Inteligência e consciência

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Darwin e os robôs

No artigo que escrevi sobre os filtros da percepção, deixei a pergunta se faz sentido aplicar às máquinas (inteligentes) as mesmas conclusões que se aplicam às espécies biológicas, no processo da seleção natural. Esta pergunta pode fazer Darwin revirar no túmulo se não for entendida com adaptações (Um termo que ele gostava muito de usar!). Um especialista poderia dizer, de cara, que são situações diferentes porque as máquinas não têm DNA, que é o elemento fundamental do processo da evolução das espécies pela seleção natural. Ainda assim, acredito que algumas semelhanças possam ser identificadas entre os processos de evolução de seres vivos e de máquinas. Continuar lendo

Em prol da coletividade

O título deste texto pode induzir o leitor a achar que vou escrever sobre as mazelas do povo brasileiro diante do egoísmo dos políticos que dirigem o país. Sinto muito desapontar aqueles que gostariam de ler sobre isso. Vou, sim, falar de ações que visam a beneficiar a coletividade, mas daquelas que partem de indivíduos e não de governos e – pasmem – que não terão frutos antes de decorridos centenas ou milhares de anos. Continuar lendo

O que veio antes, o ovo ou a galinha?

A pergunta do título, que povoa o imaginário popular, pode remeter a questões filosóficas profundas como a origem da vida e até a existência de Deus. A maioria das pessoas, no entanto, está interessada no sentido literal da pergunta, ou seja, aquele associado com a evolução das espécies. Para elas, uma pesquisa rápida na internet traz a resposta (ou as respostas) sugerida por cientistas e filósofos, numa forma fácil de entender. Sem querer ser um desmancha-prazeres, a resposta consensual é que o ovo veio primeiro, desde que se entenda o ovo não como um ovo de galinha, mas o ovo de um ancestral da galinha – que vou chamar de “penosa” – que já carregava as mutações genéticas que dariam vida à galinha como a conhecemos. Se, no entanto, a pergunta se referir ao “ovo de galinha”, fica claro que a galinha teria que vir antes, para poder botá-lo. Decepcionante, não é?

Mais intrigante – e este é o foco deste texto – é pensar que não existe uma linha clara que separa o ancestral das espécies que dele se originam. O que quero dizer é que a galinha não surgiu da penosa da noite para o dia. Entre a penosa legítima e a galinha legítima existe uma área cinza em que exemplares com diferentes mutações genéticas fizeram parte da mesma espécie, até que essas diferenças se tornaram significativas a ponto de separar as espécies. O difícil é precisar quando e onde as novas espécies surgiram.

A seleção natural trabalha numa escala de tempo de milhares ou milhões de anos, o que não é facilmente percebido por nós que vivemos por meros setenta a oitenta anos ou um pouco mais. Para nós, as espécies parecem imutáveis neste nosso pequeno horizonte de vida, mas elas estão em contínuo e lento processo de evolução. A área cinza que mencionei está presente em todo o reino dos seres vivos, que estão em constante processo de transformação. Isso inclui a nossa espécie; ou você acha que já somos um produto acabado?

Não estamos percebendo, mas as mudanças estão acontecendo devagar com as espécies existentes. Algumas estão sendo aceleradas por nós, como as dos animais de estimação e das plantas. A nossa espécie também está em mudança e essa mudança não é só cultural, mas biológica. A diminuição dos pelos em nossos corpos, a textura da pele e a resistência a alguns vírus e bactérias foram mudanças biológicas adquiridas pelos nossos organismos ao longo do tempo. São mudanças pequenas e insuficientes para indicar o aparecimento de uma nova espécie, mas não era de se esperar que durante a curta história do Homo sapiens mudanças mais drásticas pudessem já ter acontecido.

Entretanto, nem por isso se poderia deixar de especular sobre que tipos de espécies poderiam se originar dos sapiens. O historiador Yuval Noah Harari, em seu livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, fala de três possíveis abordagens que podem produzir seres diferentes dos atuais sapiens: a engenharia biológica, a engenharia cyborg e a engenharia de vida inorgânica. A primeira tem o potencial de modificar geneticamente os seres humanos, prolongando o seu tempo de vida e até dando-lhes novas capacidades biológicas que nem podemos imaginar no momento. A segunda, consiste no uso de próteses e acessórios não orgânicos em complemento ao nosso organismo. Essa tecnologia tem o potencial de produzir seres híbridos com uma porcentagem cada vez maior de elementos não biológicos em substituição às peças orgânicas originais ou como complemento a elas. A terceira consiste na produção de um ser totalmente robotizado dotado de inteligência artificial.

É difícil dizer se os produtos dessas intervenções humanas levarão a novas espécies no futuro. Se por um lado parece não haver limite para os avanços da tecnologia, por outro lado fatores culturais poderão criar barreiras para os avanços em uma ou outra direção. Não se pode esquecer, também, que a natureza ainda continuará a dar as cartas com o seu processo de seleção natural e, sem qualquer aviso prévio, pode descartar tudo o que os sapiens tenham planejado.

10 palpites sobre a evolução das espécies

Listo abaixo 10 constatações ou especulações (cabe a você leitor distinguir entre uma coisa e outra) sobre a seleção natural e a evolução das espécies. A primeira delas não poderia ser de outro senão do papa do assunto, Charles Darwin.

  1. Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças. Esta frase, de Charles Darwin, expressa a essência da teoria da seleção natural e evolução das espécies.
  2. A nossa espécie será extinta ou substituída por outra. Quero dizer com isto que não somos o produto final e definitivo da evolução. As extinções e renovações das espécies são fatos inexoráveis da natureza. Não há porque achar que a nossa espécie será exceção a essa regra.
  3. As ameaças à continuidade da nossa espécie estão nas mãos da natureza (catástrofes, pandemias) e nas nossas próprias (descaso com o meio-ambiente, guerras). Isso se não aparecer uma raça alienígena beligerante para nos alijar do mapa.
  4. A Terra não será o único planeta a abrigar a vida. Se ainda não existe vida em outro planeta, haverá tempo suficiente para que ela apareça algum dia. Além disso, os nossos próprios descendentes poderão deixar a Terra em algum momento.
  5. A evolução produziu espécies com diferentes níveis de consciência. A consciência não é um atributo que existe ou não existe em um ser vivo; ela existe em graus diferentes nas várias espécies de animais. Nem mesmo podemos ter certeza que a nossa espécie a tem no grau mais elevado.
  6. A inteligência artificial conseguirá produzir um dia um ser artificial com capacidade de pensar e sentir como os humanos. Ainda que a ciência não tenha conseguido explicar o processo que produz a consciência no ser humano, espera-se que um dia essa explicação acontecerá. O desafio a ser vencido é a simulação desse processo em uma máquina.
  7. É possível que duas espécies inteligentes, que disputam os mesmos recursos, possam conviver pacificamente. Esta é uma afirmação mais do que especulativa pois a história da evolução do gênero Homo a contradiz. Além do mais, um possível encontro com alienígenas dá arrepios em muita gente. Mas o alto nível de consciência das espécies futuras deverá superar as dificuldades desse tipo de encontro.
  8. A natureza não pode ser tomada como exemplo de como as espécies devem se comportar. A natureza não tem compromisso algum em ensinar o que é certo ou errado. As coisas acontecem porque acontecem. Se quisermos achar os padrões corretos para lidar com as outras espécies temos que utilizar a inteligência com que fomos agraciados.
  9. A espécie humana enquanto existir, ou sua substituta, cuidará da tática e a natureza, da estratégia, no processo da seleção natural. É claro que isto é força de expressão para caracterizar a situação em que o homem, com a sua capacidade de manipular os genes, exercerá grande influência no processo da evolução das espécies, enquanto que a natureza continuará comandando as grandes transformações por meio de cataclismos e pandemias que conduzem às extinções em massa.
  10. A teoria da seleção natural e evolução das espécies, de Darwin, contribuiu para dar à humanidade uma perspectiva mais realista de sua importância no mundo. Mais do que Copérnico, com o seu sistema heliocêntrico, Darwin nos fez entender que não somos tão especiais. Isto pode ser interpretado tanto no sentido negativo – somos meros resultados de mutações genéticas aleatórias – como positivo – recebemos uma dádiva da natureza (a nossa existência) que nos estimula a envidar todos os esforços para que ela seja a mais duradoura e próspera possível.

DNA 2.0

A natureza já fez um trabalho incrível para chegar no DNA 1.0 do qual todos nós fazemos parte ou, melhor, que faz parte de todos nós. É verdade que ela demorou um tempão para chegar nele e o resultado final ainda não está bem acabado. Todavia, considerando que ela não dispunha de nenhum recurso e ferramentas especiais, não se pode negar que foi um trabalho incrível. Pode-se dizer que ela partiu do zero, isto é, da matéria inanimada, para chegar até nós, o seu produto mais complexo. Ainda que se considere que a vida na Terra possa ter vindo de um outro lugar, isso não desmerece o trabalho da natureza porque, nesse caso também, ela terá sido a responsável pelo que aconteceu naquele outro lugar.

A história de como chegamos até aqui todos conhecem. Quem quiser refrescar a memória pode ler o excelente livro do biólogo Richard Dawkins, “A grande história da evolução”, e ficar novamente deslumbrado com o que aconteceu nos últimos 3 bilhões de anos, depois do aparecimento da vida no nosso planeta. Para os nossos padrões de tempo, essa história tem sempre que ser contada com a tecla “avanço rápido” acionada, visto que a natureza tem o seu tempo e nenhuma pressa para realizar as suas tarefas. (Não sei por que, sempre admirei esse modo de encarar o trabalho.)

Enquanto que a cada poucos anos surge um modelo novo de automóvel ou uma nova versão do Windows, com o DNA a situação é bem diferente. Neste caso, uma mudança de modelo (ou de paradigma, como dizem os cientistas) pode levar da ordem de bilhões de anos. Foi o que aconteceu entre os eventos mais espetaculares da história da vida: 1) da formação do planeta (4,5 bilhões de anos atrás) até o aparecimento do primeiro organismo vivo (mais de 3 bilhões de anos atrás); 2) deste para o primeiro organismo multicelular (mais de 2 bilhões de anos atrás); e 3) deste último até o Homo sapiens (praticamente ontem).

Portanto, para falar em um novo modelo de DNA esbarra-se em dois problemas sérios. O primeiro é prever as características desse novo modelo e o segundo, estimar a data quando ele será lançado. A bem da verdade, esses dois problemas poderão ser eliminados de uma vez se cogitarmos que não haverá tempo suficiente até o lançamento do novo produto. A fábrica poderá fechar antes.

Mas supondo que não aconteça o apocalipse tão cedo, que tipo de evolução do ser vivo se poderia esperar num futuro longínquo? É uma questão difícil de responder. Tão difícil quanto prever o campeão de um esporte que ainda não foi inventado. Mas aqui não há a opção de desistir cedo pois isso não está no DNA deste blog. Então vamos especular.

Nas histórias de ficção as opções para os seres do futuro são várias. Os humanos poderão se transformar em seres híbridos, como no filme Robocop, ou puramente cerebrais e etéreos, como em Aurora Boreal (texto deste blog), ou poderão deixar o seu legado para as máquinas que poderão suportar melhor o ambiente hostil do futuro longínquo, como no filme Inteligência Artificial.

No filme Avatar, entretanto, tem uma dica que parece fazer mais sentido. O filme fala sobre um planeta onde os seres vivos estão de alguma forma integrados entre si e com o meio-ambiente. É essa dica que vou seguir aqui. Um caminho que levará a uma sociedade dotada de consciência coletiva, não somente do ponto de vista social ou comportamental, mas também biológico. Isto é, uma consciência coletiva derivada de uma característica genética que estará inserida no DNA 2.0.

Existem hoje alguns ingredientes que poderão ser usados para se construir essa sociedade do futuro. As plantas têm uma interação com o solo muito peculiar pois tira dele os seus nutrientes e, ao mesmo tempo, serve de proteção para ele contra a erosão. Alguns insetos, como alguns tipos de formigas e abelhas, têm um senso de organização social que os faz se comportar visando sempre ao bem da colônia. E o ser humano tem a sua engenhosidade que pode ser útil nessa tarefa de construir uma sociedade do futuro (embora nunca a tenha utilizado com esse propósito).

A natureza terá que juntar tudo isso num mesmo caldo e sair com um novo DNA. Não é uma tarefa fácil, ainda mais considerando que a natureza não tem propósitos e faz tudo ao acaso. Entretanto, desta vez ela poderá ter uma pequena ajuda do Homo sapiens.

E se tudo der certo, quando esse DNA 2.0 estará pronto para substituir o antigo? Pela escala de tempo mencionada acima, isso ainda pode demorar mais de 1 bilhão de anos, sem se considerar a ajuda do Homo sapiens. Com essa possível ajuda uma estimativa é impossível pois isso nunca aconteceu antes na história da evolução. Mas não há pressa porque o nosso Sol ainda pode durar por mais meia dúzia de bilhões de anos. O único problema é que enquanto o DNA 2.0 não fica pronto nós vamos ter que conviver com os bugs do DNA 1.0.