Sem assunto

Li as notícias recentes nas revistas e jornais e isso me deixou abatido, como sempre. Só falam de catástrofes, violência, corrupção, e, agora, até de gente morrendo de frio em São Paulo. Dá uma vontade louca de virar as costas para tudo isso e viver num outro mundo em que essas notícias não possam chegar. Mas logo vem a constatação: o fato de as notícias não chegarem não quer dizer que as tragédias pararam de acontecer. “É preciso fazer alguma coisa; fingir que nada está acontecendo não é digno de um ser humano”, diz a minha consciência. E o abatimento aumenta.

Imagino que essa situação ocorra para a grande maioria das pessoas, que passa a maior parte do tempo fazendo o seu trabalho rotineiro, mas com um leve sentimento de culpa no fundo da sua consciência. Não se pode culpar uma pessoa, que vive honestamente e faz um esforço tremendo para dar conforto à sua família, pelas coisas erradas que acontecem na sociedade. E nem esperar que ela tenha aquele leve sentimento de culpa. Afinal, ela está cumprindo o seu papel e cuidar das mazelas da sociedade deve ser de responsabilidade das pessoas indicadas ou capacitadas para isso.

Mas essa conclusão não é satisfatória para muitos, e a dor de consciência permanece a incomodá-los. Pensando bem, acho que não há nada de errado com isso, i.e., viver uma vida normal sem ser um herói que combate tudo o que está errado, e, ao mesmo tempo, conviver com o sentimento de que poderia fazer melhor. Esse sentimento de que se poderia fazer melhor é o que tem valor; não senti-lo seria inaceitável. Penso nesse sentimento – ou dor de consciência – como uma força interna que pode se manifestar a qualquer momento na forma de ideias ou ações úteis para a sociedade. Visto por outro ângulo, ele pode ser colocado no mesmo nível de outros sentimentos, como o medo e o estresse, que têm o objetivo de nos manter atentos a tudo o que nos cerca. Assim também ocorre com essa nossa frustração por não agir contra o que está errado à nossa volta. Ela nos deixa atentos para agir quando a oportunidade, ou a coragem, aparecer.

Em suma, podemos ou não ser capazes de executar ações nobres em benefício da sociedade, mas isso não é o mais importante. O que vale mesmo é estar equipado com esse mecanismo da consciência e disposto a agir em algum momento. Quanto maior for o número de pessoas atentas a isso, maior será a probabilidade de que algumas delas tomem o impulso de executar as ações de que a sociedade precisa. Enquanto isso, para as outras, segue a vida.

Ao mesmo tempo em que escrevo isso, penso que o que escrevi acima pode ter o efeito contrário. Alguém mais desavisado pode pensar: “Já que é suficiente apenas pensar nos problemas e a falta de ação não é um pecado, não preciso mais me preocupar com isso.” Quase me arrependendo de publicar isto, prometo a mim mesmo que, da próxima vez, quando eu não tiver assunto para escrever, ficarei calado.

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2 comentários sobre “Sem assunto

  1. Grande Dias

    Essas “tragédias” não me atingem muito, a não ser quando envolvem crianças. Penso que se eu fizer algo do tamanho de um micro grão de areia para a melhoria do mundo já estarei fazendo a minha parte. Isso obviamente somado a viver honestamente, dar bons exemplos, ser amigo das pessoas mais necessitadas etc etc.
    Como sou espirita acredito que tudo ou quase tudo tem uma razão de ser. Como eu acredito que sou mais burro do que a mais burra das amebas não tento muito entender o universo e com isso vou tocando a vida sem muito “peso na consciência”.

    Um grande abraço
    Cinquini

  2. Olá Caco!
    A mim também acometiam tais preocupações, com culpa. Agora, não mais!
    Algo interessante que tomei conhecimento há alguns tempo e, com certeza, você já o conhece.

    AUDIOLIVRO: O CAIBALION – HERMES TRISMEGISTO

    Abraços,
    Sandra

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