Eterno enquanto dura e infinito até onde a vista alcança

Eterno e infinito são duas palavras mágicas que querem significar tudo e ao mesmo tempo, ou talvez por isso, não têm um significado claro. A nossa compreensão não consegue abarcar o que elas querem dizer e, no entanto, elas são necessárias para explicar o inexplicável. Se o espaço não for infinito, o que pode existir além dos seus limites? Se o tempo não for eterno, o que existia antes de seu início e o que existirá depois de seu término? Quem ainda não fez essas perguntas? Eterno e infinito eliminam essas dúvidas, mas não são conceitos fáceis de ser assimilados por nossas mentes, que anseiam por uma fronteira, um início e um fim para todas as coisas.

A ciência também não se satisfaz com esses conceitos e procura formas de contorná-los onde quer que apareçam, na matemática, na física ou em outra área. E o lugar onde eles estão sempre rondando é na caracterização do tamanho e da idade do nosso universo. Por isso, podemos dizer que o cosmólogo é o policial que está à procura desses contraventores da nossa intuição.

Numa dessas perseguições, já se tentou apanhá-los com a ideia de que espaço e tempo são curvos, de tal modo que, ao caminharmos sempre numa mesma direção chegaremos ao mesmo lugar e instante de onde e quando partimos. Tudo bem, mas o que a nossa intuição acha disso? Espaço curvo? Tempo curvo? A emenda parece que ficou pior do que o soneto. Felizmente, não há evidências de que isso seja totalmente correto.

Mas os policiais têm outras armas. Uma delas é a das dimensões do espaço (e do tempo). Todos sabem que vivemos em um mundo de três dimensões espaciais e uma dimensão temporal que formam o que a ciência chama de espaço-tempo de quatro dimensões. Pelo menos é mais ou menos isso que percebemos com os nossos sentidos e tudo o que fazemos e observamos corroboram essa ideia de que o nosso mundo é tridimensional e se modifica com o tempo, que flui sempre para a frente. Já estamos acostumados a isso e não conseguimos imaginar que a realidade possa ser diferente.

No entanto, essa história de espaço-tempo pode fugir à nossa intuição. Ela leva à interpretação radical de que o passar de tempo é uma ilusão, já que tempo e espaço estão integrados. Assim como todo o espaço é real, o mesmo deve acontecer com o tempo, i.e., passado, presente e futuro são igualmente reais (essa é a ideia chamada de block universe) e não apenas o presente. É uma mera ilusão achar que apenas o presente é real, embora as causas dessa ilusão ainda não estejam bem explicadas. Portanto, não se poderia falar em tempo eterno, pois o tempo sequer passa. O cosmólogo-policial poderia dar-se por vitorioso neste aspecto se não fosse o problema de que o tempo eterno teria se transfigurado no tempo infinito, assim como o espaço.

Mas a arma das dimensões não se esgota aqui. É certo que são poucas as situações em que podemos imaginar algo diferente das três dimensões (espaciais) em que vivemos. Uma delas é oferecida pelo cinema quando assistimos a um filme em 3D. Nele podemos ver uma imagem mais parecida com a real que não é vista num filme comum. Aí sim, notamos que a imagem de um filme comum estava em duas dimensões. Então, poderíamos especular que os personagens de um filme comum vivem em um mundo de apenas duas dimensões. Mas a ideia não prospera porque todos sabem que personagens de filmes são pessoas fictícias e ficamos presos, inapelavelmente, em nosso mundo de três dimensões.

Mas, e quanto aos mundos com mais de três dimensões? É possível que estejamos vivendo em um deles, pois, de acordo com algumas teorias físicas, o nosso mundo pode ter mais de três dimensões – talvez onze! -, sendo que as adicionais são tão pequenas que não as percebemos. Mas essa ideia não tem graça nenhuma porque as dimensões extras, que não comportam sequer um átomo, comportariam muito menos um astronauta ou uma espaçonave. Ainda que seja possível pensar em mundos com mais de três dimensões, como isso ajudaria ao cosmólogo-policial a caçar os nossos foragidos eterno e infinito?

Quero dar um exemplo, ajudado pelo meu amigo, Julio Patiño Portela – LePen para os amigos – que defende uma ideia de como dimensões extras podem se manifestar em nosso universo. Segundo essa ideia, ao olharmos, à noite, para o negro do céu, em qualquer direção, estaremos olhando para um único ponto, que é o centro do Big Bang. Esse ponto, na realidade, está em outra dimensão e a luz, para chegar até ele, teria se curvado no espaço-tempo produzindo a ilusão de ótica de que estamos observando o universo em toda a sua amplitude (ou a sua fronteira). Note que o volume aparentemente infinito da região escura do céu, considerando as três dimensões espaciais que conhecemos, é reduzido a um simples ponto na dimensão extra, ou seja, o infinito foi enjaulado na prisão da dimensão extra.

Assim como no exemplo acima, a ciência continuará a procurar explicações para o que não está bem explicado, quer por meio de curvaturas no espaço-tempo, dimensões extras, multiversos ou de outras formas, mas não se sabe se o nosso mundo poderá, algum dia, se ver livre dos conceitos de eterno e infinito, que tanto desafiam a nossa intuição. Talvez eles sejam parte inseparável desse mundo e qualquer tentativa de eliminá-los seja em vão. Nesse caso, a sorte estará com os poetas e compositores, que continuarão a se valer do romantismo que aqueles termos evocam.

Anúncios

2 comentários sobre “Eterno enquanto dura e infinito até onde a vista alcança

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s