O futuro do nosso esporte está em Brasília

O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e um desempenho olímpico que não está à altura dessa numerosa população. Dentre os países que têm melhor desempenho olímpico do que o Brasil, apenas Estados Unidos e China têm população maior do que a nossa; os demais são menos populosos e ganham mais medalhas do que nós. Esse mau desempenho não quer dizer, é claro, que o brasileiro tenha alguma deficiência física que não o qualifica para os esportes. (É certo que alguns esportes exigem alta estatura, que o brasileiro não tem, mas para a maioria dos esportes o brasileiro tem uma compleição física bem favorável.) Acho, também, que a razão não está na falta de infraestrutura esportiva e das demais condições para a prática dos esportes.

As instituições esportivas no Brasil não são ruins ou, pelo menos, não são precárias como se poderia deduzir pelo pífio desempenho do país em competições internacionais. Há boa infraestrutura para a prática de muitos tipos de esportes e agremiações bem constituídas que oferecem todas as condições necessárias para formar um atleta. Há técnicos, fisioterapeutas, médicos e até psicólogos, além de outros profissionais, em número suficiente para cuidar dos atletas.

É claro que poderia ser melhor se a administração disso tudo fosse mais eficiente e se houvesse campanhas e incentivos para o esporte, mas essa melhoria seria pequena e insuficiente para mudar o panorama geral. Quando muito, um ou outro esporte poderia se sobressair, como aconteceu com o vôlei nos últimos tempos. Então, qual é o problema que impede que o Brasil tenha um desempenho esportivo de uma grande nação?

O problema decorre justamente do fato de o Brasil não ser uma grande nação; é grande em população, mas pequeno quando medido pela qualidade de vida dessa população. Isso faz com que grande parte da população não tenha acesso a toda essa infraestrutura esportiva porque ela é barrada já no nascedouro, seja pela morte prematura, pela desnutrição ou pelo desvio de conduta. Para mudar o paradigma do nosso esporte é preciso que essa parte da população seja incluída no jogo.

As quadras, academias e campos de futebol teriam mais utilidade se fossem rodeados por bairros com infraestrutura adequada, saneamento básico, escolas e áreas de lazer. E, também, se a segurança no seu entorno permitisse que crianças bem nutridas pudessem desfrutar disso tudo.

A medicina esportiva vai bem, desempenhada pelos profissionais que dispõem de equipamentos adequados e métodos modernos para lidar com os atletas nas agremiações para as quais trabalham. Mas a medicina “pré-esportiva” vai muito mal. Refiro-me à medicina dos hospitais e prontos-socorros que deveriam atender aos futuros atletas e seus familiares. Ali morrem os sonhos de muitos potenciais atletas, seja pelo mau atendimento ou pela falta dele, afetando tanto o futuro atleta quanto os seus familiares, o que, na maioria das vezes, também é fatal para os sonhos da criança.

Uma vez que o jovem ingressa e se sobressai no mundo dos esportes a sua educação fica mais fácil porque ele passa a ter os privilégios oferecidos pelas instituições esportivas, como bônus pelo seu desempenho. Todavia, o ingresso não é fácil porque ele está disponível apenas para os que conseguiram passar pela batalha da infância e da adolescência. Aqueles que foram privados de uma educação adequada, além de outras necessidades básicas, terão poucas chances de vencer essa batalha e ingressar no mundo dos esportes.

Assim, parece-me que o problema do desempenho olímpico não é um problema de política esportiva, mas de política econômica e social. Desde que um país populoso como o Brasil consiga criar uma sociedade que desfrute de uma qualidade de vida minimamente satisfatória, o bom desempenho esportivo virá como consequência, porque o esporte é uma atividade que tem grande apelo entre as pessoas. Se isso não resultar em medalhas, certamente resultará no aumento do nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que, afinal, é muito mais importante.

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2 comentários sobre “O futuro do nosso esporte está em Brasília

  1. Muito bem Dias, a sua colocação procede! Está correta! Torcemos pela mudança da mentalidade esportiva no Brasil. A próxima eleição é o nosso primeiro passo…viva os bons políticos!
    Abraços
    Aristides

  2. BCD, Outro dia assisti a algum programa de TV (GloboNews?) onde alguém comentava que o Brasil ia bem nos esportes coletivos – futebol, voley, handball, etc. (tanto masculino como feminino), mas nem tanto nos individuais – atletismo, natação, lutas, etc. Ora, cada esporte desses tem uma caralhada de medalhas, enquanto o futebol (por exemplo) só tem duas. Então esse negócio de comparar quadro de medalhas às vezes fica meio distorcido, nénão? Grande abraço, Ary

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