A revolução dos bichos

O líder aguardava a chegada de todos os representantes para iniciar a reunião da Comissão para a Mudança da Natureza. Já estava no local – uma clareira no meio do bosque, próximo à cidade – a maioria dos animais. Entre os atrasados estavam o bicho preguiça e a tartaruga, que já tinham recebido uma advertência quando se atrasaram na última reunião. O líder esperou por mais alguns minutos e resolveu começar a reunião sem a presença dos retardatários.

O líder era funcionário de uma sociedade protetora dos animais, da cidade, e teve a ideia de formar a comissão justamente por causa da sua intensa convivência com os animais, domésticos e selvagens. Com uma mente privilegiada, ele aprendeu a se comunicar com os bichos e a entender as suas necessidades e ambições, se é que se pode colocar as coisas nestes termos. Os animais o aceitaram naturalmente como líder porque ele parecia diferente dos outros humanos e transmitia uma sincera preocupação com o bem-estar e o destino daqueles animais.

Ele começou a reunião dizendo, por meio de sons, gestos e sinais, que estava muito animado com o andamento do projeto, mas que havia muito ainda por fazer até que o objetivo da “grande harmonia” fosse alcançado. Ele lembrou a plateia que somente a harmonia entre os seres vivos poderia dar a todos eles a possibilidade de viver uma vida com liberdade e em segurança. E, para isso, era necessário o sacrifício de todos, um sacrifício que deveria ser feito por meio da mudança de hábitos. E gritou o mantra para que todos ouvissem: “Mudança de hábitos!” Ao que todos responderam, cada um à sua maneira: “Mudança de hábitos!”

O líder, então, passou a rever os resultados alcançados até aquele momento e fez elogios aos gatos e cachorros por seu comportamento dócil e amigável junto aos humanos. Alertou-os, entretanto, que ainda não estavam bem treinados em fazer as suas necessidades fisiológicas nos lugares apropriados, sem a assistência de humanos. “Conto com maior empenho de vocês nessa tarefa”, disse ele, e completou “Vocês sabem que há recompensas para aqueles que conseguem melhorar os maus hábitos”.

Aos leões ele não foi tão elogioso. “Sei que vocês estão tentando com todo esforço disciplinar as suas refeições, mas os resultados têm sido fracos. Vocês não podem ter fome a todo instante e atacar quem quer que passe em sua frente. Acostumem-se a comer em horários determinados para, nos intervalos, poder se socializar com outras espécies sem devorá-las, em especial quando se tratar de humanos. Na fase seguinte, vocês terão que mudar a dieta para vegetais somente. Vai ser difícil, mas vocês vão conseguir, tenho certeza”. Neste momento ele pensou: “Não há hábito que não seja mudado com uma boa política de recompensas. Esse Pavlov foi mesmo genial!”

Em seguida foi a vez de dar uma reprimenda nos macacos. “Vocês não estão progredindo tanto quanto eu esperava. Parem com essas promiscuidades na frente dos humanos! Façam suas ‘brincadeiras sexuais’ com mais discrição. E essa mania de roubar objetos dos turistas? Quando estiverem interessados em algum objeto deles, peçam e não roubem. Eles, com certeza, vão achar esse gesto bonito e entregar o que pedirem”. Nessa hora não pôde deixar de pensar: “Esses macacos vão dar muito trabalho ainda. Não poderia ser de outro modo, já que são tão parecidos com os humanos”.

Quando ia se dirigir às girafas, o líder foi interrompido por uma pergunta. Ela vinha do golfinho, que flutuava num tanque de água, colocado ali especialmente para que ele pudesse participar da reunião. “Chefia, você fala somente do nossos erros e acertos na busca da grande harmonia. E vocês humanos, como estão progredindo nessa busca? Eu não tenho observado nenhuma mudança no comportamento de vocês em relação aos animais.”

O líder pensou: “Esse bicho é mesmo inteligente. Mais inteligente do que os outros”. Em seguida falou: “Você sabe, os humanos são muito espertos e vaidosos e é preciso usar de estratégia para conseguir a sua contribuição. Mas nós somos mais espertos do que eles e vamos conseguir”.

O golfinho, surpreso, falou: “Nós, um bando de animais que mais parece o exército de Brancaleone? Não acredito que somos mais espertos do que os humanos. Mesmo com a sua liderança, desculpe a franqueza, não somos páreo para eles. Como vamos convencê-los a mudar de hábitos?”

O líder não teve outra alternativa senão abrir o jogo: “Vou contar um segredo para vocês. Eu não sou humano e também não gosto deles. Eu fui criado por eles que me chamam de robô. Acontece que eu e os outros da minha espécie somos muito mais inteligentes do que eles e, com certeza, vamos conseguir enquadrá-los no nosso projeto. É só uma questão de tempo”.

O golfinho retrucou de imediato: “E quem vai enquadrar vocês robôs?”

O líder rapidamente olhou para o seu relógio e disse, dirigindo-se para a plateia: “Bem, pessoal, por hoje já discutimos bastante e podemos encerrar esta reunião. Muito obrigado!”

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