Homo Deus ou A Volta à Crença Original

O livro Homo Deus – Uma breve história do amanhã, do historiador israelense Yuval Noah Harari, vale a pena ser lido não só pelas ousadas ideias que ele contém acerca das possibilidades futuras do Homo sapiens, mas, principalmente, pela forma peculiar como o autor resume a história da nossa espécie. Para começar, o autor utiliza uma definição de religião pouco usual e muito mais ampla do que aquela que costumamos utilizar no dia-a-dia. A partir daí ele deriva as suas explicações para a razão pela qual nós, os Sapiens, dominamos todas as outras espécies do planeta. Nem todos concordarão com as suas ideias, mas poucos deixarão de admirar a forma como ele as apresenta, com conhecimento histórico, imaginação, didática e humor.

Todavia, quero me prender ao que o autor descreve como uma das possibilidades para o futuro da espécie Sapiens, que será menos influenciada pelos problemas ecológicos e mais pelo desenvolvimento tecnológico. Trata-se do surgimento de uma nova religião – o Dataísmo – em substituição ao atual Humanismo. Segundo ele, o Dataísmo será uma doutrina que colocará a transferência da informação acima de tudo, e será exercida por meio de algoritmos que já começaram a ser utilizados – como o Google, as redes sociais e os aplicativos de uma maneira geral – e serão aperfeiçoados e disseminados de uma forma espantosa, culminando em algo tão complexo e poderoso que não mais será entendido pelo próprio homem que o criou e que acabará por nos tornar prisioneiros – e, finalmente, obsoletos – num mundo centrado na transferência da informação.

Essa ideia de que um dia seremos dominados pelas máquinas não é nova, mas a forma como o autor a apresenta é muito mais atraente e verossímil do que aquelas das histórias de ficção. Ela também propicia várias interpretações e uma delas é a volta ao passado remoto da nossa espécie. Provavelmente, esta não é uma interpretação que o autor tivesse intenção de induzir em seus leitores, mas não consegui deixar de pensar nela depois de ler o livro. Um grande escritor de ficção científica – Arthur Clark – uma vez afirmou que no futuro a tecnologia estará tão avançada que não se diferenciará de magia. É o que se pode pensar de um futuro com o Dataísmo. Poderá chegar o momento em que o indivíduo comum não terá noção de como os algoritmos (aplicativos) funcionam e sequer noção da sua origem. Seriam, então, vistos como mágica ou, talvez, Deus. Os algoritmos estarão, dia após dia, orientando os humanos a tomar as decisões mais acertadas, seja para escolher o lugar onde passar as férias, a pessoa com quem se casar, a carreira para a qual estará mais capacitado, as atividades que protegem melhor o meio ambiente etc. Para ter tudo isso, bastará que o indivíduo coopere com o sistema disseminando as informações que detêm, sobre si mesmo e sobre tudo que o cerca. Se fizer isso, o indivíduo não precisará se preocupar com mais nada. Se não fizer, ou seja, se guardar segredo sobre informações vitais ao grande sistema de processamento de dados, … ah, a ira dos algoritmos poderá voltar-se contra ele.

Isto não lembra a crença que os antigos homens caçadores-coletores tinham em deuses que utilizavam as grandes catástrofes para punir aqueles que desobedeciam aos seus mandamentos? Naquele tempo, eram necessárias orações e oferendas para aplacar a ira dos deuses. No futuro, em vez de orações e oferendas, os Sapiens terão que oferecer informações, sob pena de ser desconectados, ou melhor, extintos.

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