Meu Big Bang

Meu universo era muito pequeno. Ele era do tamanho de Santo Antônio de Posse, no interior do estado de São Paulo. Com alguma boa vontade, ele poderia incluir, também, as cidades vizinhas de Moji-Mirim e Amparo. Já, a cidade de São Paulo definitivamente estava fora do meu alcance. Mas eu desconfiava que ela era habitada, porque meus pais diziam que tínhamos parentes morando lá. Pasmem, eu tinha parentes alienígenas!

Tudo começou a mudar em fevereiro de 1967, quando eu tive que deixar a Posse (nome simplificado da cidade onde eu nasci) para cursar o ITA, em São José dos Campos, SP. A partir de então meu universo começou a se expandir, como o universo real se expandiu nos seus primórdios, por força de um fenômeno cósmico chamado de inflação. Como o universo no seu início, que dobrava de volume a cada fração de segundo, o meu também aumentava sem controle. Tudo era novo e o meu pequeno mundo assimilava as novidades como podia. E crescia.

As mudanças vinham de forma desenfreada e algumas sequer podiam ser absorvidas porque se afastavam com velocidade maior do que a da luz, movidas pela expansão galopante do meu universo. Algumas mais próximas podiam ser agarradas, tornando o meu mundo observável muito maior. Constatei, por exemplo, que existiam outras músicas além das de Roberto Carlos; que os estudantes podiam utilizar outros meios de transporte além da bicicleta; que rouba-montes tinha sido substituído por jogos de cartas mais sofisticados, como pif-paf e bridge; que os “catecismos” deram lugar às revistas dinamarquesas, que as réguas de cálculo dispensavam o lápis para fazer contas.

O número de amigos cresceu de forma proporcional à velocidade dessas transformações. Eram amigos diferentes daqueles do meu pequeno mundo, mas que se tornaram igualmente importantes com o passar do tempo. Eles falavam uma língua diferente e contavam histórias estranhas de cidades longínquas que, para mim, se situavam em outras galáxias. Eram muito cultos, o que me fazia lembrar sempre do meu isolamento na terra natal. Com eles aprendi que os livros podem ser tão divertidos quanto as histórias em quadrinho, com a vantagem de expandir os nossos horizontes, na medida em que incorporam ao nosso mundo o mundo percebido pelos escritores. Muitos dos livros que me indicaram não entendi muito bem, mas todos eles contribuíram para despertar em mim o gosto pela leitura. Os cientistas ainda não compreendem bem o fenômeno que impulsionou o Big Bang do universo, mas eu não tenho dúvidas sobre o que desencadeou o meu: as amizades.

Foram cinco anos de expansão a todo vapor que, inevitavelmente, deixariam marcas profundas na minha vida. E deixaram. Depois disso, o meu universo continuou a se expandir, mas não tão rápido quanto antes. Como o universo, que viveu tempos de transformação intensa até criar as suas galáxias e depois entrou em uma fase mais calma, meu universo também se desacelerou depois daqueles cinco anos de rápida expansão. Todavia, as imagens gravadas daquele período não se apagam mais da minha memória. Ao contrário, elas se renovam, porque continuam chegando, como a radiação de fundo da época do Big Bang continua inundando os telescópios dos cientistas.

Em dezembro próximo, o grupo de amigos que nasceu dessa fase de expansão acelerada vai se reunir novamente, de posse de seus equipamentos, para rastrear essa radiação de fundo e se deliciar com as histórias contadas por ela, algumas já tão distorcidas que não se diferenciam da pura ficção. O grupo também se lembrará, com certeza, dos amigos que, não sei por que razão, foram levados a habitar um universo paralelo, deixando saudades aos que ficaram.

Mal posso esperar por esse novo encontro cosmológico.

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7 comentários sobre “Meu Big Bang

  1. Ary… Gostei. Valeu a leitura. Obrigado.Manfrin

    Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy. ——– Mensagem original ——–De: Ary Handler Data: 02/06/2016 11:42 (GMT-03:00) Para: Blog do Caco , nova71 Assunto: [Nova71] Re: [Novo post] Meu Big Bang BCD, Obrigado pelo apoio institucional. GSM R.

  2. BCD
    Excelente comparação. Eu vivi duas vezes esta sensação. A primeira numa faixa etária mais jovem, ao ingressar na Força Aérea com apenas 15 anos. A segunda, ao ingressar no ITA com 26 anos e recém casado. As experiências se somaram e as amizades se expandiram com visões diferentes mas em perfeita harmonia. Revi todos o processo ao ler suas ilações. Obrigado por me fazer voltar ao passado.

  3. Caro Oscar: Um dos seus amigos daquele primeiro pequeno mundo vai tomar mais um gole daquele delicioso e envelhecido néctar que você proporcionou meio que a contra-gosto. Saúde!

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