Uma história muito louca

O Louco – assim ele era chamado – não estava contente com a sua vida neste planeta. Ele não se sentia um integrante da comunidade terrestre e queria sair daqui de qualquer maneira. Com seu headphone, ouvia sem parar a sua música favorita “The fool on the hill”, dos Beatles, e nem conseguia ouvir o que os outros lhe diziam, nas raras vezes que se dirigiam a ele. De fato, como o personagem da música, ele não queria ouvir o que os outros tinham a lhe dizer. O Louco queria ir embora deste planeta que, ele sabia, não era a sua casa.

Num certo dia, o Louco encontrou a solução para o seu problema. Uma folha de jornal velho, que ele usava como cobertor, mostrava o anúncio de venda de um terreno na Lua, com o telefone do proprietário. O negócio foi rápido e, em poucos dias, ele já estava de posse da escritura e de um mapa da Lua onde o local do seu terreno estava bem assinalado. Ele pegou a sua trouxa e partiu logo deste planeta nem um pouco amistoso.

Não foi difícil achar o local da sua nova moradia com o auxílio do mapa. Ele ficou feliz ao constatar que não tinha vizinhos e não pôde deixar de pensar que o negócio imobiliário na Lua não andava muito bem. Ótimo para ele que queria distância dos terráqueos e, a partir de então, começaria uma nova fase em sua vida.

Longos dias de sol abrasador e longas noites de frio intenso, sozinho com os seus pensamentos, era tudo que o Louco precisava nessa sua nova vida em um ambiente feito para ele. Paradoxalmente, naquele ambiente hostil, os infortúnios do corpo eram uma válvula de escape para a sua mente complicada. O isolamento também ajudava nessa tarefa, sem contar que ele tinha um bônus adicional: do seu privilegiado ponto de vista ele podia ver a Terra a girar, como o personagem da música dos Beatles. Afinal, o Louco encontrara um refúgio adequado na Lua.

Mas tinha um porém: de tempos em tempos ele tinha que retornar à Terra para tomar a sua medicação. Foram muitas idas e vindas, apenas para tomar os medicamentos. A proximidade dessa viagem era sempre motivo de ansiedade para ele e quando ele voltava da Terra se sentia em casa novamente. Em nenhuma das viagens ele tivera o problema do qual lhe alertaram tanto: a viagem não é totalmente segura e um pequeno erro na trajetória pode levá-lo a sair da órbita correta e perder-se no espaço. Ele nunca dera atenção a esses comentários, assim como a nenhum outro comentário de terceiros.

Mas as viagens tinham que ser feitas com uma frequência cada vez maior e os riscos de se perder no espaço aumentavam, até que um dia aconteceu o inevitável. O pequeno erro na trajetória foi fatal. O Louco nem chegou à Terra e nem voltou para a Lua. Em vez disso, ficou vagando pelo espaço escuro, vazio e infinito, sem qualquer possibilidade de voltar para casa.

Apesar de triste, não era o caso de se lamentar o destino do Louco. Nem ele próprio lastimaria, se pudesse. Ele tinha uma lógica, muito sensata para um louco, que o fazia considerar o risco da viagem como um efeito colateral da sua medicação. “Todo remédio tem um efeito colateral que pode ser danoso para o paciente; o efeito colateral do meu é levar-me a perder-se no espaço. Posso conviver com isso”, pensava ele. Ademais, ele já estava cansado das idas e vindas provocadas pelos medicamentos e uma viagem sem retorno, ainda que para o vazio do espaço, seria até bem-vinda. Afinal, ele não iria sentir nenhuma falta da Terra, e da Lua, só um pouco.

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