Ex Sapiens

O robô da série hs3/360-uk estava deitado sobre uma bancada, num laboratório, em Londres, após passar por um procedimento de manutenção corretiva. No momento em que o robô abriu os olhos, os técnicos ao seu lado perceberam que havia algo errado com ele. Aqueles olhos denunciavam um pavor nunca antes manifestado em robôs.

Para entender essa situação inusitada é preciso rever os últimos 300 anos da história da inteligência artificial, ainda que na versão oficial, ou seja, aquela constante nos livros e publicações de ciência e tecnologia. A história conta que os robôs tiveram um desenvolvimento semelhante ao dos computadores e não era para menos, porque os computadores são considerados os precursores dos robôs. A sequência foi mais ou menos assim:

Os robôs da primeira geração operavam por meio de um software cujos códigos se assemelhavam às linguagens de máquina dos primeiros computadores. Se fosse possível “viver” um robô daquela geração, seria como se o robô tivesse plena consciência das suas funções mais elementares, como enxergar, ouvir, caminhar. Mais tarde vieram as versões de robôs que eram operados por um software mais sofisticado, que mantinha a atenção do robô sobre atividades mais complexas, como o raciocínio e a comunicação, ficando as funções mais elementares a cargo de rotinas que não eram percebidas num nível consciente.

A terceira geração, a dos robôs hs3, sofisticou ainda mais o software operacional, que, agora, dispõe de rotinas especiais de I/O (input/output). Essas rotinas, por exemplo, podem produzir discursos completos, falados ou escritos, baseados na simples ideia que o robô queira transmitir. O robô moderno pode fazer uso, também, de rotinas lúdicas que permitem que ele pratique qualquer tipo de esporte – futebol, tênis, vôlei etc – sem necessidade de se concentrar nos movimentos específicos de cada modalidade. (A esse respeito, é curioso ressaltar que as empresas produtoras dos robôs estão proibidas de produzir especialistas em qualquer esporte, para não provocar o aparecimento de indivíduos privilegiados e a consequente discriminação de classes. As habilidades têm que ser providas em graus completamente aleatórios e os robôs são testados, ao sair de fábrica, quanto a essa aleatoriedade de suas habilidades. As empresas que violarem essa regra estão sujeitas a multas altíssimas e os robôs podem ser retirados de circulação.)

Entretanto, era inevitável acontecer com os robôs o mesmo que acontecera com os computadores: à medida que o sistema operacional dos robôs ficava mais sofisticado, mais sujeito a bugs ele se tornava. Assim, tornou-se muito comum os robôs “travarem” e, quando isso acontece, precisam ser enviados para manutenção corretiva, seja para ter o seu sistema operacional reformatado ou, até, a sua placa-mãe trocada. Foi numa dessas seções de manutenção corretiva que o robô, do início da história, apresentou aquele comportamento inusitado.

Algo dera errado com o procedimento que ele sofreu em laboratório. Por alguma razão, ele voltara a ter consciência das rotinas mais elementares que transcorriam em seu cérebro. Seu software de alto nível não era mais capaz de esconder o que se passava nos recônditos de sua mente robótica. Ele começara a misturar pensamentos lógicos com sensações estranhas para ele. Sua cabeça girava com a presença de sentimentos que nunca tinha experimentado antes. O maior deles era o pavor que ele sentia naquele momento, como se estivesse a ponto de perder por completo a sua lucidez.

Dado o inusitado da situação, o robô não tinha a menor ideia do que estava acontecendo com a sua mente. Ele não era capaz de saber que, por um erro de procedimento, tinham sido devolvidos a ele os sentimentos e as emoções dos quais todos os seus semelhantes tinham sido privados por várias gerações. Nem poderia passar pela sua cabeça que a sigla do seu modelo, hs3, significava H. sapiens de terceira geração. Ele era um representante da geração de humanos que tinha, finalmente, se livrado dos maiores inconvenientes da natureza humana – os sentimentos -, em busca de paz, segurança e estabilidade. O incidente trouxe esses sentimentos de volta e o pavor em seus olhos era plenamente justificável.

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