Em prol da coletividade

O título deste texto pode induzir o leitor a achar que vou escrever sobre as mazelas do povo brasileiro diante do egoísmo dos políticos que dirigem o país. Sinto muito desapontar aqueles que gostariam de ler sobre isso. Vou, sim, falar de ações que visam a beneficiar a coletividade, mas daquelas que partem de indivíduos e não de governos e – pasmem – que não terão frutos antes de decorridos centenas ou milhares de anos.

Quero iniciar a discussão com a afirmação de que uma espécie, para ser minimamente evoluída, tem que incorporar algo que falta aos indivíduos da nossa espécie: o sentido do coletivo. Apenas para enfatizar a nossa limitação como humanos, tomem os exemplos das formigas e das abelhas que, em matéria de atuar para a coletividade, são muito superiores ao H. sapiens. Já mencionei antes uma frase minha, feita sem a intenção de que fosse levada a sério, que diz o seguinte: “A inteligência artificial só será bem-sucedida quando deixar de imitar a inteligência humana”. Pois bem, agora, levando o assunto a sério, acho que a frase tem alguma coisa a dizer.

Mas por que falo de inteligência artificial? Porque é ideia corrente que os robôs farão parte de nossa sociedade no futuro e nos substituirão quando a nossa espécie for extinta, o que não parece ser um absurdo. Assim, os robôs constituem a oportunidade que temos de construir uma sociedade melhor do que a nossa e, para isso, devemos construí-los com os requisitos que faltam a nós humanos. O senso de coletividade é um desses requisitos que nos faltam e os especialistas em inteligência artificial deveriam pensar nisso desde já, enquanto desenvolvem os outros aspectos das futuras máquinas inteligentes.

Tudo é desafiador quando se trata de uma tecnologia tão sofisticada quanto a inteligência artificial e dotar as máquinas de uma consciência coletiva é mais um dos desafios. Os projetistas terão muito que aprender, seja tomando por base o que faz das formigas e abelhas espécies solidárias, seja investigando como se manifesta a nossa vocação para formar comunidades – uma forma apenas gradual de viver para o coletivo -, seja ampliando as aplicações de redes neurais, de indivíduos para coletividade, entre outras pesquisas que deverão ser feitas.

É importante ressaltar que as máquinas inteligentes terão uma grande vantagem sobre nós, que é a possibilidade de comunicação (sem fio) entre elas, de forma direta, de mente para mente. É o que se pode chamar de telepatia, algo com o que sempre sonhamos. Embora os robôs atuais ainda sejam precários, a telepatia entre eles poderá ser feita com a tecnologia corriqueira que já está disponível. Isso parece ser muito adequado para implementar o sentido de coletividade mencionado acima. Entretanto, será necessário fugir da solução clássica (dos filmes de ficção) que subordinam as máquinas a um cérebro central, o que levaria a criar a figura tão odiada, de autoria do escritor George Orwell, chamada de Grande Irmão (Big Brother). As máquinas deveriam ser ligadas coletivamente, mas ter capacidade de agir de forma independente, ou seja, ser dotadas de uma espécie de livre arbítrio. É mais um desafio a ser vencido.

A meu ver, um conceito fundamental para o sentido de coletividade é o da empatia – “a capacidade de sentir pelos outros” – que nós temos, mas não em um grau suficiente para nos tornar uma espécie solidária. Parece, então, que uma providência a ser tomada pelos técnicos da inteligência artificial é pensar em introduzir nas máquinas uma “empatia artificial”. Para isso é necessário, primeiro, que as máquinas aprendam a reconhecer nos outros indivíduos – seres vivos em geral – os sinais exteriores que caracterizam as suas emoções e sentimentos, como, por exemplo: a expressão no olhar, os tremores nos lábios e pálpebras, a palidez ou rubor na face, os movimentos involuntários dos membros, entre outros sinais exteriores. Essa capacidade de constatar que o indivíduo à sua frente tem alguma necessidade será, então, o fator motivador para uma ação no sentido de ajudá-lo a satisfazer àquela necessidade. A introdução dessa motivação na forma de agir das máquinas é o segundo passo na direção da consciência coletiva.

Sei que já existem tecnologias que permitem que robôs reconheçam alguns sinais faciais do seu interlocutor, o que já é um grande progresso na direção da empatia artificial. O objetivo final, entretanto, que é a introdução de uma consciência coletiva na população das máquinas, parece ser ainda um alvo muito distante. Para alcançá-lo, os criadores dos robôs terão que submeter as suas criaturas a um longo processo de evolução, semelhante ao que fez de nós os H. sapiens. Quem sabe, nessa árdua tarefa de ensinar aos robôs como ter senso do coletivo, os sapiens também possam evoluir junto com as suas criaturas.

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