A vida por um fio

Recentemente presenciei um diálogo entre um pessimista e um otimista, sobre a viabilidade da vida no universo, que transcrevo a seguir para que o leitor possa tomar partido a respeito do assunto. O diálogo foi mais ou menos assim:

Pessimista: – A vida é uma chama de vela no meio de uma ventania; pode se apagar a qualquer instante. Não me refiro à vida de um indivíduo, pois esta é ainda mais frágil. Falo da vida em um sentido amplo, aquilo que diferencia um ser vivo da matéria inanimada. Tudo indica que ela é muito rara no universo e habita um mundo que parece ser muito hostil à sua presença. Pensando bem no que acontece em nosso planeta, parece que não estamos bem integrados ao ambiente que nos cerca. Nós e os demais seres vivos. Com a nossa capacidade criativa, fizemos muitas transformações no planeta para o nosso benefício, mas ficamos sempre com a impressão de que o saldo final é desfavorável à nossa existência.

Otimista: – Que nada! A vida é um processo resiliente, como as velas de aniversários de crianças cuja chama se apaga com um sopro, mas volta a se acender em seguida. Ela é um processo sólido e duradouro, tanto que existe há mais de 3 bilhões de anos em nosso planeta, se considerados os seres mais primitivos, e sobreviveu a catástrofes de todos os tipos. A história registra a ocorrência de 5 grandes extinções em massa de espécies de seres vivos, e nem por isso a vida desapareceu.

Pessimista: – Mas foi por pouco! Agora dizem que estamos diante da sexta extinção e que pode ser definitiva. Mas não importa. O nosso planeta, apesar de hospitaleiro, vai se tornar inabitável um dia e o espaço interplanetário é uma barreira intransponível para a disseminação da vida. Mesmo que exista vida em outros planetas, ela está restrita localmente e vai se extinguir em algum momento.

Otimista: – A vida é um processo bem representado pelo musgo e pela erva daninha que têm a tendência de se espalhar desde que encontrem as condições mínimas para isso. O universo está predestinado a ser infestado por ela em todos os cantos. O espaço interplanetário não será um obstáculo, assim como os mares não impediram as espécies de se deslocarem entre os continentes, a bordo de folhas, troncos e, sabe-se lá por que outros meios. Da mesma maneira, os meteoritos e outros corpos celestes podem ajudar na disseminação da vida pelo cosmo, sem falar de sondas espaciais. Há até quem diga que a vida na Terra veio do espaço!

Pessimista: – Não acho nada disso provável e, além do mais, ninguém gostaria de um universo infestado de musgo e erva daninha. Agora, quanto à vida consciente, é certo que o destino não será generoso. Ela parece ter surgido na Terra por uma casualidade extrema, como se tivesse sido produzida pelo “gerador de improbabilidade infinita”, do escritor Douglas Adams, no livro sobre o mochileiro das galáxias. Ela não vai aparecer outra vez depois de extinta.

Otimista: – O tempo resolve qualquer problema. Deixe a evolução trabalhar e ela vai produzir coisas fantásticas com seus devaneios aleatórios. Nem sabemos se somos a espécie mais sofisticada! Podem aparecer seres muito mais complexos do que nós no futuro. É só deixar o tempo passar. Se não for aqui em nosso planeta, será em outro, em algum lugar.

Pessimista: – A evolução não tem um tempo infinito à sua disposição. O universo está destinado a se expandir indefinidamente, tornando o espaço tão rarefeito que não haverá condições de manter a vida, ou, então, deverá se contrair até ser implodido pelo Big Crunch, destruindo tudo o que existe nele. A questão não é se a vida vai desaparecer, mas quando isso vai acontecer.

Otimista: – Você fala do nosso universo como se ele fosse o único, mas não é. Universos morrem e nascem a todo instante, num processo que persiste indefinidamente. A probabilidade de que a vida exista em algum deles, em qualquer momento, é 100%. A evolução tem, portanto, todo o tempo à sua disposição para produzir seres como nós, ou até melhores.

Pessimista: – Já ouvi falar dessa história de multiversos e acho que é só conversa para boi dormir. De qualquer modo, se a evolução tiver tempo de recriar vida complexa, como você fala, espero que crie seres melhores do que nós, senão não terá valido a pena esperar tanto tempo.

Otimista: – Um pouco mais otimistas já será suficiente.

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Nota: Para quem queira se aprofundar neste assunto, o artigo que pode ser lido aqui utiliza linguagem mais científica para mostrar que a probabilidade de que não exista ou tenha existido, no universo, nenhuma outra civilização tecnológica como a nossa é de 1 em 10 bilhões de trilhões (10-22). Essa probabilidade é tão pequena que é quase certo que já houve ou ainda existe alienígenas como nós no universo.

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2 comentários sobre “A vida por um fio

  1. Caro Caco, seus artigos são extremamente interessante. Ficamos muitas vezes em uma encruzilhada. Vamos vivendo, fazendo o bem e semeando bondades é o que nos resta. Abraços,Marcos Alves – RN.

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