Filtros da percepção

Quem gosta de observar o céu com a ajuda de equipamentos, como binóculos, lunetas ou telescópios, sabe que existem filtros especiais que podem ser colocados nas suas lentes para que se possa observar detalhes específicos dos astros. Os anéis de Saturno, as faixas coloridas de Júpiter, o azul intenso de Urano e até as manchas solares, sem contar os estranhos e magníficos corpos celestes mais afastados, podem ser vistos de forma diferente, com alguns de seus traços e cores enfatizados, omitidos ou alterados pelos filtros.

Assim também é com a nossa percepção do mundo, que é modificada pelos filtros internos que temos em nossas mentes. Há filtros de várias naturezas e cada indivíduo é dotado da maioria deles: filtro do otimismo, do pessimismo, do medo, da desesperança e muitos outros mais. Não são filtros coloridos como os das lentes dos telescópios, mas, ainda assim, conseguem modificar as cores da realidade que nos cerca, ora fazendo a luz do sol brilhar mais forte, ora obscurecendo-a como se o dia se tornasse noite. Esses filtros são colocados e retirados de nossas mentes quase sem nenhum controle de nossa parte e é esse aspecto que os diferencia dos filtros das lentes dos telescópios. Enquanto estes são colocados e retirados ao nosso bel prazer, os primeiros estão enraizados em nossas mentes e a substituição de um filtro por outro nem sempre pode ser feita de acordo com a nossa vontade. Mesmo quando não estamos suportando mais a visão seletiva que ele nos impõe.

Alguns desses filtros nem deveriam existir, como o do medo e o da desesperança. Mas, enfim, eles estão aqui porque tiveram algum papel em nossa evolução. Sobre o medo já falei em outro artigo intitulado “Viver é preciso, sentir medo não é preciso”, mas agora quero falar apenas genericamente sobre todos eles.

É incrível como a aparência do mundo se transforma sob a influência desses filtros – ou sentimentos – diversos. Se em alguns momentos tudo à nossa volta está em perfeita harmonia e exibe cores vivas, em outros, a cor predominante é o cinza e os detalhes brigam entre si, os mais sóbrios predominando sobre os demais, mesmo que o exterior não tenha sido mudado de uma situação para outra.

Todos lutam internamente para ter apenas os pensamentos que induzam as emoções mais agradáveis, mas o resultado dessa luta nem sempre é favorável. Às vezes, temos a impressão de que somos completamente incapazes de fazer qualquer coisa a respeito. No seu livro “As portas da percepção” – qualquer semelhança com o título deste artigo não é mera coincidência -, o escritor Aldous Huxley relata a experiência de estar sob o efeito de drogas. A droga é uma forma de impor filtros à nossa mente, mas com efeitos colaterais que podem ser devastadores. De uma forma natural e saudável, é difícil controlar os nossos estados de ânimo e não é de estranhar que, vez ou outra, surja a pergunta: não seria melhor que nenhuma dessas emoções existisse? Não poderíamos apenas enxergar o mundo como ele é, sem o viés de nossas emoções?

Não! Acho que ninguém preferiria levar a vida de um autômato se essa alternativa lhe fosse oferecida. Não digo isto por acreditar que as nossas emoções, tanto as boas como as ruins, tenham algum sentido especial em nossas vidas. É que simplesmente acredito que ninguém gostaria de ser esvaziado delas porque a nossa mente é geradora e, ao mesmo tempo, dependente das emoções. Elas fazem parte da natureza humana.

A propósito, há quem diga que um robô pode vir a ser a espécie que substituirá os humanos. Nem por isso essa nova espécie será melhor do que a nossa, pois a evolução das espécies é um processo que não visa a produzir a melhor espécie, mas, sim, a que melhor se adapta ao ambiente*. As nossas emoções estão aqui para ficar, até que as condições ambientais não mais as favoreçam. Enquanto isso, resta-nos a alternativa de persistir na luta mental de estimular as emoções mais agradáveis e afastar as mais sombrias, e um primeiro passo nesta direção é descartar de vez a ideia de que viveríamos melhor sem elas.

______________

* Tem sentido aplicar às máquinas as mesmas conclusões que se aplicam às espécies biológicas, no processo da seleção natural? Tenho um palpite que sim e vou escrever sobre isso em um artigo futuro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s