E se a maçã não se chamasse maçã?

“Umm … alimento … fome … avançar!”

“Umm … uma maçã madura e apetitosa, em minha frente … posso pegá-la e comê-la … mas devo?”

Estas duas frases tentam simular os pensamentos que podem ter ocorrido, respectivamente, para um animal irracional e para um humano, quando defrontados, inesperadamente, com uma maçã. As diferenças entre eles podem ter sido minimizadas ou exageradas, mas são verossímeis. É o que nós, humanos, achamos que poderia estar passando pela cabeça de um animal e de um sapiens. As diferenças são marcantes: no pensamento humano consta o nome do objeto, a sua condição de frescor, a sua posição relativa, e um juízo sobre a ação a ser desencadeada; no do animal, a simples percepção de algo comestível e a reação a um estímulo físico.

Se as frases acima representam, de fato, pensamentos, elas deixam clara a influência da linguagem no pensamento humano, aliás, um fato que não é negado por linguistas e psicólogos. O que não tem unanimidade, contudo, é se a linguagem determina o pensamento a ponto de limitá-lo ou expandi-lo de acordo com a quantidade de conceitos que ela coloca à disposição do indivíduo. Uma linguagem engloba conceitos de várias naturezas, desde os mais simples, como atribuir um nome a um objeto – a maçã, do exemplo acima – aos mais sofisticados, que denotam posição relativa dos objetos – direita, esquerda, acima, abaixo -, contagem – um, dois, três –, juízo de valores – certo, errado. Daí vem a questão: povos que têm uma linguagem mais rica, em vocabulário e conceitos, têm maior capacidade de pensar nas questões corriqueiras, i.e, maior capacidade cognitiva? A sua resposta divide os cientistas; uns acham que sim e outros acham que não.

Os que acham que sim são os adeptos do chamado “determinismo linguístico”, segundo o qual, a língua que as pessoas falam controla o modo como pensam. Evidentemente eles não vão ao extremo de achar que um indivíduo não conseguiria pensar numa maçã se na sua linguagem não houvesse um nome para a maçã. (Nas feiras, frequentemente vemos frutas que não conhecemos e conseguimos pensar nelas em casa sem saber o seu nome.) Mas conjecturam, por exemplo, que povos que têm conceitos linguísticos diferentes para designar posições relativas têm capacidades diferentes de pensar nas situações que envolvem problemas espaciais. E aqueles que usam sistemas numéricos muito simples – por exemplo, alguns povos indígenas que só têm palavras para os números um e dois e as demais quantidades são englobadas pela palavra muitos – não conseguem pensar em situações que envolvem problemas simples de contagem. A alegação, nesses casos, é a de que a linguagem teria provocado essas supostas limitações cognitivas.

O livro “Do que é feito o pensamento”, do psicólogo Steven Pinker, trata desta questão onde o autor expõe a sua opinião contrária ao determinismo linguístico. Segundo ele, a linguagem influencia o pensamento, mas não o determina. Ainda segundo ele, para provar o determinismo linguístico, os seus adeptos teriam que mostrar três coisas: 1) que os falantes de uma língua acham impossível, ou extremamente difícil, pensar de um modo específico que fosse natural aos falantes de outra língua (em vez de simplesmente estarem menos habituados a pensar daquela forma); 2) que a diferença no pensamento envolve o raciocínio genuíno; e 3) que a diferença no pensamento é causada pela linguagem, em vez de se originar de outros motivos ou simplesmente se refletir na língua, ou ainda, em vez de tanto o padrão da língua quanto do pensamento serem um efeito da cultura ou do ambiente ao seu redor.

O assunto é complexo e parece que as alternativas para o papel da linguagem são:

  1. A linguagem controla o pensamento (determinismo linguístico).
  2. A linguagem se desenvolveu paralelamente com a nossa capacidade cognitiva, uma influenciando a outra.
  3. A linguagem é meramente um reflexo da nossa capacidade cognitiva.
  4. Nenhuma das anteriores.

O que você acha?

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5 comentários sobre “E se a maçã não se chamasse maçã?

  1. BCD,

    4. nra. Imaho, a linguagem tem uma influência preponderante no pensamento, mas não acho que domina o pensamento.

    Suassure estudou muito isso, mas as teorias de Jacques Lacan é que são fantásticas. Para Lacan a linguagem (significante) toma muitas vezes o lugar do objeto representado (significado). Mas trata-se apenas de uma teoria, ou seja, masturbação mental…

    O abraço,

    Ary

  2. Caro Caco
    Você acredita em transmissão de pensamento? Tanto os americanos quanto os russos andaram fazeendo experiências para o caso de um astronauta ficar completamente sem comunicação com sua base na terra. Eu acredito que ela exista.
    Neese caso a linguagem não teria a menor influência. Não faria diferença mesmo se os dialogantes falassem idiomas distintos.
    Pense nisso.
    Abraços
    Reinaldo

    • Caro Reinaldo,
      Não acredito em transmissão de pensamento, por isso, a questão da linguagem, para mim, ainda fica aberta. Estou curioso para saber dos resultados das experiências de russos e americanos. Bem vindo ao Blog do Caco. Abs. Caco

  3. Dias, é difícil responder a sua pergunta. Não esqueçamos a história do “João Sortudo”: o importante é ter pensamento positivo, qualquer que seja a linguagem!
    Abraços
    Aristides

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