Os futuros robôs serão mais parecidos com meu cão do que comigo

Sei que muitos dirão, diante da previsão do título: “Sorte deles, os robôs!”. Dirão isso, certamente, pensando nas lambanças que os seres humanos têm praticado ao longo de sua história e nos sofrimentos decorrentes delas. Sem, entretanto, entrar no mérito da questão se somos ou não uma espécie perfeita, a tarefa de produzir robôs com as nossas características é muito desafiadora e, se for bem-sucedida, a nossa convivência com eles trará algumas questões interessantes que podem ser antecipadas, como se verá a seguir.

O grande desafio da Inteligência Artificial – IA, no que diz respeito à produção de robôs que imitam os humanos, será demonstrar que os robôs realmente sentem e não apenas simulam as sensações. (Isto é abordado exaustivamente no filme Ex Maquina) Acontece que para sentir é necessário que exista “alguém” dentro dele, como existe dentro de mim e de você. Introduzir numa máquina esse senso de identidade é o grande desafio.

Além dos humanos, é possível que outros animais também tenham um senso de identidade, mas isso não está tão claro como todos gostariam que estivesse. Experimentos com chipanzés mostraram que eles conseguem se identificar na frente de um espelho, mas não se sabe exatamente o que se passa em sua cabeça nessa hora. Seria alguma coisa parecida com o que acontece conosco, como: “Humm, acho que sou mais forte do que aquele cara, posso enfrentá-lo quando eu quiser”, ou “Como estou envelhecendo, meus pelos estão ficando cada vez mais raros”, ou ainda “Esta dor nas costas está me matando”? (O livro de Marc Hauser, “Wild Minds”, tem um relato interessante de experimentos feitos com macacos e outros animais para verificar este e outros aspectos de suas mentes.)

Sabe-se ainda menos sobre animais de cérebro menos complexo do que o dos macacos, mas acredita-se que a maioria deles não tenha a percepção de si próprio. Isso nos faz pensar em algo curioso: se eles sentem alguma coisa, como dor, quem é que estará sentindo? Eles seriam equivalentes a um robô imperfeito que não sente mas simula um sentimento? A princípio, é difícil acreditar nisso, pois ninguém teria coragem de machucar, por exemplo, um coelho, enquanto que não hesitaria em dar uma martelada num robô para recolocar uma placa sua de volta no lugar. Entretanto, se o robô fosse convincente em simular a dor da martelada, talvez o nosso braço hesitasse em seguir adiante.

É frustrante constatar que, assim como acontece com os macacos, nunca saberemos o que se passará na cabeça de um robô, ainda que a IA venha a produzir robôs com características humanas. O máximo que poderemos fazer será deduzir o que eles pensam e sentem através de seu comportamento e dos sinais exteriores que eles emitirão, do mesmo modo que fazemos diante de um outro ser humano. Com o passar do tempo, pode ser possível que robôs tão sofisticados venham a se incorporar à nossa sociedade e, nessa hora, eles poderão se defrontar com problemas muito semelhantes aos que já enfrentamos e ainda não resolvemos, como:

  • O senso de identidade poderá despertar neles o egoísmo, tão presente entre nós?
  • Eles serão iguais aos humanos, perante a nossa precária justiça?
  • Serão eles vítimas de preconceitos semelhantes aos que já existem entre nós?
  • Os robôs poderão vir a ser uma ameaça aos humanos, maior do que aquela que já existe entre os próprios humanos?
  • Terão eles os mesmos problemas de superpopulação que ainda enfrentamos?
  • Serão mais cuidadosos com o meio-ambiente do que nós, humanos?

É irônico constatar que quanto maior for o sucesso da IA em produzir máquinas parecidas com os seres humanos, maiores serão as chances de que essas máquinas tenham os mesmos problemas que afetam a nós. Por isso, só podemos desejar que a IA ache um caminho que, além de dar aos robôs as características mentais iguais às nossas, acrescente neles algum chip de “senso crítico” que nos faz tanta falta.

Por último, tudo isso pode ser mera especulação de mentes solitárias que se sentem incapazes de lidar com o mundo ao seu redor e imaginam um outro ser – o robô – que lhes dê apoio nessa tarefa. Nessa linha, seria mais realista pensar que o objetivo da IA acabe ficando restrito a produzir máquinas que simplesmente nos auxiliem a fazer algumas tarefas mais complexas ou exaustivas e a entreter crianças e idosos, com alguma capacidade interativa, como a de um cãozinho. E só isso. Será?

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