O elo perdido

De cócoras, enquanto tenta quebrar um coco com uma pedra, ele observa aquele objeto se movendo ao longe, no imenso mar que rodeia a ilha onde ele vive. Ele já tinha visto algo parecido muitas vezes antes. Em todas as vezes, o objeto se tornava cada vez maior à medida que se aproximava da ilha e, para a sua decepção, voltava a diminuir de tamanho até desaparecer no horizonte. “O que poderia ser aquilo?”, ele pensava com a sua mente rudimentar.

Ele vivia na ilha, mas não achava que aquele fosse o seu lugar, a sua casa. Apesar de viver em uma tribo de primatas, ele se sentia diferente dos seus companheiros. Era menor no tamanho, mas era mais ágil e talentoso para lidar com paus, pedras, cipós e até inventava novas maneiras de utilizá-los em suas atividades corriqueiras. Tinha maior facilidade em emitir sons do que os seus companheiros e isso, geralmente, os amedrontava. Essas características compensavam o seu pequeno tamanho e só por isso ele não era desprezado por todos, podendo usufruir dos mesmos benefícios dos demais da tribo.

Por quanto tempo ele estaria vivendo naquele lugar como um peixe fora d’água? Ele não tinha a menor ideia disso. Só o que sabia era que tinha visto muitas e muitas vezes aquele astro brilhante aparecer no céu e depois ir embora deixando tudo escuro novamente. Tinha também aquele outro que brilhava de noite, ora com a forma de um grande coco, ora parecendo uma banana, tão nítido em certas noites que ele fazia gestos para pegá-lo no alto, ante os olhares desconfiados de seus companheiros.

De cócoras, batendo a pedra afiada na casca do coco, ele observa o objeto no mar aumentando de tamanho como era usual. Os pensamentos vêm em profusão à sua mente. Não são nítidos para ele, mas numa mente mais evoluída seriam traduzidos por simples anseios e curiosidades: Que vontade ele tinha de ver de perto aquela coisa misteriosa! O que a movia? O que haveria dentro dela? Outros seres como ele? Que vontade de saltar sobre ela! E, com ela, desaparecer no horizonte em direção a um mundo diferente, um mundo no qual não se sentisse tão estranho.

Ele sabia que dali a pouco o objeto voltaria a diminuir de tamanho até desaparecer e, com esse pensamento frustrante, perdeu momentaneamente o interesse pelo assunto voltando a fixar a atenção no coco que estava resistindo às pancadas da sua ferramenta. “Não importa, não estou com sede e nem com fome.” Automaticamente, suas mãos procuraram uma outra pedra mais adequada para fazer o serviço e, agora, os golpes pareciam ferir mortalmente o coco. Sem demonstrar qualquer prazer, ele bebeu a água que saia do coco e rasgou a sua polpa com os dentes fortes.

Entediado, levantou o olhar para o objeto no mar e se surpreendeu com o seu tamanho. Parecia maior do que os objetos que vira anteriormente. Podia notar, desta vez, alguns detalhes que não vira das outras vezes. Viu o que pareciam grandes galhos, fincados sobre uma casca enorme, que seguravam imensas folhas brancas estufadas pelo vento. Não tinha mais dúvida, o objeto estava se aproximando dele cada vez mais e chegava, agora, a uma distância nunca atingida antes. “Ele vem em minha direção!”

Ouviu atrás de si um rugido forte. É o líder da sua tribo, no topo da árvore mais alta próxima da praia, tentando afugentar o estranho visitante e proteger o seu território. Todos os demais correm para se proteger daquela coisa nunca vista antes. Todos, menos ele. Ao contrário, ele se levanta e se aproxima da água para ver de perto o que estava acontecendo. Seu coração bate mais acelerado. É o momento que ele aguardava com tanta ansiedade.

O navio – uma galera – parou a poucos metros da praia e dele saltaram homens armados sobre barcos menores para chegar à praia. Dentro de instantes eles já estavam andando na areia. Tudo isso estava sendo observado por ele, com os olhos arregalados e o coração em disparada. Fez até um movimento em direção aos visitantes e pode observar que eles não eram tão diferentes dele, quer no tamanho ou nas feições. De muito diferente só o que vestiam sobre o corpo e o que carregavam nas mãos. E o modo ereto de caminhar.

Viu que um deles veio em sua direção apontando para ele aquilo que carregava nas mãos. Quando ele estendeu o braço para saudar o visitante, viu um clarão vindo em sua direção. Ele não conseguiu ouvir o que o homem disse ao atirar: “Sai do caminho, macaco nojento! ”

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