Inteligência e consciência

O historiador israelense Yuval N. Harari, em seu livro Homo Deus, discute a natureza das experiências subjetivas – sentimentos, emoções, pensamentos – que se manifestam em nossas mentes quando nos deparamos com as situações corriqueiras da vida. Porém, antes de fazer qualquer especulação a respeito, ele ressalta que a ciência ainda não tem um conhecimento satisfatório dos processos mentais que se passam na cabeça do H. sapiens. Feita esta ressalva, ele menciona uma das especulações que os neurocientistas fazem a respeito das nossas experiências subjetivas e ela é surpreendente. Segundo esses especialistas, as nossas experiências subjetivas, como medo, ansiedade, prazer, fome, amor etc não foram importantes no processo evolutivo que resultou na consolidação da nossa espécie. Importantes foram as configurações neurais, subjacentes a esses estados conscientes, que prepararam o nosso organismo para enfrentar as ameaças a que ele estava sujeito.

Explicando melhor, foi mais importante a reação do cérebro enviando os sinais para os músculos das pernas de um homem das cavernas para que ele fugisse de um animal selvagem, do que a sensação do medo que ele sentiu diante daquela situação. Isto quer dizer que a sensação do medo não era necessária para que o homem da caverna fugisse de um leão ameaçador; o necessário era que o seu cérebro enviasse às suas pernas a ordem para correr. Ou seja, o troglodita poderia muito bem fugir do leão sem sentir a desagradável sensação do medo.

Então, para que servem as nossas emoções, vontades e pensamentos? Para nada, alguns radicais podem dizer. A capacidade de ter essas experiências subjetivas foi apenas um subproduto da nossa evolução e não um componente essencial no processo. E eles acrescentariam que esse estado de consciência (as experiências subjetivas) está completamente desacoplado da inteligência, que decorre dos processos mentais para a tomada de decisão (enganar um predador ou uma presa, utilizar uma ferramenta, enumerar coisas, planejar uma ação).

Para nós é difícil desacoplar os nossos sentimentos e emoções dos estados neurais que lhes são subjacentes. Como seria possível fugir de um leão se não sentíssemos medo dele? Vamos imaginar como isso poderia acontecer e notar o quão estranha a situação pareceria. Imagine um homem das cavernas, desprovido de qualquer sentimento ou emoção, que se vê, repentinamente, diante de um leão faminto pronto para devorá-lo. Vamos ler o que estaria se passando em sua cabeça naquele momento. “Eta! Estou prestes a iniciar uma corrida desenfreada, por que será? Será por causa desse leão em minha frente que quer me comer? Acho melhor obedecer aos meus membros que estão retesados e prontos para correr. Até hoje eles nunca me deixaram na mão. Vamos lá, corraaaa!”. Imagine o mesmo homem das cavernas em outra situação, diante de uma fêmea. “Eta! Estou prestes a avançar sobre aquela guria, por que será? Será por causa dessas coisas volumosas que ela tem na frente e atrás de seu corpo? Acho melhor obedecer a esse fluxo sanguíneo que percorre o meu corpo e me diz para agarrá-la. Sempre deu certo nas outras vezes. Vamos lá, ataqueee!”.

São situações inverossímeis porque é difícil imaginar o que seríamos sem a capacidade de ter sentimentos e emoções e, em vista disto, tudo o que foi dito antes parece pura fantasia. Mas, vamos admitir que os cientistas estejam certos nessa sua especulação de que as nossas experiências subjetivas foram um subproduto da evolução e poderiam não existir sem que isso impedisse o domínio da espécie humana sobre as outras espécies. Não seria ainda mais espetacular a existência dessa consciência que teria emergido em nós sem uma necessidade evolutiva? Tudo leva a crer que um dia criaremos robôs mais inteligentes do que nós, mas tudo indica, também, que eles jamais poderão sentir medo, ansiedade, raiva, amor e prazer como nós. Se tudo isso nos foi dado sem nenhum propósito, pouco importa.

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Um comentário sobre “Inteligência e consciência

  1. Caco: o Yuval tem uma visáo muito boa sobre a história do homo sapiens-sapiens ( sapiens2) = inteligente e consciente . O que diferencía o homo sapiens do homo sapiens2 é a capacidade de produzir ARTE !!!
    (pinturas nas cavernas, estatuetas, etc… com aprox. 20 mil anos ).

    Freud estabeleceu a estrutura inconsciente (impulso de fugir do leáo = instinto de sobrevivencia) e o instinto de desejo da femea atraente = instinto de reproduçao ) , o que podemos considerar um “hardware” ou “firmware”, pois ninguém precisa ser ensinado a ter desejo sexual nem a proteger sua vida.

    Por exemplo : numa ejaculaçao , milhoes de espermatozóides “correm” desesperados para entrar num óvulo, …entáo eu pergunto : alguém “ensinou” eles a fazer isso ,ou eles já nascem programados para fazer isso ?
    Entretanto , o nosso consciente é puro “Software”, Adquirido ao longo da vida.
    E a Arte, pode ser vista como um “blend” dos dois. A = (inconsciente X% + conscienteY%) .
    É o que nos diferencía de outras espécies.

    Abraçáo
    Julio Portela

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