Darwin e os robôs

No artigo que escrevi sobre os filtros da percepção, deixei a pergunta se faz sentido aplicar às máquinas (inteligentes) as mesmas conclusões que se aplicam às espécies biológicas, no processo da seleção natural. Esta pergunta pode fazer Darwin revirar no túmulo se não for entendida com adaptações (Um termo que ele gostava muito de usar!). Um especialista poderia dizer, de cara, que são situações diferentes porque as máquinas não têm DNA, que é o elemento fundamental do processo da evolução das espécies pela seleção natural. Ainda assim, acredito que algumas semelhanças possam ser identificadas entre os processos de evolução de seres vivos e de máquinas.

Em primeiro lugar, os três principais vetores que levam ao processo da evolução das espécies pela seleção natural – a competição, as mutações genéticas e a sexualidade – têm paralelos no mundo das máquinas. As semelhanças podem ser assim descritas:

  1. A evolução das máquinas é fortemente dependente das condições ambientais: energia, matéria-prima, deterioração por exposição ao ambiente etc, que estabelecem a competição entre os diferentes tipos de máquinas.
  2. As novas tecnologias, que dão origem a novos tipos de máquinas, fazem o papel das mutações genéticas que dão origem a novas espécies biológicas.
  3. O estímulo sexual, que garante a reprodução dos seres vivos, tem seu paralelo, no mundo das máquinas, na utilidade que gera a demanda pelo uso das máquinas. Sem estímulo sexual não há procriação de novos seres vivos, e sem a utilidade, que gera a demanda, não há produção de novas máquinas. (É até possível falar em miscigenação de máquinas com humanos, não no sentido que o leitor possa estar pensando, mas por meio da incorporação em nosso organismo de partes eletro-mecânicas.)

Os seres humanos, criadores das máquinas, poderão ser considerados, também, os seus principais predadores, enquanto existirem. Os humanos controlarão a população das máquinas por meio da produção de novas unidades e do descarte dos modelos obsoletos. Nesse estágio, as máquinas viverão como parasitas dos humanos, exatamente como plantas e animais parasitas vivem em função de seus hospedeiros. Com a evolução – novas tecnologias que propiciarão o desenvolvimento de máquinas mais sofisticadas -, os humanos criarão máquinas gradativamente mais independentes, mas ainda restringirão a sua independência por meio de regras de não-agressão ao meio-ambiente e aos próprios humanos (a consciência coletiva, de que trata o texto anterior “Em prol da coletividade”, é um exemplo dessas regras). Se – ou quando – os humanos deixarem a cena, as máquinas poderão estar num estágio que permitirá a sua sobrevivência sem eles. Entretanto, ainda assim estarão sujeitas às condições ambientais que limitarão o seu livre desenvolvimento, não importa quão inteligentes essas máquinas sejam.

Por último, há que se considerar diferentes cenários para a relação dos humanos com as máquinas inteligentes. Um deles, o mais clássico, é descrito nas histórias de ficção científica, no qual os robôs serão máquinas puramente lógicas que acabarão por se rebelar contra os humanos. Um outro, mais romântico, é o mencionado no texto “Em prol da coletividade”, que antevê as máquinas como um aperfeiçoamento dos seres humanos e preparadas para substituí-los quando chegar a hora. Entretanto, é muito fácil errar quando se conjectura sobre o futuro da inteligência artificial, área em que – parafraseando Arthur Clarke – as tecnologias futuras poderão ser confundidas com mágica.

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