Homo Deus ou A Volta à Crença Original

Este texto traz uma interpretação possível de um dos cenários para o futuro dos Sapiens, apresentado no livro Homo Deus. Clique para ler.

Anúncios

Sociedade planetária

Várias foram as razões que me levaram a escrever este texto. Em primeiro lugar está o diagrama que circula na Internet (recebi de meu amigo Antonio Nunes), da hierarquia de necessidades de Maslow, atualizada com as novas necessidades do homem moderno. O diagrama está mostrado abaixo, onde a premência da necessidade decresce da base para o topo da pirâmide.

Maslow

A segunda razão foi a divulgação na imprensa do descobrimento de um novo planeta – Kepler 452b – de tamanho parecido com o da Terra e localizado em zona habitável do seu sistema solar. É mais uma notícia alvissareira para os que acreditam que possa haver vida fora da Terra. Por fim, a terceira razão refere-se às agruras econômico-financeiras por que passam vários países, entre eles o Brasil e a Grécia.

Juntando tudo isso, imaginei que a hierarquia de necessidades de Maslow, aplicadas originalmente aos indivíduos, poderia ser estendida para uma sociedade planetária imaginária em um futuro longínquo. Para isso, imagine uma espécie inteligente habitando um planeta qualquer da galáxia. Para essa espécie, as aspirações estão mostradas no diagrama abaixo, onde as mais básicas estão na base e crescem em sofisticação em direção ao topo da pirâmide.

Sociedade planetária

Um dia ainda alcançaremos o topo da pirâmide!

Pobre Plutão

Ao ler a notícia sobre Plutão, no blog Mensageiro Sideral, pensei no que escrevi em “Laços de família”. A sina daquele planeta parece ser mais dramática do que a retratada no poema que escrevi. Ele, Plutão, não só vive os dramas da monotonia e da falta de liberdade como, também, vive um problema de discriminação no seio da família. Ora ele é considerado um filho legítimo (planeta), ora não. Se as entidades científicas que cuidam do caso usarem os mesmos critérios com que a sociedade trata dos problemas das minorias, pobre Plutão.

Uma abordagem sistêmica para o planeta Terra

(Este texto será utilizado como Epílogo no livro a ser publicado)        

Os temas abordados neste livro misturam ficção e não ficção, ora discorrendo sobre problemas bem reais, ora divagando em fantasias que, sabemos, não poderiam acontecer senão em nossa imaginação. Para encerrar esta coletânea de textos decidi falar sobre um assunto que tem os dois ingredientes acima. Trata-se de um problema bem real – talvez o maior problema que desafia o homem – e de uma abordagem, para a sua solução, que é complexa a ponto de parecer fantasiosa ou utópica, mas que tem a ousadia de considerar aplicável ao nosso planeta a mesma metodologia válida para um sistema qualquer. Dei a ele o título de “Uma abordagem sistêmica para o planeta Terra”.

A motivação para falar disto, mais uma vez, está ligada às notícias sobre ciência divulgadas na mídia, que dão conta das somas astronômicas de recursos que são alocadas em projetos científicos com propósitos não muito claros para os leigos, como os programas espaciais e os dispendiosos laboratórios de pesquisa científica, como os que abrigam os aceleradores de partículas (LHC e outros). Ao tomar ciência de tais somas é inevitável que o cidadão comum pergunte por que esses recursos não são utilizados para resolver os nossos problemas mais prementes, como a fome e as péssimas condições de vida, que atingem milhões de seres humanos no mundo.

Os investimentos em ciência não têm retorno certo e imediato para o investidor e, por isso, são feitos geralmente por governos, universidades e instituições sem fins lucrativos. Os projetos científicos têm como alvo aumentar o nosso conhecimento para criar condições de resolver problemas a longo prazo e por isso não têm muito apelo junto àqueles (não são poucos) que têm o hábito de preocupar-se somente com o presente. Todavia, eles desembocam, via de regra, em tecnologias que são desfrutadas pela sociedade na forma de bens de consumo e serviços para a nossa conveniência.

Mas as críticas não se limitam aos investimentos feitos em ciência; elas voltam-se, também, para o mau uso da tecnologia por meio do consumo desenfreado da parafernália tecnológica que é produzida e logo fica obsoleta porque surgem novos produtos mais sofisticados. Além de apontar para esse suposto desperdício de recursos, muitos ainda suspeitam que a tecnologia seja responsável pelos problemas ambientais (e outros) por que passamos em nossos dias. Os críticos das tecnologias existentes argumentam que as atividades que as utilizam estimulam o consumo de recursos naturais (água, minérios, petróleo, carvão, gás etc.) e contaminam o meio-ambiente com a produção de gases e resíduos tóxicos e o descarte de materiais não biodegradáveis entre outras formas de poluição, além de diminuir as oportunidades de emprego por meio da automatização das tarefas produtivas. Acreditam, também, que elas trazem a ameaça da produção de armas de destruição em massa, como as nucleares e biológicas.

É compreensível, portanto, que as pessoas não vejam com bons olhos os grandes investimentos em ciência e tecnologia. Os benefícios são facilmente ignorados diante dos problemas apontados e mesmo aqueles que acreditam que a ciência e a tecnologia sejam um caminho para melhorar a qualidade de nossa vida futura ainda acham que os problemas atuais não podem ser ignorados, em favor dos projetos científicos e tecnológicos, sob pena de não haver ninguém no futuro para usufruir das suas benesses.

Por outro lado, para muitos a ciência e a tecnologia constituem um bem que não pode ser descartado pela sociedade, a quem cabe utilizá-las de forma inteligente para o nosso proveito. Por meio delas podemos ter a esperança de saber lidar com a escassez dos recursos naturais, a alta demanda por energia e a degradação do meio-ambiente num mundo superpovoado, sem abrir mão da qualidade de vida já conquistada até aqui. O desafio é criar uma sociedade que saiba atribuir prioridades aos seus problemas e aplicar corretamente os recursos em atividades que beneficiem a população global no curto e longo prazos. Este é, portanto, o grande problema que desafia os tomadores de decisão: O que se deve fazer agora para que no futuro a humanidade viva com qualidade, segurança e de forma sustentável no planeta que lhe serve de abrigo?

A imprevisibilidade inerente à natureza humana – que também é a fonte das inovações tecnológicas – é a variável que torna esse problema extremamente complexo. Na década de 50, o escritor de ficção científica Isaac Asimov escreveu a trilogia “Fundação” em que um cientista, Hari Seldon, cria uma disciplina chamada de psico-história que consiste na aplicação de técnicas matemáticas para modelar o comportamento de grandes populações. A técnica baseia-se na constatação de que o comportamento de um indivíduo pode ser imprevisível, mas o comportamento de grandes massas pode ser tratado estatisticamente. Daí, utilizando modelos matemáticos sofisticados, ele cria um modelo para prever o futuro da galáxia (com seus quintilhões de habitantes) por um horizonte de tempo de milhares de anos. O modelo permite que as futuras crises sejam previstas em tempo de tomar as medidas corretivas para evitá-las. É claro que um modelo desse tipo seria a solução do problema descrito acima, mas, infelizmente, trata-se de pura ficção.

É válido, entretanto, acreditar que a ciência pode dar uma grande contribuição para a solução do problema, mesmo que ela seja uma das partes interessadas na disputa pelos recursos escassos (Não dizem que a ciência prima pela ética? Então não é preciso se preocupar com isso.). A Teoria de Sistemas nos ensina que a solução de um problema começa pela identificação clara e objetiva do próprio problema, das restrições impostas pelo ambiente (aqui, ambiente significa tudo o que está fora do controle do tomador de decisões), continua com a definição das medidas a tomar – conjunto de ações que levam ao estabelecimento (ou adaptação) de um sistema para atender aos objetivos traçados – e termina com a construção de um mecanismo de controle que realimente o sistema impedindo-o de se afastar dos objetivos.

Trata-se aqui de resolver o problema da humanidade e, com ela, do próprio planeta Terra. Não é de estranhar, portanto, que as etapas acima sejam inimaginavelmente complexas (não fosse assim, alguém já teria resolvido o nosso problema e estaríamos vivendo bem, de forma sustentável, num planeta próspero). Elas merecem, portanto, algumas explicações adicionais sobre a natureza dessas dificuldades.

Em primeiro lugar é necessário entender que definir um problema é o mesmo que estabelecer um objetivo (e metas) que se deseja alcançar. Um objetivo do tipo “Toda a humanidade deve ser feliz sem colocar em risco o planeta” não é um objetivo razoável, pois ele não dá pistas de como alcançá-lo. É necessário um enunciado mais objetivo e realista, que sugira medidas e indicadores que o tornem passível de ser verificado. Alguns indicadores são utilizados, hoje, para medir o nível de desenvolvimento dos países. O mais conhecido deles é o PIB (Produto Interno Bruto) per capita, que tem o defeito de considerar apenas os aspectos econômicos. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é um indicador criado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) que alia aos aspectos econômicos aqueles ligados à educação e à longevidade. Outro, criado em 1970 no Butão, chama-se FIB (Felicidade Interna Bruta) e introduz alguns outros aspectos mais subjetivos, como bem-estar psicológico, uso do tempo, governança e qualidade do meio-ambiente. Embora o FIB tenha vantagens sobre o IDH, ele ainda não foi inteiramente aceito pela comunidade internacional. De qualquer modo, toda tentativa de definir um objetivo a ser perseguido pela humanidade deve estar atrelado à definição de um indicador de desempenho para o instrumento que permitirá à humanidade alcançá-lo. Um índice desse tipo deve ser construído para incluir todos os aspectos importantes que caracterizem o estágio efetivo de progresso da humanidade. Nele devem constar, além dos aspectos ligados ao bem-estar e segurança da população, também aqueles que representem a boa saúde do planeta. Não é difícil entender que um consenso global a esse respeito pode ser uma tarefa bastante complicada.

A etapa seguinte consiste na identificação do sistema, no contexto em que esse conceito é utilizado aqui, ou seja, o de uma estrutura independente que evolui até alcançar o estágio estabelecido pelos objetivos e, a partir daí, mantém-se nele. De início já aparecem as primeiras dificuldades. O sistema envolve toda a população e tudo o que existe no planeta que possa ser afetado de forma deliberada pelo homem. O sistema pode incluir toda a fauna e flora do planeta, o solo, os rios e os mares, a atmosfera e boa parte do subsolo, mas não inclui o planeta todo porque não somos capazes de agir (pelo menos num horizonte de tempo razoável) sobre muitas das suas manifestações, como movimentos das placas tectônicas, atividades vulcânicas, mudanças climáticas etc. Mas as tecnologias futuras poderão ampliar os limites desse sistema na medida em que venham a permitir ao homem controlar algumas dessas manifestações da natureza e mesmo incluir outros corpos celestes como parte do ativo da humanidade. Não fica muito claro, portanto, quais são esses limites e qualquer critério para definir as fronteiras desse sistema terá que ter uma característica dinâmica para se adaptar às novas conquistas da tecnologia. De resto, tudo o que não possa ser controlado pelo homem, sejam as forças oriundas do próprio planeta Terra, ou do espaço exterior, deve ser considerado como restrições que o ambiente impõe na busca de soluções para os problemas da humanidade.

Também é difícil a tarefa de organizar a sociedade (a parte fundamental do sistema) para executar ações mais efetivas na busca dos objetivos traçados. Os países soberanos buscam tomar suas próprias decisões na procura de soluções para os seus problemas. Há interesses conflitantes entre países pobres e ricos, de diferentes crenças e etnias e outros tipos de disputas. O conjunto de soluções independentes pode não ser a melhor solução para a humanidade como um todo. É necessário que haja um mínimo de coordenação entre as medidas tomadas pelos diferentes países que só pode ser conseguida com a integração dos países em comunidades ou federações maiores. A formação de grandes comunidades, como a Comunidade Europeia, deve ser estimulada entre os países de características semelhantes e logísticas compatíveis, e suas regras de funcionamento aperfeiçoadas de modo a eliminar os desperdícios de recursos causados por decisões conflitantes. Os problemas para a consolidação da Comunidade Europeia dão o tom da dificuldade dessa tarefa de integração dos países. Procurar construir um governo planetário, como o império galáctico das histórias de ficção, é certamente um exagero, mas continuar com a divisão de países como a que se tem hoje é totalmente inviável do ponto de vista do objetivo em foco.

Por fim, deve-se construir um mecanismo de controle que tenha a capacidade de avaliar, em qualquer instante, o desempenho das medidas adotadas em relação aos objetivos traçados e, se necessário, sugerir medidas corretivas. É a parte mais difícil do processo porque requer um conhecimento mínimo das inter-relações das variáveis envolvidas, entre as quais despontam aquelas derivadas do comportamento humano. De posse de um modelo desses seria possível simular as consequências de diferentes medidas e escolher aquelas que melhor se ajustam aos objetivos traçados. Um exemplo clássico de modelo desse tipo foi dado por Jay Forrester, na década de 70, em seu livro “World Dynamics”, em que ele descreve um modelo computacional que relaciona variáveis como: nível dos investimentos de capital, tamanho da população, qualidade de vida, uso de recursos naturais e outras, produzindo uma forma de simular diferentes cenários para a tomada de decisão. Seu trabalho não teve grande repercussão, mas a abordagem da simulação de sistemas dinâmicos, por ele utilizada, criou raízes na comunidade científica. Enfim, a construção de um modelo desse tipo, que tenha um uso efetivo no tratamento de sistemas sociais, é um desafio para a ciência, ainda que hoje ela disponha de algumas técnicas para lidar com a imprevisibilidade de sistemas complexos, como é o caso da Teoria do Caos.

Um mega projeto com os propósitos aqui descritos não pode ser de iniciativa de um país ou de um grupo de países, mas de uma entidade supranacional que tenha o suporte dos países e que não seja controlada por eles. A ONU seria o candidato natural para esse papel se não fosse pela inadequação das regras que regem o seu funcionamento, que não permitem a representação legítima de todos os países. Esta é a primeira das dificuldades a serem vencidas.

A julgar pelas dificuldades mencionadas, pode-se afirmar, sem qualquer medo de errar, que o problema de achar o melhor caminho para a humanidade é um problema realmente complexo. Pode-se errar, todavia, dizendo-se que ele é insolúvel. A imprevisibilidade da ação humana é o principal responsável por essa complexidade e qualquer abordagem tem que lidar com esse aspecto da natureza humana para ter uma possibilidade mínima de sucesso. O conhecimento avança rápido quando se trata de explicar qualquer outro aspecto da natureza que não esteja ligado ao comportamento do homem, mas é lento quando se trata de entender os meandros da consciência humana. A ciência possibilitou avanços impressionantes do nosso conhecimento em áreas que pareciam impossíveis de ser investigadas, como a origem e a dinâmica do universo, as leis que regem o mundo microscópico, a natureza do espaço e do tempo. Isso tudo dá a ela, ciência, a esperança de que possa, também, desvendar os segredos da mente humana.

É inegável que existam restrições sérias para as pesquisas nessa área comportamental, pois não há muitas formas de experimentação sem que a integridade física do indivíduo seja colocada em risco. Além disso, não faz muito tempo que o estudo das emoções deixou de ser considerado má ciência entre os pesquisadores. Esse preconceito impediu que a neurociência tivesse o mesmo ritmo de desenvolvimento das outras áreas da ciência, mas esse atraso está sendo recuperado e hoje a descoberta de novos métodos não invasivos de análise das funções cerebrais aumenta a probabilidade de que um dia os segredos da mente humana possam ser revelados. Não se trata, obviamente, de controlar o comportamento humano, mas de entendê-lo com maior profundidade.

Segundo Geoffrey Miller, em seu livro Spent (Darwin vai às compras), Ed. Viking, 2009, pag 22, até aproximadamente 1990 a psicologia ainda não havia incorporado a Darwinização em suas teorias. Isso só aconteceu com o florescimento da psicologia evolutiva que produziu uma caracterização da natureza humana muito mais rica do que uma lista de simples instintos. A compreensão da natureza humana passou, então, a ser uma meta muito mais próxima do que se considerava antes. Nesse mesmo livro, o autor apresenta algumas ideias pouco convencionais de experimentos sociais – que visam estudar culturas locais e alterar hábitos de consumo de comunidades -, que podem parecer sacrilégios para economistas e outros profissionais da área social. Todavia, elas têm o mérito de colocar em discussão um assunto considerado tabu (em virtude de experiências passadas mal intencionadas) que é a experimentação com comunidades inteiras para testar o seu comportamento diante de situações controladas. Conhecer a fundo o comportamento humano é fundamental para quem quer estabelecer políticas de longo prazo, uma vez que ele “direciona o progresso no que diz respeito às tecnologias, ideias e instituições que chamamos de civilização”, nas próprias palavras de Miller.

Os futuros avanços nas áreas de neurociência, psicologia, sociologia, entre outras, que coíbam as práticas erráticas do homem em sociedade, poderão completar o arsenal de ferramentas que vai permitir construir um modelo que conduza a humanidade a um destino desejável. Para isso, é necessário que se invista nas ciências sociais tanto quanto se investe em outras áreas científicas. Quem sabe, assim, as mentes mais brilhantes possam ser atraídas para essas áreas e provocar um avanço do conhecimento tão espetacular como o que aconteceu com as ciências chamadas “duras”.

É compreensível que um modelo amplo e ousado, como este aqui sugerido, possa ser considerado uma aspiração ingênua e inatingível, ou só alcançável em muitas gerações. Ao menos por ora, fica a ideia de que a sociedade deva insistir em três tarefas relevantes, ainda que por meios não tão científicos quanto seria desejável: 1) definir um objetivo de longo prazo para a humanidade; 2) organizar a sociedade, a níveis locais e global, para a busca efetiva desse objetivo; e 3) definir um mecanismo para a avaliação de desempenho e correção de rota na busca do objetivo. Afinal, são tarefas básicas aplicáveis a qualquer sistema e não pode ser diferente com o sistema Terra. A natureza humana já provou que é capaz de façanhas incríveis, portanto, não é absurdo esperar que consiga vencer as suas próprias fraquezas.

Sobre a natureza humana

         (Este texto será uma introdução à Parte 4 – Natureza Humana – do livro a ser publicado com os textos do Blog)

         A parte anterior tratou da essência da natureza humana, das entidades (cérebro, mente e consciência) que permitem ao homem conhecer a si próprio e o mundo em que vive. Esta parte trata das formas como a natureza humana se manifesta e afeta tudo o que cerca o homem. Ao contrário do que acontece nas outras partes do livro, nesta os textos não são motivados, em sua maioria, por notícias da área científica. Isto não é fortuito mas está atrelado ao fato de que os avanços no campo das ciências sociais têm sido bem mais lentos do que no das chamadas ciências duras. É mais raro ver divulgado um avanço científico em áreas sociais do que em áreas como física, astrofísica, biologia ou outra na qual o método quantitativo predomina sobre o qualitativo. As ciências sociais lidam com o imponderável da natureza humana, o que torna mais difícil o avanço do conhecimento nessa área. Porém, a razão para esse menor desempenho das ciências sociais pode ser outra – como especula o texto que virá – de título “Energia escura e progresso” – que vincula essa limitação das ciências sociais ao seu menor poder de atração sobre as grandes mentes, o que dificulta a procura de explicações científicas para os complexos problemas da sociedade.

          Seja isto correto ou não, o fato é que essa tal natureza humana é mesmo instigante. É difícil dizer qual das suas características é a mais importante ou a mais pronunciada. A curiosidade que advém dela é a origem de todo o conhecimento que o ser humano acumulou. Por sua vez, a empatia que demonstramos com os semelhantes e com os outros animais é uma qualidade que nos resgatou da condição de seres selvagens das eras passadas. A nossa capacidade de introspecção permitiu o desenvolvimento das artes, das ciências e das crenças e religiões. E a busca da felicidade é a força motriz que nos impede de admitir que certos obstáculos sejam intransponíveis. Todas são manifestações inequívocas da natureza humana e estão presentes de forma positiva em tudo que fazemos.

          Entretanto, às vezes parece que esse arsenal não é suficiente para dominar alguns dos nossos instintos e, então, fazemos tudo errado: somos egoístas, preconceituosos, magoamos pessoas, matamos, nos omitimos diante dos problemas, somos sedentários, preguiçosos e descuidados com o meio-ambiente. Os mais pessimistas dirão que isso tudo não constitui um desvio de conduta, mas sim uma parte inerente e importante da natureza humana. Os otimistas, por sua vez, acreditarão que o homem de “O produto final da criação” – último texto desta parte – não é apenas uma miragem, mas uma possibilidade concreta. Quem sabe?

           Os textos desta parte refletem essa alternância entre otimismo e pessimismo, ora acreditando na natureza humana, ora perdendo a esperança num final feliz. Aliás, isso é bem característico dessa mesma natureza humana. Escolhi para iniciar e terminar esta parte dois textos positivos, não tanto por uma convicção pessoal de que o homem seja intrinsecamente bom, mas simplesmente por torcer a favor disso.

A mágica da ciência

         Na internet pode-se ver um filme muito bonito sobre a natureza, tendo como fundo musical a canção What a wonderful world. São imagens impressionantes da fauna e da flora, de recursos naturais, com a Lua ao fundo e tudo o mais, que impressionam qualquer pessoa e a fazem pensar: “Que mundo fantástico este no qual vivemos”.

        Ao ver o filme fico imaginando se essas cenas têm o mesmo impacto para os cientistas, que conhecem profundamente (ou, pelo menos, sob um aspecto formal pouco acessível aos leigos) os mecanismos que estão por trás do funcionamento do mundo. Seria, para eles, como observar algo através de um equipamento de raios-X, a beleza externa embaçada pela feia realidade do conteúdo interno? Ou uma espécie de decepção ao ver os grandes mistérios explicados por soluções simples da natureza, como a frustração que sentimos ao descobrir os truques banais por trás das mágicas mais engenhosas?

        É evidente que cada indivíduo, seja ele cientista ou não, tem a sua própria percepção das coisas. Mas, procurando generalizar, é bem provável que os cientistas sintam o mesmo fascínio que os demais indivíduos ao ver cenas como as mencionadas. Ou, quem sabe, um fascínio maior, por ver nas explicações da ciência um mundo de surpreendente ordem, que segue leis naturais e universais que tornam os fenômenos previsíveis, quando tudo poderia ser caos e imprevisibilidade.

         Na verdade não é difícil, para nós leigos, deduzir o que se passa na cabeça dos cientistas porque já assimilamos muitos conhecimentos que, pela divulgação exaustiva, tornaram-se de domínio popular. Lembro-me de ter lido um livro do biólogo Richard Dawkins, intitulado “Unweaving the rainbow”, em que ele explica a física por trás dos arco-íris. Depois de entender os arco-íris passei a observá-los de forma diferente e, acho, com mais interesse.

        Estou falando das ciências naturais, mas pode ser igual em qualquer outro ramo da ciência. Na biologia, o biólogo vê um ser vivo por meio das intrincadas interações de seus órgãos internos, muitas ainda misteriosas, mas a maioria delas sobejamente entendidas e, com auxílio dessa visão privilegiada, talvez dê mais valor e demonstre mais fascínio por essa entidade chamada vida. Nas ciências sociais, o cientista enxerga comunidades inteiras por meio de suas motivações, culturas e costumes e conseguem ter delas uma avaliação muito melhor do que a que temos, ou seja, a de simples aglomerados de indivíduos diferentes. É bem provável que esses sociólogos tenham mais razões do que os leigos para se impressionar com essas massas de indivíduos.

        Enfim, o conhecimento, tanto quanto o mistério, tem o poder de fascinar as pessoas. Tudo fica ainda mais interessante quando um mistério vira conhecimento que, por sua vez, revela outros mistérios, num ciclo aparentemente sem fim. Essa parece ser a mágica produzida pela ciência.