A natureza e o rei Salomão

A natureza tem uma capacidade incrível de fazer com que as coisas caminhem sempre para um estado de equilíbrio. A ferramenta que ela usa para isso é a segunda lei da Termodinâmica que faz com que qualquer sistema caminhe para um estado em que as mudanças não são mais possíveis, isto é, um estado de equilíbrio. Em razão disso, o nosso universo caminha inexoravelmente para uma situação em que nenhuma vida será mais possível. Mas isso está tão distante que não preocupa ninguém que vive aqui na Terra no ano de 2016. Se fôssemos imortais talvez devêssemos nos preocupar, mas, felizmente, não somos.

Interessa mais falar dessa tendência da natureza de buscar o equilíbrio no curto prazo. Um bom exemplo é o das populações de presas e predadores. Se a população de predadores aumenta muito as presas ficam escassas e os predadores morrem de fome fazendo a sua população diminuir. Quando as presas ficam abundantes, a população dos predadores cresce e a população das presas volta a diminuir. Com esse vai e vem a natureza procura restabelecer sempre o equilíbrio.

Alguns fatos isolados parecem desafiar essa tendência da natureza de buscar a monotonia. O aparecimento da própria vida é um deles. Um organismo vivo é uma organização complexa, cuja criação vai contra a tendência imposta pela segunda lei da Termodinâmica. Mas isto é só aparente, porque esse fenômeno se dá ao custo de outros que mais que compensam essa organização localizada e acabam contribuindo para a desorganização geral do sistema. O equilíbrio é sempre o alvo final da natureza.

O aparecimento do homem entre os seres vivos, com a sua capacidade de planejar as ações, foi um outro fenômeno desafiador da natureza. O homem tem produzido mudanças no ecossistema que interferem de maneira inusitada com as populações das outras espécies e até mesmo da nossa. Ele tem agido no sentido de manipular as outras espécies para diversos objetivos, seja para a sua alimentação própria ou para pesquisas médicas ou ainda para a sua companhia ou apenas para entretenimento. Não haveria nada errado se isso fosse feito sob o critério de evitar o sofrimento desnecessário dos animais envolvidos. Mas esse não parece ser o caso.

Não importa qual seja a atuação do homem, a natureza dará sempre o seu jeito de buscar o equilíbrio e, já se sabe, será sempre a vencedora nessa competição. O problema é que a solução final pode não ser a mais adequada para as espécies vivas. Então, por que não trabalhamos em conjunto com ela na busca de um equilíbrio que seja bom para todos? Será essa a nossa missão no planeta: buscar um equilíbrio que estabilize as populações dos seres vivos sem provocar o sofrimento desnecessário de seus indivíduos, ainda que esse equilíbrio tenha que ser dinâmico para se adaptar às estripulias da natureza?

Sei que é difícil definir “sofrimento desnecessário” quando o relacionamento natural entre as espécies se dá sob as regras cruéis dos predadores e das presas. Todavia, alguns aspectos parecem óbvios:

  • Entre seres humanos não pode haver predadores e presas.
  • A deterioração do meio-ambiente é prejudicial à maioria das espécies.
  • A caça predatória não tem justificativa.
  • As práticas de criação dos animais destinados à alimentação dos seres humanos são, em sua maioria, brutais do ponto de vista de qualquer espécie.
  • A utilização de animais em experimentos científicos se faz muitas vezes sem que se esgotem as possibilidades de uso de outras alternativas.

Se a natureza – insensível – busca o equilíbrio a qualquer custo, os sapiens – inteligentes – deveriam saber que algumas alternativas, como a do salve-se quem puder, são custosas demais para ser adotadas. Está na hora de os sapiens darem uma ajuda à natureza para o bem de todo o planeta.

Segundo uma passagem bíblica, o rei Salomão, diante de duas senhoras que reivindicavam o direito de mãe legítima sobre uma criança, teria sugerido dividir a criança ao meio e oferecer uma metade a cada mãe. A mãe legítima teria, de imediato, se oposto à essa decisão abrindo mão do direito sobre a criança para preservar a sua vida. Do mesmo modo, a natureza oferece a alternativa de lotear o planeta entre os seus pretendentes. Cabe ao sapiens, representando a mãe legítima, abrir mão de alguns de seus privilégios – seja entre os seus pares ou diante dos outros animais – para preservar um planeta íntegro para todos.

Para aqueles que queiram levar esta analogia adiante fica a dúvida: a natureza estaria agindo com a mesma sabedoria do rei Salomão, que de antemão sabia que a mãe legítima iria se revelar? Quem pode saber?

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2 comentários sobre “A natureza e o rei Salomão

  1. Prezado Caco do BCD,

    Não sei se estou ficando velho, ou se é porque virei Rainha…mas passei a ver as coisas de uma forma diferente…

    Estava assistindo o vídeo do Zé Guilherme que o querido Doppler/LePentella mandou e pensando…

    Algumas coisas eu concordo, acho que são observações pertinentes e outras não. Me parecem “construções” (era o termo que o Freud usava), ou seja, algo que se construía na imaginação para preencher espaços da parte que não sabemos.

    A natureza não é boa nem ruim. Para mim, a Natureza (ou Deus, se V. quiser) *é*.

    Então, por exemplo, se observarmos como evolui o mundo, a falha de San Andres, os terremotos, maremotos, tsunamis, vamos ver que as coisas *são*. Simplesmente são assim e funcionam assim.

    Destruições, mortes, extinção dos dinossauros…

    Quem avalia e diz “é bom” ou “é mau”, somos nós, que tentamos colocar essas nossas ideias moralistas para os outros, para a Natureza, para Deus.

    Predadores existem.

    A deterioração do meio ambiente existe. Faz parte. É a entropia do Zé Guilherme?

    Animais sempre comeram outro animais. Certo? Errado? Sei lá.

    Se V. quiser lutar contra a deterioração do meio ambiente, ou contra a maldade com os animais, você está certo. Lute. Mas não invoque Deus para isso…

    E a Força Estranha? A força Estranha é que faz tudo funcionar dessa forma…

    Ah! Só mais uma coisa… a Natureza não segue a 2ª lei da Temodinâmica. O Weiss, ou Chequini ou o Kelvin é que bolou a lei, olhando a natureza.

    É claro que tudo o que escrevi acima é apenas a minha humilde opinião…

    E o Gatto da casa é viado…

    Ou não.

    Grande abraço,

    Ary (Rainha)

    • Ary, É melhor “engolir” tudo o que você disse do que lamentar o seu silêncio (rs rs). Só não entendo quando você diz que a força estranha é que “faz tudo funcionar dessa forma …” Ora, não vejo nada de estranho numa força que atua aleatoriamente, quero dizer, sem nenhuma intenção. Eu sempre pensei que você se referia a algo misterioso por trás da realidade visível. Quanto à natureza seguir a segunda lei da termodinâmica, é claro que se trata de uma força de expressão. Abs. Caco do BCD.

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