurava uma folha de papel, disse com uma voz um tanto cansada e rouca para os seus 41 anos:

– Eis os números para você apostar hoje. Como foi a sua sorte ontem?

– Ótima. Ganhamos um bocado de dinheiro. Você realmente consegue prever o futuro.

– De fato. E graças às suas experiências malucas. Na verdade não sei se estou contente ou triste com esse meu poder. Às vezes sinto-me de forma estranha. E, você sabe, aqueles pesadelos…

– Eu compreendo. Com o tempo eles vão desaparecer e ficará só a parte boa da coisa. – disse o Dr. Nomura, procurando animar o seu colega. Depois de uma pausa continuou:

– Hoje vou iniciar aquela nova linha de pesquisa. Estou certo que ela trará resultados muito promissores, mas vai exigir um investimento grande em novos equipamentos. – O Dr. Li, já sabendo que ele seria requisitado para arrumar o dinheiro, ainda tentou convencer o amigo. Sem muita esperança disse:

– Hiroyuki, você pode solicitar um financiamento para as pesquisas. Tenho certeza que qualquer entidade de fomento aprovaria recursos para levar adiante os nossos trabalhos.

– Caro Yung, você sabe como esses órgãos são burocráticos. Além disso, correríamos o risco de expor demasiadamente as nossas técnicas antes de patenteá-las. Eu sei que você não se sente confortável conseguindo o dinheiro tirando proveito dessa sua condição. Eu também sentiria o mesmo. Mas, lembre-se que o dinheiro destina-se a um projeto científico e não está sendo utilizado para o nosso benefício pessoal.

Essa não tinha sido a primeira vez que falavam desse assunto. E sempre que tocavam nele o Dr. Nomura percebia o olhar de preocupação de seu amigo. Ele ainda insistiu em confortá-lo:

– Não vejo nenhum mal em utilizar esse dinheiro em prol de um projeto científico. Afinal ele é decorrente dos resultados de nossas pesquisas. Se não fosse pela experiência que nós fizemos você não teria adquirido essa capacidade. Nada mais justo do que utilizá-la de volta em prol da Ciência. Logo poderemos ir atrás de outras formas de financiamento, mas agora precisamos ser mais práticos.

Vendo que as suas palavras não traziam nenhum conforto ao amigo, o Dr. Nomura procurou mudar de assunto: – Conte-me um pouco sobre aquele sentimento de imortalidade do qual você se diz vítima.

– É uma coisa terrível Hiroyuki. Eu tenho a impressão de já ter vivido este momento inúmeras vezes e, no entanto, não consigo me lembrar claramente dos fatos. Minha vida parece ter se tornado um círculo infindável, do qual eu não mais consigo sair.

Depois de uma longa pausa, como se para colocar em ordem os seus pensamentos, ele continua: – Os fatos se misturam com os sonhos e eu não consigo separá-los de forma nítida. Num certo momento eu o vejo com cabelos grisalhos, mas logo a seguir você tem a aparência de agora.

O Dr. Nomura ouvia o relato do seu amigo com certo sentimento de culpa mas, com sinais de cabeça, procurava incentivá-lo a continuar falando.

– Às vezes, – continuou o Dr. Li, – eu não consigo reconhecer meu próprio corpo, ora mais jovem, ora mais velho. Outro ponto, por exemplo, – disse, olhando fixamente para o Dr. Nomura – esta nossa conversa parece-me que já ocorreu inúmeras vezes, mas eu não consigo precisar o desfecho dela.

O Dr. Nomura interrompeu-o: – Você consegue se lembrar exatamente do que ocorreu ontem?

– Sim, mas as lembranças de antes da experiência estão muito confusas na minha mente. É como se eu não tivesse vivido naquele período.

– E sua percepção do futuro? Está mais nítida agora do que antes?

– O passado e o futuro… – neste momento o Dr. Li fez um parêntesis para se corrigir – sei que eu não deveria falar em passado e futuro, mas você me entende muito bem, não é?

O Dr. Nomura assentiu com a cabeça e o Dr. Li continuou: – O passado e o futuro misturam-se em minha cabeça e só com muita concentração consigo discernir entre eles. Neste momento, por exemplo, consigo visualizar uma grande tragédia na Europa que deverá acontecer em breve. Mas não consigo prever exatamente quando e onde ela ocorrerá.

O Dr. Nomura lembra com pesar que a tragédia à qual ele provavelmente se referia acontecera há alguns dias no aeroporto de Londres e ele tivera conhecimento disso. Todavia não fez menção ao fato. Para o Dr. Nomura tudo aquilo fazia sentido. O esquecimento da fase anterior à experiência, a confusão entre o passado e o futuro e, principalmente, o sentimento de imortalidade eram provas irrefutáveis de que a teoria estava correta. Ele não entendia por que eles não aceitavam isso. Mas ele ainda estava disposto a lutar muito para o reconhecimento da teoria.

Voltando de seus pensamentos ele achou por bem mudar o rumo da conversa e retornou ao assunto inicial:

– Hoje devo fazer algumas experiências novas na direção que você sugeriu na semana passada. Somente ontem consegui colocar o equipamento em ordem para funcionar. Você sabe, esses equipamentos já estão ficando obsoletos para os nossos testes… – Ao perceber que voltara ao assunto do dinheiro arrependeu-se. Mas o Dr. Li, que não parecia também disposto a continuar aquela discussão sobre ganhar dinheiro fácil, disse:

– Gostaria de acompanhá-lo nas suas experiências, mas você sabe que tenho também os meus afazeres aqui. De todo modo desejo sucesso nas suas pesquisas.

O Dr. Nomura assentiu com a cabeça e, levantando-se, disse: – Deixarei você a par dos resultados que eu obtiver. Agora preciso me preparar para a entrevista de hoje à tarde. Você sabe, precisamos conquistar adeptos para a nossa teoria e a entrevista é muito importante. Cuide-se bem! – E saiu apressadamente da sala, sem deixar de pensar na razão principal pela qual seu amigo aceitara se submeter àquela ousada experiência médica.

3.     A entrevista

– Então, Dr. Nomura, gostaria de começar perguntando sobre o real significado daquela inscrição na frente do LES. Ela não é nem um pouco convencional. Vender a ideia de viajar no tempo não poderia comprometer a seriedade da missão de uma instituição que, afinal, tem se mostrado tão útil no tratamento de pessoas com problemas neurológicos?

Ele já havia sido questionado sobre isto muitas vezes antes e a sua resposta veio de forma burocrática:

– De fato foi uma estratégia arriscada, mas que tem dado certo. As pessoas têm um fascínio especial por viagens no tempo e os mais favorecidos estão propensos a contribuir financeiramente para as pesquisas que possam levar a esse objetivo. Se, além disso, a instituição prestar serviços às pessoas com problemas de saúde, melhor ainda. As contribuições ao LES vêm preponderantemente de pessoas sãs e apenas uma pequena parte de pessoas que se beneficiaram com um tratamento em nossa instituição. Posso dizer que aquela placa na frente do LES tem atingido o seu objetivo.

A repórter, com uma indisfarçável admiração pela pessoa diante dela, continuou, com todo respeito:

– Leiga como sou, eu ainda não consegui compreender exatamente aqueles dizeres, mas espero ter uma melhor noção deles com o andamento desta entrevista e, neste sentido, gostaria que V. me explicasse em termos simples as pesquisas que estão sendo feitas no LES.

O Dr. Hiroyuki Nomura ajeitou-se na cadeira antes de começar a falar. Este era o aspecto mais recompensador da sua profissão: estar diante de um leigo interessado em conhecer o seu trabalho e, o que era mais importante, divulgá-lo para toda a sociedade, através de jornais e revistas. Ele não era um mestre das comunicações; ao contrário, tinha algumas deficiências no domínio da língua que não era a da sua pátria. No entanto, quando se tratava de explicar o seu trabalho, ele era muito fluente e didático. Tímido por natureza, transformava-se num eloquente debatedor dos assuntos na área que mais dominava, a neurociência. Tinha apenas 43 anos, mas já gozava de um alto conceito entre os seus pares pelos inúmeros trabalhos que já tinha realizado estudando casos de paranormalidade. Em virtude da popularidade desse tema, o Dr. Nomura tornou-se, também, muito popular. Sua presença era obrigatória em qualquer evento científico nessa área, assim como em debates públicos importantes sobre o tema. Depois de alguns segundos desfrutando essa situação, ele concentrou-se na resposta:

– Antes de tudo gostaria de dizer que os resultados que venho obtendo e a teoria que venho defendendo são fruto de um trabalho conjunto com o Dr. Yung Li. De fato, ele tem feito mais do que eu, o que é explicável por ser mais novo. – disse, sorrindo, ao lembrar que o seu colega tinha 41 anos. Continuou, voltando seu olhar para a repórter:

– Nossa última pesquisa começou há apenas um ano, após a conclusão dos trabalhos que elucidaram alguns casos de paranormalidade. Um balanço dos casos ainda não compreendidos, feito na época, mostrou que um deles merecia nossa atenção daquele momento em diante. Tratava-se da capacidade de prever o futuro. – Nesse momento desviou novamente seu olhar da repórter, procurando as palavras exatas para continuar.

– Você sabe, algumas pessoas demonstram capacidades mentais que estão muito além do que pode ser considerado normal. Por exemplo, conseguem prever uma determinada catástrofe ou, num jogo de cartas, conseguem identificar qual a carta que uma outra pessoa escolhe dentre um monte de cartas diante dela. A princípio, pensávamos que estes exemplos tratavam-se de fenômenos diferentes, mas depois concluímos que eles têm a mesma explicação científica.

– E qual é essa explicação? – perguntou apressadamente a repórter.

O Dr. Nomura, um pouco contrariado com a interrupção da sua exposição, ainda que sem dar mostras disso, continuou como se não tivesse ouvido a pergunta:

– Nós concluímos isso ao catalogar um grande número de casos de paranormalidade e notar que a grande maioria deles tem origem numa mesma capacidade mental que pode ser explicada por nossa teoria de uma forma bastante convincente.

A repórter estava muito atenta em sua cadeira e o Dr. Nomura percebia isso com satisfação. Disse, olhando fixamente para a repórter:

– A explicação é que as pessoas podem viajar no tempo. Visitar o futuro. Assim conseguem saber o que vai acontecer à frente no tempo, ou saber qual a carta escolhida por uma outra pessoa pois já teriam visto o desfecho da ação antes de ela ocorrer.

– Mas como podem viajar no tempo? – perguntou a repórter, um tanto decepcionada com a explicação.

– Aí está a grande questão! – respondeu o Dr. Nomura. – Nós concluímos que isso tem que ser possível e agora estamos tentando provar a teoria que permite isso.

– Mas então tudo ainda é uma teoria? Não há qualquer fato concreto a respeito? – perguntou a repórter, um pouco mais decepcionada.

O Dr. Nomura, embora já esperasse essa reação, sentiu-se levemente desconfortável com essa impaciência. Nesses momentos ele gostaria de ter seguido outra carreira onde os resultados pudessem ser mostrados num laboratório. Mas as pesquisas com a mente humana são diferentes. O que poderia ser mostrado? Uma tomografia ou uma ressonância magnética do cérebro, com alguns desvios completamente imperceptíveis para um leigo? Mas ele já adquirira uma capacidade de se controlar nessas situações e voltou à sua explicação com o mesmo entusiasmo de antes.

– Há fatos concretos que, no entanto, podem não ser totalmente compreendidos pelas pessoas que não estão familiarizadas com o funcionamento da mente humana. O estudo da mente desses paranormais tem mostrado aspectos que nos induzem a supor que eles estiveram vivendo épocas futuras de suas vidas, embora não tenham plena consciência disso. O Dr. Nomura sabia que não adiantaria entrar em detalhes a esse respeito, pois sua explicação não seria entendida pela repórter. Pensou por um momento para achar o modo mais fácil de se fazer entender. Então continuou:

– Temos razões de sobra para supor que esses paranormais têm a capacidade de viajar no tempo e, o que é mais interessante, que todos nós temos. – Nesse momento ele olhou para a repórter para avaliar a sua reação e notou um ar de incredulidade em sua expressão.

– A noção de tempo pode ser entendida como um simples estado mental. Neste momento, por exemplo, nossos estados mentais estão focalizados neste instante e nós vivemos este instante como se fosse o presente. A qualquer momento podemos nos transferir para outra época e achar que aquele é o momento presente.

A expressão de incredulidade da repórter ficava cada vez mais pronunciada, mas ela não dizia nada. O Dr. Nomura, parecendo ter achado o caminho correto para a sua explicação, falava, agora mais fluentemente.

– A distinção entre passado e futuro, nessa situação, deve-se simplesmente ao fato de que em cada instante no qual a sua mente está focalizada as informações que ela armazena dizem respeito a uma época que se convencionou chamar de passado. Analogamente, tudo aquilo que não está armazenado na memória se convencionou chamar de futuro.

Nesse ponto a repórter interrompeu-o: – Mas as informações que estão armazenadas assim estão porque a pessoa viveu aqueles momentos e os registrou em seu cérebro; enquanto que aqueles momentos ainda não vividos não podem ter sido registrados. Isso me parece óbvio.

– Parecia óbvio para mim também, – respondeu o Dr. Nomura -, mas essa interpretação, universalmente aceita, não se ajusta aos casos de paranormalidade que eu citei. E, quando uma teoria não se ajusta aos fenômenos reais, ela deve ser substituída por outra que consegue explicá-los. – A conversa, agora, estava tomando o rumo que o deixava à vontade. Ele continuou com eloquência:

– Quando a pessoa se desloca de uma época para outra, as informações em sua memória se ajustam àquela nova situação de modo a dar à pessoa a exata impressão de que não houve qualquer descontinuidade no tempo. Note que eu continuo a falar em época, mas por um mero propósito didático, pois de acordo com essa teoria, o termo época não tem mais o significado que comumente se dá a ele.

– Mas como se dá esse deslocamento no tempo? Eu, por exemplo, nunca experimentei isso, pelo menos conscientemente. – perguntou a repórter.

– Exato! Ninguém faz isso conscientemente. Ninguém também notou qualquer interrupção no curso de sua vida passando, repentinamente, para outra época. Portanto, deve existir um momento bem propício para se fazer essa passagem e, ainda, de forma inconsciente.

– Durante o sono? – arriscou a repórter.

– Exatamente! – exclamou o Dr. Nomura, satisfeito com o andamento da conversa. – Foi exatamente isso que procuramos investigar. A fase do sono passou a ser o nosso laboratório. E temos estudado inúmeros casos até o momento, com resultados fantásticos.

– Você poderia citar alguns que eu compreendesse? – perguntou a repórter, com humildade.

– A conclusão mais fantástica foi obtida após estudarmos vários casos envolvendo pessoas normais e paranormais. Analisamos a configuração de seus cérebros, focalizando nas áreas relacionadas com a memória, antes e após o sono, e descobrimos, como era de se esperar, que as pessoas normais acordavam com a mesma configuração de antes de dormir. No entanto, em alguns casos, os paranormais apresentavam uma configuração diferente, como se sua memória tivesse sido alterada durante o sono.

– O que significa isso? – perguntou ansiosamente a repórter.

– É como se alguma informação tivesse sido erroneamente colocada ali. Pela nossa teoria, aquele indivíduo ao viajar no tempo e regressar ao instante presente não teve a sua memória reconfigurada exatamente como deveria estar para aquele momento. Ele trouxe, por uma deficiência de seu organismo, informações sobre o futuro, ou perdeu algumas informações sobre o passado. Como você pode deduzir, isto tem a ver tanto com “prever o futuro” como com “esquecer o passado”, que é uma explicação para alguns tipos de amnésia.

A repórter ainda estava cheia de dúvidas. – Ainda não estou compreendendo totalmente. – disse. – Se a pessoa sai de seu próprio corpo naquele momento para se transferir para outra época, ou… não sei como chamar isso. Ah, não importa! Se a pessoa se transfere para outra época, como ela poderia estar ali presente quando acordasse?

– Pois esta é a parte crucial da teoria. – disse o Dr. Nomura. – As pessoas têm uma existência sem descontinuidade, tanto para elas próprias quanto para as outras pessoas que com elas interagem. É por meio do sono que um indivíduo pode visitar diferentes “épocas”, ou melhor, “trechos” da sua existência, sem ter a menor ideia de que pode ter passado de um trecho a outro através do sono. Lembre-se que o tempo não tem mais o significado que usualmente damos a ele. – Depois de uma breve pausa completou: – Portanto, V. pode considerar que os períodos de sono são como “portas” através das quais os indivíduos “entram ou saem” para viver em diferentes épocas de suas vidas, todas elas, de algum modo, já vividas.

A expressão da repórter era de incredulidade. Ela tinha tantas dúvidas que não conseguia pensar no que falar em seguida. O Dr. Nomura deu um tempo a ela e, sorrindo, ficou esperando pela pergunta derradeira. Depois de alguns segundos ela veio:

– Uma pessoa que, por um erro no processo de reconfiguração da memória – como em alguns casos de paranormalidade que vocês têm estudado -, venha a ter conhecimento de uma tragédia futura poderia tomar alguma ação para evitá-la. Nesse caso, o futuro seria alterado? – perguntou a repórter utilizando as palavras que ela conseguiu juntar no momento.

Já preparado para essa pergunta, o Dr. Nomura responde: – Uma cadeia de fatos “futuros” – ele enfatiza a palavra futuros – não pode ser alterada, caso contrário ela não poderia ser armazenada na memória daquela pessoa. Todas as cadeias de fatos passados, presentes e futuros são imutáveis, simplesmente porque os termos passado, presente e futuro não têm mais o significado que costumamos dar a eles. Aliás, não têm significado algum.

– Hah! – Foi tudo o que ela conseguiu dizer.

4.     Oferecendo-se como cobaia

O Dr. Nomura vivia uma fase difícil de sua vida. Estava muito animado com os resultados de suas pesquisas, mas, também, muito preocupado com o estado mental de seu amigo. Ele se sentia culpado pelo que acontecera com o amigo e isso não lhe saia da cabeça. Ainda que o amigo tivesse insistido em ser cobaia daquela experiência, isso não o aliviava nem um pouco.

Ambos haviam discutido muito sobre a experiência e tinham chegado à conclusão de que ela só poderia ser conduzida com alguém que não tivesse qualquer problema neurológico, seja relacionado aos hábitos de sono ou de processamento da memória e, especialmente, não demonstrasse qualquer traço de paranormalidade. Como sujeitar alguém a uma experiência que poderia resultar em danos mentais? Foi diante dessa dificuldade que o Dr. Li se oferecera como cobaia. Mais do que ter se oferecido, ele insistira para ser a cobaia. Ele falara:

– Você sabe, eu tenho boa saúde mental mas não física. Não tenho muitos anos de vida mais. Entretanto, mais importante do que isso é o fato de que eu confio em nossas pesquisas e também em sua habilidade como neurocirurgião.

O Dr. Nomura tentara retrucar: – Mas … – Ao que ele refutara sem hesitação: – Sem mas! Vamos começar logo a maior experiência de nossas vidas!

O Dr. Nomura sucumbira facilmente a tamanha confiança, mesmo porque ele estava mais ansioso do que o Dr. Li para ir adiante com aquilo. E assim fizeram.

A princípio pensaram que nada tivesse acontecido. O cérebro tem tanta capacidade de se adaptar a traumas a ele impostos que a cirurgia sofrida pela Dr. Li, mesmo não tendo trazido os resultados esperados, poderia não ter provocado nenhum dano irreversível também. Embora frustrados, essa era a esperança naqueles dias pós-cirurgia: o aparente erro podia não ter causado danos ao Dr. Li. E assim foi por vários dias em que o Dr. Li se submetera a exames e testes. Nada indicava qualquer alteração em seu estado mental … até começarem os pesadelos.

O Dr. Li descrevia com detalhes os sonhos recorrentes que passara a ter: viver o mesmo instante por inúmeras vezes; sentir que tinha uma idade diferente daquela que o seu corpo indicava, ora mais velho, ora mais jovem; experimentar a sensação de imortalidade. Depois desses pesadelos acordava sempre confuso e precisava de ajuda para se localizar no tempo. O Dr. Nomura o acompanhava o tempo todo e se sentia única e inteiramente culpado pelo que estava acontecendo com o seu amigo mas se agarrava à esperança de que tudo aquilo iria passar ou – tinha vergonha de admitir – evoluir para um estágio que comprovasse o sucesso da cirurgia.

No entanto, à medida que passavam os dias o desânimo tomava conta de ambos, pois não havia mudanças no estado do Dr. Li. Não havia melhora e muito menos qualquer indício de que a experiência tivesse produzido qualquer resultado minimamente positivo na direção que eles esperavam de início: o controle do processo de configuração da memória durante o sono e, por consequência, o domínio completo dessa entidade ilusória chamada “tempo”.

Numa certa manhã, entretanto, as coisas iriam mudar drasticamente. Foi quando o Dr. Li, ao pegar o jornal para ler no laboratório, reclamara com o seu amigo: – O jornal de hoje ainda não chegou? Só tem este exemplar de ontem?

O Dr. Nomura olhara para ele, a princípio sem entender, mas antes de falar qualquer coisa percebera o significado daquelas perguntas e num salto gritara: – Funcionou! – O que funcionou? – Dissera o Dr. Li, assustado com o estado de êxtase do amigo. – A experiência funcionou! Para você esse jornal é antigo, mas para mim ele é de hoje.

Esse fato mudara para melhor o ânimo daqueles pesquisadores naquela manhã promissora. É certo que, mais tarde, tudo tenha acabado se mostrando apenas como um sucesso parcial, mas um resultado animador que indicava que eles estavam no caminho certo. E foi ótimo para as finanças do LES. Pena que às custas da saúde já deteriorada do Dr. Li.

5.     Ascenção e queda

Com a nova capacidade do Dr. Li de “lembrar-se” de alguns fatos futuros e seu uso para conseguir dinheiro para o LES, as coisas melhoraram muito para o Laboratório. Novos avanços foram feitos nas pesquisas com os mecanismos de memória e o Dr. Nomura estava otimista com a situação de seu projeto. O problema maior era a saúde do Dr. Li. Ele continuava com os problemas mentais decorrentes da cirurgia experimental a que fora submetido e, mais importante, os seus problemas físicos estavam se agravando rapidamente. Ele sabia que não lhe restava muito tempo de vida.

Assim, não decorreu muito tempo até que o Dr. Nomura recebesse a pior notícia de sua vida: seu amigo tinha falecido em decorrência das complicações de sua doença terminal. Embora cercado de uma equipe de pesquisadores de grande qualidade, ele sentiu-se só em seu projeto, sem condições de levar adiante aquela missão complexa. Isso o abateu por um longo ano em que quase nada pôde ser feito em prol do projeto. O LES passara a ser um simples hospital para cuidar de pacientes com distúrbios do sono e de memória.

O Dr. Nomura não conseguia aceitar essa nova situação, esperançoso que estava com as perspectivas do projeto antes da morte de seu amigo. Era preciso fazer novos testes mas não sabia como, ou melhor, com quem. Essa situação o estava deixando tão ansioso a ponto de lhe tirar o sono. Justamente ele, o senhor dos males do sono!

Certo dia ele tomou a difícil decisão: ele próprio seria a nova cobaia. Ele estava confiante que as limitações da experiência feita com o Dr. Li já estariam superadas com as novas técnicas desenvolvidas e tudo daria certo. Era preciso somente convencer a equipe médica a fazer o procedimento. Mas para isso, ele tinha um argumento poderoso, o suborno.

Assim foi feito. Nos dias que se seguiram ele repassou inúmeras vezes, com a equipe médica, os procedimentos a que seria submetido e, depois de assinar um termo de responsabilidade, tudo ficou pronto para a nova experiência. A cirurgia foi feita de acordo com o planejado, sem incidentes de qualquer natureza. Entretanto, os termos cobaia e experiência não são indicativos de certeza nos resultados e, nesse caso, nada podia ter dado mais errado.

Decorrido algum tempo da cirurgia, o Dr. Nomura ainda não tinha recuperado o seu estado mental para minimamente interagir com as outras pessoas. De nada adiantavam os esforços da equipe médica do LES para resgatá-lo de um estado nunca antes experimentado por outra pessoa e completamente desconhecido no meio médico. Sem a participação do Dr. Nomura nas pesquisas e sem os fundos necessários para funcionar a contento, o LES foi se descaracterizando até ser adquirido por novos donos que redirecionaram suas atividades completamente. Uma brilhante instituição tinha chegado ao fim e junto com ela as carreiras de brilhantes pesquisadores.

Porém, antes da transferência do Laboratório para os novos administradores, a equipe do LES tratou de transferir o Dr. Nomura para uma outra instituição onde ele pudesse ter um tratamento mais adequado, embora com poucas esperanças de cura para os seus distúrbios. Se O LES não tinha respostas para esse desafio, nenhuma outra instituição as teria.

Foi durante a transferência do famoso pesquisador que um fato curioso ocorreu. Uma enfermeira que se encarregava de recolher as coisas do Dr. Nomura encontrou entre os seus pertences um bloco de notas manuscritas o qual ela não conseguiu evitar de folhear. No manuscrito podia se ler: Manuscrito

6.     Déjà vu

Por Hiroyuki Nomura

“Em memória de meu amigo Yung”

Você teve alguma vez a sensação de já ter vivido antes uma dada situação? A sensação de que aquele momento já ocorrera em sua vida? Aposto que sim! Tente se lembrar desses momentos e verá que são momentos especiais, seja por se tratar de instantes de intensa alegria, ou de intenso medo, ou de grande suspense. Enfim, são sempre situações que gostaríamos de experimentar como se estivéssemos assistindo a um filme. E, acredite, houve um tempo, muito distante, em que era exatamente assim.

Naquele tempo, o homem era muito diferente, mais cerebral. Suas atividades lidavam muito mais com a mente do que com as suas outras habilidades. Embora ele fosse mortal, tinha a capacidade de se tornar imortal pela simples força de seu pensamento. Por um simples desejo podia se transportar para uma época agradável de sua vida e revivê-la como quem escolhe uma música num disco para ouvir. Todas as cenas de sua vida estavam ali à sua disposição para que ele as vivesse de novo, quantas vezes quisesse. Bastava se concentrar naquela de sua preferência no momento e, pronto, lá estava ele vivendo novamente aquela situação, como num sonho. Ele podia, se quisesse, ficar revivendo eternamente aquele momento escolhido, mas, evidentemente, havia outros momentos que ele gostaria de reviver e, assim, ficava saltando de uma época para outra, no passado ou no futuro, desfrutando seus momentos preferidos.

Num certo sentido, era de fato imortal, pois podia voltar a qualquer instante de sua vida quando quisesse, adiando a sua morte. Nessas idas e vindas ia evitando aqueles momentos desagradáveis que não quisesse reviver. Era como se sua vida estivesse inteiramente gravada num disco e ele tivesse a capacidade de escolher para ouvir a parte do disco que lhe conviesse. Não havia a noção de tempo como a conhecemos hoje. Toda a história de uma pessoa estava “gravada” à disposição dela própria para ser revivida, no todo ou em partes, de acordo com a sua vontade. O passar do tempo só era sentido quando a pessoa estava revivendo, sem interrupção, uma determinada fase de sua vida. Esse passar do tempo só era interrompido quando a pessoa, conscientemente, se transportava para outra fase de sua vida, no passado ou no futuro.

A viagem no tempo era, portanto, uma coisa corriqueira, que dependia de uma simples vontade. Todavia, essa viagem estava restrita ao intervalo de tempo delimitado pela existência de cada pessoa. Cada um podia viajar livremente pelo tempo entre o seu nascimento e a sua morte, mas não para fora desses extremos, simplesmente porque ele não existia fora deles. Esses extremos também tinham uma peculiaridade. A pessoa podia se transportar para um passado tão próximo do seu nascimento quanto sua memória era capaz de vislumbrá-lo (nada muito diferente de hoje). O incrível era que isso também valia para o futuro: ela podia se transportar para um futuro tão próximo da sua morte quanto a sua “memória” era capaz de levá-lo. Passado e futuro, neste aspecto, eram perfeitamente simétricos. Assim, a capacidade de reviver um passado ou futuro mais ou menos longínquo variava de uma pessoa para outra. Ninguém, contudo, era capaz de transportar-se no tempo diretamente para o instante de seu nascimento ou de sua morte, assim como nós, hoje, não nos lembramos do instante em que nascemos. Podia-se chegar tão perto quanto imaginável, mas não exatamente no exato instante daqueles eventos. Era como se ao ouvinte não fosse dado o poder de ligar ou desligar o toca-disco. Uma vez ligado, ele podia escolher qualquer música, mas não desligá-lo. Isto só aconteceria, de uma forma natural, quando ele deixasse os últimos acordes se desenrolarem até o seu final. Para se entender isso, entretanto, é necessário que se entendam outros aspectos daquele mundo distante.

Ao reviver uma certa época, a pessoa não tinha qualquer capacidade de alterar o rumo dos acontecimentos; tudo se passava como se ela estivesse vivendo aqueles momentos pela primeira vez. Como no disco, uma vez escolhida a faixa, esta se desenrolava sempre para frente, reproduzindo os acordes ali gravados, até que o ouvinte a interrompesse e passasse para uma outra faixa, à frente ou atrás. Ao reviver cada época, portanto, tudo lhe era novo e não previsível. Suas decisões seriam tomadas exatamente da mesma forma como as tomara nas inúmeras outras vezes que passara pela mesma situação. O rumo dos acontecimentos não se alterava e tudo seguia como já estava “gravado no disco” da sua existência. A única coisa que se podia fazer contra o inexorável desenrolar dos acontecimentos era interrompê-lo e passar para uma outra época onde tudo também se desenrolaria de acordo com um plano já definido.

A interrupção do tempo era feita pela capacidade mental das pessoas de se desvincular da realidade presente e se transportar para uma outra época de sua escolha. Essa capacidade equivalia a tirar a pessoa de dentro da música que estava sendo tocada e da qual ela era parte, para dar-lhe o papel do ouvinte com o poder de escolher a música que lhe conviesse. Nesse estado transcendental de ouvinte, ele não tinha idade e tudo sabia, isto é, tendo ouvido aquele disco inúmeras vezes, sabia quais faixas o agradavam mais e podia repeti-las quando quisesse. Bastava, então, escolher uma outra época de sua vida, sobre a qual sabia de cor a sequência dos acontecimentos, e se transportar para lá, novamente como o personagem principal da história.

E quanto à morte? Supunha-se que uma vez passando pela experiência da morte não seria mais possível retornar. A ausência de qualquer lembrança sobre essa experiência era uma forte evidência de que ninguém havia retornado dela. O que poderia, então, acontecer com uma pessoa que passasse pela experiência da morte? O que existiria fora dos extremos da sua existência?

Essa dúvida não impedia que as pessoas continuassem a viver felizes, repassando uma seleção dos seus melhores momentos. Visitavam o futuro e voltavam ao passado um número interminável de vezes, sentindo a segurança de que o seu destino dependia delas próprias. Viviam eternamente o intervalo de tempo entre o nascimento e a morte. Não havia nada que as preocupasse, apenas aquela curiosidade de saber o que existiria fora dos limites da sua existência. Mas, numa escala de tempo infinita, essa curiosidade foi aumentando.

E aumentou a tal ponto que as pessoas, uma a uma, começaram a esperar pelo grande momento, ao invés de evitá-lo. A morte tornou-se, então, uma obsessão para aqueles homens poderosos, donos de seu destino. Chega de viagens no tempo, chega de idas e vindas, passando sempre pelos mesmos momentos felizes. Havia, agora, uma nova motivação para viver.

E foi assim que o homem deixou de usar a sua capacidade de transportar-se no tempo. Ele simplesmente preferiu esperar o tempo passar naturalmente, até chegar o momento supremo, tão esperado, de sua morte. Foi assim com os seus descendentes e com os descendentes de seus descendentes, e a capacidade de transportar-se no tempo foi aos poucos se perdendo, pelo desuso, de geração para geração, até os nossos dias. Hoje, essa capacidade está completamente desaparecida e não poderíamos sequer supor que um dia ela existira se não fossem os raros momentos em nossas vidas nos quais temos a sensação de estar vivendo um acontecimento já vivido. Uma capacidade admirável que se transformou em mero déjà vu.

P.S.: Caro Yung, estivemos muito perto de recuperar essa incrível capacidade!

FIM

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