Tudo começou com a tabuada

Num futuro bem distante, a teoria do Universo Matemático, do físico Max Tegmark, proposta no início do século XXI, há tempos já era aceita pela comunidade científica e ensinada nas escolas como matéria corriqueira nas aulas de ciências. Foi com base nessa teoria que os cientistas do futuro descobriram a origem do Big Bang que criou o nosso universo. A história pode ser resumida assim:

“Antes do Big Bang existiam quatro mundos primordiais que, mais tarde, foram chamados de “Otimista”, “Pessimista”, “Destemido” e “Generoso”. Esses mundos eram regidos por estruturas matemáticas simples, que definiam os seus habitantes e suas relações. Todos os quatro mundos começaram com os mesmos números naturais 0, 1, 2, 3, …, mas eles se distinguiam pela relação que existia entre esses números. No mundo Otimista, a relação entre os números era a de soma ou adição; no Pessimista, a de subtração; no Destemido, a de multiplicação; e no Generoso, a de divisão.

“Embora todos os quatro mundos tenham começado com os números naturais, dois deles evoluíram para outros números, por força da relação que vigorava entre seus elementos. O mundo Pessimista logo se expandiu para incluir os números negativos que inevitavelmente surgiram da subtração de um número, de outro de menor valor. No mundo Generoso sugiram os números racionais por causa da divisão fracionária entre dois números naturais.

“Em função dessas características fundamentais e específicas de cada mundo, os seus habitantes eram muito diferentes. As denominações dadas a esses mundos, no futuro, refletem essas diferenças. No mundo Otimista, a operação de soma só trazia contribuição na relação entre dois números e, como consequência disto, os seus habitantes eram confiantes no futuro e o mundo Otimista, como um todo, era muito estável. No mundo Pessimista, a relação de subtração entre os números criou indivíduos muito cautelosos e desesperançados com o futuro. O mundo Destemido, por sua vez, regido pela operação de multiplicação, vivia um processo de expansão acelerada, alavancado pela vocação empreendedora, de multiplicar tudo, de seus habitantes. O mundo Generoso era o mais complexo. A operação de dividir incutiu no povo o propósito da busca da igualdade, mas os resultados da divisão nem sempre iam na direção certa – ora aumentavam, ora diminuíam -, sem falar na singularidade tão temida da divisão por zero. Com essas características, esse mundo não era estável e não duraria por muito tempo.

“Os quatro mundos não tinham comunicação entre si, mas os cientistas em cada um deles sabiam da existência dos demais. Sabiam porque havia evidências disso, colhidas por meio de experimentos em laboratório. Em laboratório, em qualquer dos mundos, era possível detectar partículas originárias de outro mundo, criadas por flutuações quânticas, mas que, por não ser estáveis, duravam apenas frações de segundos no mundo estranho a elas. A pesquisa de ponta, em todos os quatro mundos, era criar um processo que produzisse partículas estáveis vindas de outro mundo. Entretanto, o gargalo dessas pesquisas era a quantidade enorme de energia necessária para viabilizar tal processo.

“Apesar da baixa probabilidade de criar as tais partículas estáveis, num dia memorável um experimento acabou tendo sucesso. Os cientistas do futuro acham que houve uma conjunção improvável de esforços simultâneos nos quatro mundos que produziu a quantidade de energia necessária para criar as tais partículas estáveis. Não apenas isso; o experimento resultou, inesperadamente, na fusão dos quatro mundos em um só – fenômeno que hoje conhecemos por Big Bang.

“Nosso mundo é hoje constituído de todos os números e das quatro operações de soma, subtração, multiplicação e divisão. Seus habitantes têm características que misturam otimismo, pessimismo, destemor e generosidade, em variados graus. Destaque-se que há uma corrente popular que acredita que a subtração e os números negativos decorrentes dela ficaram como representantes do mal no seio da nossa sociedade. Os cientistas não falam em “mal” porque isso foge da jurisdição da ciência, mas eles estão convencidos de que esse “mal” foi fundamental para dar estabilidade às partículas e sem ele o nosso mundo não existiria.”

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