A revolução dos bichos

O líder aguardava a chegada de todos os representantes para iniciar a reunião da Comissão para a Mudança da Natureza. Já estava no local – uma clareira no meio do bosque, próximo à cidade – a maioria dos animais. Entre os atrasados estavam o bicho preguiça e a tartaruga, que já tinham recebido uma advertência quando se atrasaram na última reunião. O líder esperou por mais alguns minutos e resolveu começar a reunião sem a presença dos retardatários. Continuar lendo

O elo perdido

De cócoras, enquanto tenta quebrar um coco com uma pedra, ele observa aquele objeto se movendo ao longe, no imenso mar que rodeia a ilha onde ele vive. Ele já tinha visto algo parecido muitas vezes antes. Em todas as vezes, o objeto se tornava cada vez maior à medida que se aproximava da ilha e, para a sua decepção, voltava a diminuir de tamanho até desaparecer no horizonte. “O que poderia ser aquilo?”, ele pensava com a sua mente rudimentar. Continuar lendo

O filho bastardo

Ela era uma garota neandertal embora o termo garota não lhe caísse muito bem, pois ela só poderia ser diferenciada dos machos da sua espécie pela observação da genitália. Seu corpo era atarracado e coberto de pelos que escondiam os mamilos. Sua cabeça grande, com a testa protuberante, lembrava muito a dos gorilas modernos, mas dentro dela os pensamentos em profusão tinham muito mais consistência do que os dos nossos gorilas. Ela estava totalmente ciente da sua condição de submissão àqueles seres com os quais convivia que, mais tarde, viriam a ser chamados de H. sapiens. Essa condição, que ela considerava injusta, a deixava muito revoltada.

Entre si, os neandertais se referiam aos sapiens como “os magrelos”, por causa da sua compleição física menos robusta. Os magrelos eram seres estranhos para ela, que despertavam medo e desprezo. Medo, porque eles não vacilavam em matar um neandertal que lhes desagradasse, e desprezo, por que eles pareciam ser desprovidos de qualquer sentimento, mesmo em relação aos familiares, estando sempre absorvidos em produzir novas armas e ferramentas e criar estratégias para caçar animais.

Ela, assim como todos os seus semelhantes, vivia escravizada pelos sapiens, executando as tarefas mais pesadas para os seus senhores. Como fêmea, ela preparava as carnes dos animais abatidos pelos sapiens, retirando as entranhas, cortando as grandes peças em peças menores, amassando ervas e folhas que misturava às carnes e fazia tudo isso usando as ferramentas rústicas que ela própria tinha que improvisar, pois não tinha acesso às ferramentas mais sofisticadas dos sapiens. Para si própria e sua família sobravam apenas os rejeitos dessa preparação.

A comunicação com os sapiens era bem escassa e pobre pela falta de uma linguagem comum. Desafios e xingamentos por parte dos neandertais eram ignorados pelos sapiens que se limitavam a dar um sorriso de superioridade, mostrando os seus dentes gastos e amarelados, em resposta aos berros e gestos dos neandertais. Ela se aproveitava disso frequentemente para bater vigorosamente no peito como a dizer “Eu tenho coração!” e em seguida apontar para o sapiens e fazer gestos de negação para dizer “Magrelo não tem!”.

Sua maior desaprovação era quanto ao modo com que os sapiens cuidavam de suas próprias crianças. Na verdade, não cuidavam; confiavam as crianças às fêmeas neandertais pois sabiam que elas tinham mais jeito e carinho para cuidar delas do que eles próprios. Depois de crescidas, tiravam-nas das suas “babás” para introduzi-las nos rituais de caça e nas técnicas de produção de ferramentas, abandonando-as prematuramente na luta pela sobrevivência. Só os mais hábeis e inteligentes sobreviviam até a idade adulta e essa era a forma de selecionar os mais puros sapiens.

Os sapiens não se incomodavam com os bebês neandertais – afinal a espécie escrava não poderia se extinguir -, desde que estes não interferissem nos cuidados que a mãe tinha que dedicar aos bebês sapiens. Se fosse constatada qualquer desobediência a essa regra, a vida do bebê neandertal estaria em risco.

A garota neandertal tinha filhos e obedecia cegamente a essa regra para não colocar a vida deles em risco. Ela também entendia muito bem como os filhos eram gerados e, por isso, sabia que aquele que ainda estava em seu ventre não fora gerado por um companheiro da sua tribo. Ela não se lembrava bem como tudo acontecera, mas sabia que fora contra a sua vontade e por meio de violência.

Agora, ela passava a mão pela barriga e pensava no futuro que aguardava aquela criança. Certamente ela não seria tirada dos seus cuidados quando crescida e isso lhe dava algum alívio. Todavia, seu maior medo era que a criança pudesse nascer como um magrelo, sem coração. Não, os deuses não poderiam permitir tamanha crueldade.

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Hoje, passados mais de 30.000 anos, sabe-se que o medo da garota neandertal não se concretizou e que a luta não é mais entre indivíduos de coração e indivíduos cerebrais, mas entre o “coração” e o “cérebro” dentro de cada indivíduo.