A história de dona Nadir e seu Zenite

Dona Nadir e seu Zenite têm uma doença muito rara. Apesar de ser a mesma doença ela provoca sintomas muito diferentes em cada um deles, sintomas que os transformam em pessoas também muito diferentes. Dona Nadir sente a necessidade de olhar para objetos próximos. Ela se vê incomodada se seu olhar não encontra nada por perto e, pior ainda, se ele encontra o vazio, sem refletir em nada. Ela fica apavorada só de pensar em estar em um deserto, com a visão desamparada, sem nada para ver a não ser a areia do chão. Por isso mesmo ela se sente num porto seguro olhando para o chão; só assim não tem o perigo de não encontrar nada em sua linha de visão. Já seu Zenite tem um sintoma oposto. Ele se sente enclausurado quando seu olhar é obstruído por algo no caminho. Ele quer sua visão livre para enxergar o mais longe possível. Quando está entre quatro paredes ele prefere fechar os olhos a ter a sua visão obstruída pelas paredes. Fora de quatro paredes, seu refúgio é olhar para o alto, para o espaço infinito.

No cotidiano essa doença traz muitos problemas para a dona Nadir e para o seu Zenite. Ela está sempre sujeita aos riscos que vêm do alto porque está sempre com o olhar desviado para o chão. Não é preciso dizer que ela está sempre batendo a cabeça em algo que ela não vê facilmente se estiver a uma altura razoável. Ele, por sua vez, não vê por onde anda e tropeça em qualquer coisa no seu caminho. Tiveram que aprender a conviver com essas desvantagens ao longo de suas vidas.

A doença também os transformou em pessoas completamente diferentes. Dona Nadir é muito comunicativa e prática, além de ser uma apaixonada pelas belezas naturais. Todos dizem que ela está sempre com os pés no chão. Seu Zenite é muito introspectivo, sem nenhum senso prático e, como não podia deixar de ser, uma pessoa fascinada pelo céu. Todos dizem que ele está sempre no mundo da lua.

Eles não se conheciam até chegar na adolescência. Foi quando um evento muito improvável aconteceu: seus olhares se cruzaram. Não era uma coisa fácil de acontecer, primeiro porque exigia que duas pessoas com uma doença muito rara estivessem próximas; segundo porque exigia que os seus olhares, que tinham focos diametralmente opostos, se cruzassem por um tempo suficiente para que um notasse a presença do outro. Mas quis o destino que eles estivessem próximos e a força do amor à primeira vista cuidaria do resto, não importa se os olhares se encontrassem por uma fração de segundo.

Dona Nadir e seu Zenite se casaram logo depois desse evento improvável e viveram bem por muito tempo, apesar das tantas diferenças no modo de ser de cada um. Chegou uma época, todavia, em que as diferenças começaram a contaminar o dia-a-dia do casal. Eles quase não mais se comunicavam em virtude das diferenças de ponto de vista. Ele não conseguia mais prestar atenção, ou sequer ouvir, ao que ela dizia e vice-versa. As preocupações de um não tinham qualquer semelhança com as preocupações do outro e a vida, para eles, ia se arrastando. Ele, dando seus tropeções; ela, dando as suas cabeçadas.

Tropeções e cabeçadas! Aí estavam as palavras-chave, a solução do problema. Dona Nadir e seu Zenite, ambos inteligentes, finalmente descobriram como tinham que agir para salvar o seu amor. Nada de convencer um ao outro a ter os seus mesmos pontos de vista, a se interessar pelas mesmas coisas. Nada de tentar mudar um ao outro. Tinham é que complementar um ao outro, cada um oferecendo o que tinha de melhor para ajudar o parceiro. Ela, o seu olhar para o chão; ele, o seu olhar para o alto. De braços dados, ela não mais deixaria que ele tropeçasse e ele não mais permitiria que ela desse cabeçadas.

E assim foi que dona Nadir e seu Zenite decidiram viver o resto de seus dias de braços dados, com o olhar, feito radar, a cuidar um do outro.

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PS.: Quem estiver curioso em saber a origem dos nomes dos personagens desta história pode clicar aqui.

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5 comentários sobre “A história de dona Nadir e seu Zenite

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