O vácuo

As pessoas ainda não entenderam o que pode ter causado a grande catástrofe de algumas semanas atrás. Milhões de pessoas morreram inesperadamente, e quase ao mesmo tempo, em todo o planeta. A onda de mortes começara no Oriente e em poucos minutos se espalhara para o Ocidente, aterrorizando a todos. A catástrofe se fez sentir em grandes cidades do mundo inteiro: Yokohama, Marselha, Campinas, Rosário, Lima, Filadélfia, entre outras (histórias de catástrofes geralmente falam de Nova York, Paris, Londres e Tóquio, mas desta vez resolvi poupá-las de novos infortúnios).

Demorou alguns dias para se concluir que as mortes foram predominantemente causadas pela exposição das pessoas ao vácuo. Para isso, contribuíram o estado dos corpos – inchados, com sangramentos sem ferimentos, o estado da pele – e os depoimentos das pessoas que sobreviveram nos locais afetados (os depoimentos que falavam de discos voadores foram ignorados porque essa história não é sobre alienígenas). Felizmente, o fenômeno durara apenas alguns minutos, caso contrário o número de mortes teria sido muito maior e, talvez, tivesse criado fortes mudanças meteorológicas que teriam produzido mais caos. A grande questão, então, era saber o que poderia ter provocado o vácuo transitório naquelas localidades.

Logo surgiram várias hipóteses e a mais desconcertante delas era a de que o vácuo teria sido provocado por um fenômeno muito natural, mas muito improvável, extremamente improvável, incompreensivelmente improvável. A probabilidade de acontecer um fenômeno semelhante foi calculada pelos cientistas como sendo de 1 em 1030, ou seja 10-30, ou melhor, um número em que o 1 aparece apenas na trigésima posição depois da vírgula. Quase nada! Mas que fenômeno seria esse?

Para entender o que aconteceu é preciso que se fale um pouco sobre o comportamento dos gases. (Quem não se interessa por gases pode passar direto para o parágrafo seguinte, sobre filosofia, ou, se preferir, ir para o parágrafo final no qual o vilão é revelado ou, como última alternativa, voltar a fazer o que estava fazendo antes de começar a ler esta história.) Como eu ia dizendo, os gases, como os que constituem a atmosfera, são aglomerados de moléculas livres que estão em movimento aleatório, para cá e para lá, de tal modo que se distribuem uniformemente no volume que ocupam. Essa distribuição uniforme é garantida pela quantidade gigantesca de moléculas que constituem os gases. Todavia, nada impede – nem mesmo a 2ª lei da termodinâmica – que num dado momento todas as moléculas resolvam ir para o mesmo lado, deixando um vácuo atrás de si. Simplesmente foi isso que aconteceu naquele fatídico dia: as moléculas da atmosfera em torno das localidades afetadas convergiram teimosamente para uma mesma direção abrindo um vácuo atrás de si, fazendo com que as pessoas que ali estavam morressem (ou avistassem discos voadores).

A explicação era simples, mas extremamente implausível – veja a probabilidade novamente – e nem todos os cientistas acreditaram na história, muito menos os leigos em dinâmica dos gases, que sequer a entenderam. Entretanto, alguns cientistas mais otimistas viram no fenômeno uma cabal demonstração da teoria dos multiversos (Ih, novamente esse papo furado!?). Como assim? Simples, se há de fato um número muito grande ou infinito de universos, em um deles as moléculas da atmosfera podem ter tomado um caminho improvável e isso aconteceu justo no nosso universo. Esta era uma corrente. A outra era a dos teólogos e fiéis que acreditavam que aquilo tinha sido um milagre de Deus, uma demonstração de seu poder aos infiéis, como a dizer que Ele pode mudar as leis da natureza quando Lhe aprouver. Já não tinha sido assim com a história do Dilúvio? Diziam, também, cada um a seu modo: “Seu maior milagre, sem dúvida, foi ter dado vida à matéria inanimada, mas aquele que foi contemplado com isso, ao invés de mostrar gratidão, mantém-se cego à verdade, iludido com uma ciência que não consegue explicar as coisas mais fundamentais. Agora, quero ver como explicam esse novo dilúvio (de vácuo)!”

Entre uma corrente e outra havia uma exatamente no centro, a daqueles que não estavam nem um pouco felizes com as explicações. Ou não acreditavam na primeira e não tinham opinião sobre a segunda, ou vice-versa. Não é preciso dizer que também não concordavam entre si. Em comum entre os indivíduos dessa corrente estava o fato de que não tinham a menor ideia do que tinha acontecido.

Indiferente a tudo isso, a verdadeira vilã da história poderia ter dito, caso ela pudesse falar: – Oops! Desculpem-me pelos transtornos. Tive um pequeno soluço, que vocês, cientistas, chamam de flutuação do campo. Isso acontece muito comigo, mas, felizmente, sempre, ou quase sempre, em regiões inabitadas do universo. Mais uma vez peço desculpas por esse meu desastrado comportamento, em nome de toda a energia escura – não é este o nome que vocês me deram? – e espero que vocês venham a me compreender melhor num futuro próximo para não mais pensar em bobagens.

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