O coração falou mais alto do que o cérebro

Como assim? Nenhum dos dois fala!? Só a boca fala! Ou nem ela, quando o cérebro a manda se calar. Cala-te boca!, diz ele. Com que boca ele diz isso, se cérebro não tem boca? E a boca, por sua vez, obedece? Como obedecer, se ela não tem cérebro? Nessa hora, de ânimos exaltados, é melhor usar a razão. Mas quem está com a razão, o cérebro, o coração ou a boca? O cérebro, claro, mas ele não poderia ter se exaltado, pois isso é coisa do coração. E a boca não deveria ter dado palpite, muito embora só ela tivesse voz para fazê-lo. E aí, como é que fica?

A metáfora pode “criar” situações embaraçosas como essa. Ela mesma não sabe se “criar” é uma de suas funções, mas não está nem aí. Vai sendo usada para criar frases de efeito que expandem, cada vez mais, o significado das palavras. Como eu havia prometido em “O amor é cego … e outras metáforas”, com esta discussão volto a falar sobre metáforas aqui neste blog e não escondo que este é um dos meus temas preferidos. O uso da metáfora é um instrumento obrigatório para quem quer transmitir uma ideia, seja em uma sala de aula, em uma palestra ou numa simples conversa com amigos, sempre que queira explicar algo mais complexo e que não é do conhecimento do interlocutor. Por alguma razão, que talvez os linguistas possam explicar, a nossa mente se adapta muito bem à figura da metáfora. E acho que não há quem não goste de uma boa metáfora.

Bem, a metáfora do título não chega a ser grande coisa, mas, espremendo-a um pouco é possível tirar algum suco dela. (Tão fácil quanto tirar leite de pedra.) “O coração falou mais alto do que o cérebro” é uma frase que todos entendem, embora não tenha o menor significado se levada ao pé da letra. (A propósito, letra tem pé?) Nessa sentença há mais de uma metáfora, a conferir: a expressão “falar mais alto” está sendo usada no sentido de “sobrepujar” ou “se impor a”; a palavra “coração” está sendo usada no lugar de “emoção”; e a palavra “cérebro”, no lugar de “razão”.

O sentido claro da frase é dizer que o agente foi movido pela emoção e não pela razão. Mas o que têm a ver coração e cérebro, com emoção e razão? É mais fácil entender o papel do cérebro. Nele está a nossa capacidade de raciocínio e daí a sua ligação com a razão. Todavia, no cérebro também estão os mecanismos da emoção e aí as coisas se confundem. Por que apareceu o coração na história? Pesquisei na internet para achar uma resposta a esta pergunta. Surgiram várias. A primeira diz que na Antiguidade se pensava que o coração fosse o centro das emoções; outra explicação diz que o coração, embora não seja o órgão responsável pelas emoções, é aquele que é mais influenciado quando o indivíduo está sob fortes emoções: taquicardia, aperto, dor torácica, entre outros sintomas. Pode ser que haja outras explicações mais convincentes, mas acho que as duas acima são suficientes.

Por outro lado, o cérebro e o coração são órgãos que guardam entre si uma relação especial, tipo conluio. O primeiro envia os sinais para que o segundo funcione no ritmo adequado e este, por sua vez, retribui o favor enviando ao primeiro o oxigênio necessário para a sua subsistência. É a razão e a emoção conspirando para definir uma pessoa. Talvez esta conclusão tenha sido o motivo oculto pelo qual escolhi a metáfora do título.

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3 comentários sobre “O coração falou mais alto do que o cérebro

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