Disneylândia

É interessante como se podem identificar as diversas personalidades nas pessoas que estão em uma fila, principalmente nas filas longas e demoradas. Há os pacientes, que esperam sem fazer qualquer reclamação, os impacientes, que se mexem para lá e para cá, os temperamentais, que reclamam em voz alta e tentam trazer os demais para a sua causa, os indiferentes, que discutem outros assuntos como se ignorassem a fila e há, também, os espertinhos que, na primeira oportunidade, tentam tirar proveito para chegar mais rápido ao guichê de atendimento. Enfim, há pessoas de todos os tipos e as suas expressões revelam emoções e sentimentos de todas as naturezas: alegria, tristeza, introspecção, ansiedade e tudo o mais que pode ser revelado pelo olhar e pela postura.

Tudo isso pode ser observado na longa fila que se forma diariamente naquele Parque de Diversões, na entrada da sua maior atração: os bonecos gigantes. Essa longa fila forma-se todos os dias e persiste ao longo de todo o dia, até o Parque se fechar. Os bonecos gigantes eram uma das maiores invenções na área de entretenimento e não era à toa que causavam tanto interesse. Pessoas vinham de longe para viver a experiência dos bonecos gigantes e não havia quem não dissesse, no fim do dia, que a aventura passava muito rápido e deixava, sempre, aquele gosto de “quero mais”.

Pudera, quem não gostaria de ser o “piloto” de um boneco gigante e guiá-lo por uma terra desconhecida e, aparentemente, sem limites, fazendo-o passar por aventuras, ora desafiadoras e extravagantes, ora ternas e românticas, mas nunca monótonas, a não ser pela falta de imaginação do piloto? E podiam fazer isso com o simples apertar de botões que fazem o boneco andar, correr, virar-se, agachar-se, levantar-se, abraçar, agredir e realizar tantos outros movimentos e ações possíveis com esse brinquedo de última geração.

As pessoas ficavam maravilhadas em pilotar um boneco e, especialmente, em fazê-lo interagir com os outros bonecos, tudo, é claro, com a maior segurança. Os bonecos poderiam ser danificados de vários modos pois isto fazia parte da brincadeira, mas seu piloto estaria protegido em quaisquer circunstâncias. Todos sabiam que era fundamental proteger o seu boneco para que a sua brincadeira não acabasse mais cedo. A regra, portanto, era submeter o boneco às experiências mais prazerosas, mas não colocar a sua integridade em risco para que a sua vida não fosse abreviada e a brincadeira chegasse ao fim.

O Parque estava no auge do sucesso e a quantidade de bonecos aumentava dia-a-dia, assim como as experiências pelas quais eles podiam passar. Os bonecos “marionetes” gigantes mantiveram-se como a atração principal do Parque por muito tempo até que algo inesperado aconteceu. Um dos bonecos deixou de responder ao comando do seu piloto e, o que foi pior, arremessou-o longe com um movimento brusco da cabeça. A princípio isso foi considerado uma fatalidade, mas logo os acidentes com os bonecos começaram a se multiplicar, sempre provocados por algum tipo de desobediência dos bonecos aos comandos do usuário. A situação ficou tão grave que a administração do Parque foi obrigada a encerrar a atração dos bonecos e acabar com aquela jornada tão bem-sucedida dos bonecos marionetes, justamente quando eles estavam ficando cada vez mais sofisticados tecnologicamente e as suas aventuras cada vez mais reais. Os visitantes ficaram frustrados quando, ao chegar no Parque, se depararam com aquela placa dizendo: “A ATRAÇÃO DO HOMO SAPIENS ESTÁ FECHADA POR PRAZO INDETERMINADO”.

Ninguém sentiu mais o fim dos bonecos do que aqueles homenzinhos, visitantes do Parque, que vinham de tão longe e enfrentavam longas filas, só para operá-los, o que faziam com extrema maestria, dando “vida consciente” aos bonecos. Agora, eles teriam que arranjar outro passatempo na sua própria terra, a ilha de Liliput.

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