De olho no passado

Desde que foi descoberto que a luz não se manifesta instantaneamente, mas tem uma velocidade limitada (300.000 km/s), sabe-se que, quando olhamos para objetos muito longínquos, estamos, na realidade, vendo uma imagem do passado. Isto porque a luz emitida pelo objeto demora algum tempo para chegar aos nossos olhos e, portanto, a imagem que vemos é de instantes atrás. Por exemplo, a luz do Sol demora 8 minutos para chegar à Terra, portanto a imagem que vemos do Sol é como ele se parecia há 8 minutos atrás.

A Astronomia utiliza equipamentos potentes que conseguem captar imagens de corpos celestes muito afastados de nós. Essas imagens captadas pelos telescópios são, portanto, imagens do passado. Quanto mais afastados de nós estão esses objetos, mais distantes no tempo estão as suas imagens. O cosmólogo Max Tegmark, em uma palestra que pode ser vista aqui, apresentou a figura abaixo que ilustra como enxergamos a história do nosso universo ao olhar através desses possantes equipamentos.

 

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Próximas ao olho estão as galáxias com idades semelhantes à da nossa galáxia; mais afastadas estão as galáxias ainda em formação; mais adiante está uma região escura de quando as galáxias ainda não existiam e depois, imagens da sopa de partículas, retrocedendo até o momento do Big Bang, há 13,8 bilhões de anos. Quanto mais longe olhamos mais regredimos no tempo.

A imagem mais distante (ou de uma data mais antiga) que se tem é aquela da chamada “Cosmic Microwave Background Radiation – CMBR”, mostrada na figura abaixo, que retrata o universo quando ele era uma “bola de plasma”, cerca de 400 mil anos depois do Big Bang. (Embora a figura possa induzir o leitor a achar que esteja vendo uma esfera no céu, – como se estivesse vendo o universo de fora dele -, na verdade, ela representa uma imagem de todo o firmamento, vista do interior da “bola”, como se o observador estivesse olhando para a abóboda celeste na infância do nosso universo.)

 

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É impressionante constatar que podemos “ver”, agora, o céu que os nossos antepassados-partículasviam” sobre as suas “cabeças” há 13,8 bilhões de anos. Isso se deve ao fato de a luz emitida pelo ‘universo de plasma’ ter chegado até nós somente agora, na forma de micro-ondas, depois de ter percorrido um imenso caminho causado pela expansão do universo desde a sua criação. (É irônico constatar que podemos enxergar tão longe no passado e não conseguimos visualizar um segundo sequer atrás do nosso cotidiano.)

A velocidade limitada da luz faz com que enxerguemos o universo como se estivéssemos dentro de um bolo de várias camadas, sendo as camadas mais externas ou longínquas, as mais antigas. Esta é a forma de “ver” o passado. Por outro lado, se a luz se propagasse instantaneamente, a primeira figura, mostrada acima, seria muito diferente. Nela teríamos um “instantâneo” do universo presente, inteiramente povoado por galáxias e outras estruturas celestes como as que estão próximas de nós, sem muita variação da paisagem de um local para outro. Mas a luz não se comporta assim e o “universo presente” nunca será registrado de uma forma direta, mesmo pelo telescópio mais potente que se possa construir, ainda que a ele seja acoplada uma câmera 360o do iPhone versão 2000S.

A natureza peculiar da luz é responsável, portanto, pelo registro de imagens do passado do universo e pela impossibilidade de registrar o seu presente, além de ter a propriedade exótica de tornar o tempo relativo, de acordo com Einstein. Ao se refletir sobre isso tudo, é inevitável concluir que a natureza da luz parece estar envolvida fortemente com a natureza do tempo. A pergunta de um milhão de dólares é: Será que o fóton – a partícula elementar da luz – guarda o segredo do tempo, essa coisa tão misteriosa quanto fugaz?

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