Me dá um tempo!

“Me dá um tempo!”. Com esta frase corriqueira e mal-entendida, começou a batalha de alguém que vivera normalmente até então. Lida assim, a frase não diz exatamente o que a pessoa queria expressar com ela. Não era um desejo de se afastar de alguém ou de esfriar uma relação, longe disso. Seria melhor entendida se expressa por “Aguarde um momento!”. Sim, quando aquela pessoa disse “Me dá um tempo!” ela quis de fato dizer “Aguarde um momento, pois estou ocupado, falando com outra pessoa.” Para um interlocutor atento não haveria dúvidas, ele estava ocupado consigo mesmo. Seu olhar fixo e distante e a ausência de movimentos indicavam que ele não estava mais ali, naquele espaço que o seu corpo ocupava. Ou se estivesse, estaria bem escondido no interior de sua mente.

Não tinha havido uma mudança repentina com ele. Ele já era muito introspectivo e costumava se desligar do mundo muito facilmente para remoer os seus assuntos consigo mesmo. Bastava um pequeno estímulo, como uma música, uma caminhada, uma tarefa rotineira, uma conversa chata, para ele sair de sintonia. Mas voltava logo à realidade, assim que o seu nome era citado. Todavia, essa foi a primeira vez que ele pronunciou aquela frase, pedindo explicitamente um tempo para se ausentar da realidade.

A partir de então, a volta à realidade começou a ficar cada vez mais difícil. Naquele estado de ausência podia-se deduzir que ele ouvia as vozes, enxergava as luzes e percebia os movimentos ao seu redor porque, às vezes, ele respondia a tudo isso, ainda que de uma forma automática, sem se dar conta do que estava fazendo. Ou melhor, sabia muito bem o que estava fazendo: remoendo os seus pensamentos.

Não demorou para que a sua família o obrigasse a se tratar com um especialista. E ele obedeceu. Passou por exames e testes exaustivos sem que um diagnóstico preciso pudesse explicar o seu estranho comportamento. Não era autismo nem qualquer doença mental conhecida. Parecia que a sua mente estava implodindo, concentrando, cada vez mais, toda a atividade numa região específica do cérebro, inescrutável mesmo para os aparelhos mais modernos e sofisticados.

Ele continuava a sua vida da maneira que podia, cada vez com intervalos mais longos de ausência da realidade. Parecia um computador que hiberna quando não é solicitado pelo usuário. Sempre que o mundo externo não o estimulava suficientemente ele entrava em hibernação, assim como o computador. E, a cada vez que hibernava, mais difícil era voltar para o mundo. Mas a sua fisionomia não revelava nenhuma angústia ou sofrimento, ao contrário, revelava uma pessoa em paz e segura de si. Até que um dia ele deu mostras de que não iria retornar, ficando ausente por um tempo sem precedente. Resistia a toda e qualquer tentativa de trazê-lo de volta ao convívio das outras pessoas e permanecia no seu estado de hibernação, que era o seu refúgio, segundo ele próprio dizia em momentos de lucidez.

Levado, sem qualquer resistência, aos cuidados dos especialistas, esses, como antes, não constataram nada de errado com o seu organismo. Ele tinha todos os seus sentidos funcionando normalmente, assim como os seus órgãos. O problema estava localizado estritamente em sua mente. As pessoas chegadas a ele ainda tiveram alguma esperança quando ele mostrou algumas reações parecendo que iria voltar ao seu estado normal. Mas logo ficou claro que isso não aconteceria tão cedo.

Seu corpo permanecia imóvel, como o de alguém em um sono sereno, mas os aparelhos indicavam que havia intensa atividade mental naquela mente reclusa. Nesse estado, ele não precisava de qualquer ajuda externa além da alimentação. Estava só, consigo mesmo, como sempre desejou. Estaria ele melhor nesse mundo individual do que naquele que abandonou? Não se sabe. É quase certo, entretanto, que a sua escolha não fora voluntária, por mais paradoxal que isso possa parecer.

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O personagem desta história poderia ser um homem biológico ou um homem biônico ou, até mesmo, uma máquina. Ao escrever este texto fui motivado pelo livro Homo Deus, de Yuval N. Harari, que alerta para as consequências da nova agenda do homem do futuro, que buscará a imortalidade, a felicidade e a divindade. Algumas das novas tecnologias que visarão a produzir seres superpoderosos lidarão diretamente com a mente humana, seja por meio de novos medicamentos ou de intervenções diretas no cérebro. Essa manipulação da mente, a exemplo do que acontece corriqueiramente com as atualizações do Windows, estará sujeita a bugs que poderão ter consequências imprevisíveis.

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Um comentário sobre “Me dá um tempo!

  1. Olá Dias/Caco
    Li apenas o artigo da Folha de São Paulo sobre Harari. Tem seu mérito, mas acredito que é necessário cautela sobre suas ideias. Sua observação final procede, ou seja, a manipulação da mente estará sujeita a bugs que poderão ter consequências imprevisíveis.
    Abraços
    Aristides

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