Progresso ou felicidade?

Progresso e felicidade são coisas incompatíveis? Ninguém acredita nisso, muito embora vez ou outra creditemos ao progresso as dificuldades dos tempos modernos, conjecturando que os nossos antepassados viviam mais felizes do que nós. O assunto é complexo a começar pelo fato de que não sabemos definir exatamente o que seja felicidade. Portanto, falar sobre este tema é como caminhar num terreno escorregadio e o leitor deve estar ciente disso ao ler o restante do texto, que está repleto de se … se …

Considere a seguinte situação: o favorito a uma medalha de ouro ficará frustrado se ganhar “apenas” a de prata, enquanto que aquele que não almejava nenhuma medalha ficará feliz com a de bronze. Este fato ilustra bem a crença comum de que a felicidade está ligada às nossas expectativas sobre eventos futuros: quanto mais baixas as expectativas maiores serão as chances de ficarmos satisfeitos com os resultados. (Veja vídeo sobre isto.) Pesquisas recentes (leia aqui) procuram quantificar de alguma forma essa correlação entre expectativas e felicidade e levam à conclusão que as expectativas são, de fato, fator importante para determinar o grau de felicidade de um indivíduo diante dos acontecimentos. Segundo essas pesquisas, tem algum sentido afirmar que as pessoas mais felizes, em geral, são aquelas que têm expectativas mais baixas de suas realizações.

Desde que se considere como felicidade a satisfação sentida diante dos acontecimentos, este é um resultado que já esperávamos e que é corroborado todos os dias, como no exemplo acima. Admitindo-se como válida esta definição polêmica de felicidade, o ponto seguinte é saber o que fazer para baixar as nossas expectativas e, mais importante ainda, decidir se isso é uma coisa boa ou ruim a fazer. Vou abordar cada um desses dois aspectos.

Primeiro, eu acho que fixar expectativas não se faz por um ato voluntário ou não sem muita prática e treinamento. As pessoas são diferentes entre si. Ambição, inquietação, obstinação, inconformismo, perfeccionismo, por exemplo, são características pessoais que tendem a fazer com que o indivíduo tenha altas expectativas, ou metas desafiadoras, para as suas realizações e não se contente com pouco. Por outro lado, insegurança, sensatez, moderação, compreensão, conformismo, por exemplo, são características que favorecem as baixas expectativas, ou metas realistas. Se isto for correto, será muito difícil, ou mesmo impossível, incutir nas pessoas o hábito de fixar expectativas que não condizem com a sua natureza. Todavia, vamos supor que isso seja possível e que as pessoas possam baixar as suas expectativas para, com isso, ser mais felizes. Aí vem o segundo ponto: isso seria uma boa medida sob o ponto de vista da sociedade como um todo?

Para discutir isto, vou defender a hipótese temerária de que as pessoas com as mais altas expectativas são, em geral, as responsáveis pelas grandes descobertas científicas e tecnológicas, pelas grandes obras de artes e, também, … pelas disputas e guerras, esse efeito colateral indesejável. Assim, o progresso – que está ligado ao avanço do conhecimento e das artes que, por sua vez, está ligado às altas expectativas de parte da população – será o grande prejudicado com a prática da população de baixar as suas expectativas em busca da felicidade. Nessa situação hipotética – em que a população estará “treinada” a ter baixas expectativas para as suas realizações – um maior número de pessoas experimentará o sentimento de felicidade, mas a sociedade poderá ser privada de novas tecnologias e obras primas que são características de uma sociedade desenvolvida. Por outro lado, se a prática de baixar as expectativas não for estimulada entre os indivíduos, o progresso não será detido, mas grande parte da população continuará infeliz por não conseguir atingir as suas metas ambiciosas.

Este é, em resumo, o dilema de escolher entre felicidade e progresso, construído sobre uma série de hipóteses polêmicas, a começar sobre o que é felicidade. Por isso, penso que o leitor certamente achará alguma falha gritante no raciocínio acima e concluirá que este é um falso dilema e que é bem possível que felicidade e progresso possam caminhar juntos.

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3 comentários sobre “Progresso ou felicidade?

  1. BCD,

    Como diz o Pimenta,

    BRILHANTE!

    BRILHANTE!!

    BRILHANTE!!!

    Felicidade não tem nada a ver com Progresso. Felicidade tem a ver com expectativas, aceitação e apreciação da realidade.

    Uma vez um professor de Psicanálise que estuda essa porra de Felicidade contou a seguinte história na aula:

    Uma menina morava no interior e era feliz com a sua vida. Mas um dia, se mudou para perto e ela fez amizade com uma menina rica da capital que começou a lhe contar das suas viagens para a Disney, mostrar as suas roupas bonitas e modernas e muitas outras coisas que tinha. A menina passou a desejar tudo que não podia ter e tornou-se muito infeliz. O problema? Expectativas.

    O abraço,

    Ary

  2. Dias, é importante tentar um ponto de equilíbrio, muitas vezes difícil! Daí podemos dizer que felicidade e progresso possam caminhar juntos!
    Abraços
    Aristides

  3. Na minha humilde reflexão de mortal comum, o progresso tem é melhorado a tal ‘busca da felicidade’…porque felicidade tem muito a ver com viver . Viver tem muito a ver , com saude, ser saudável e o progresso tem ajudado muito….

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