A vida imita a ciência

É do escritor argentino, Jorge Luis Borges, a frase: “Somos nossa memória, somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos quebrados”. Com ela eu quero começar este texto para falar mais uma vez sobre Inteligência Artificial (IA). Ninguém discorda que a memória seja parte fundamental da nossa identidade, algo que permite que nos situemos diante da família, dos amigos, da sociedade, enfim, da realidade que nos cerca. Mas a memória não é tudo para nos tornar indivíduos plenos (senão, eu poderia colocar os meus vários pendrives como dependentes na minha declaração de renda; desculpe a piada).

Deve existir todo um processo que lida dinamicamente com a nossa memória de forma a nos dar essa sensação de que existimos e de quem somos. Só não sabemos (a ciência) exatamente como esse processo funciona. Parte do problema já foi muito estudado e hoje já se sabe com alguma clareza como funcionam as nossas memórias de curto e longo prazos. O entendimento de todo o processo, no entanto, ainda está incompleto.

Falando, agora, como leigo, uma das questões que me intrigam, por exemplo, é como a nossa mente atrela uma escala de tempo às memórias, dando a elas uma precisa cronologia. Uma maneira que parece óbvia de fazer isso é empilhar as memórias de forma que quanto mais velha for a memória mais embaixo da pilha ela estará. Mas aí vem a pergunta: como sabemos em que posição da pilha estava a memória que acabamos de recordar? Mas o fato é que sabemos! Porque, do contrário, não teríamos a noção da data a que aquela memória se refere. Parece-me que a ciência, ao procurar decifrar esses e outros pequenos segredos, irá encaixando as peças do quebra-cabeça, uma a uma, até que um dia consiga desvendar o processo todo da consciência.

Lembro-me de um curso que fiz há mais de 40 anos sobre alocação dinâmica de memória em computadores, baseado no livro texto de Donald Knuth. Achei o curso fundamental para quem queria conhecer um pouco as entranhas de um computador da época (não faço a menor ideia se aqueles conceitos ainda se aplicam aos computadores atuais). O que mais me surpreendeu foi saber que os arquivos não eram armazenados de forma íntegra na memória do computador, mas os seus registros (informações) estavam espalhados por todo canto, aproveitando os espaços vazios. Cada registro armazenava, além da informação principal de conteúdo, um endereço (ponteiro) onde estava o registro seguinte daquele mesmo arquivo. Assim, o computador não precisava de um espaço contíguo para armazenar um arquivo grande, mas poderia utilizar vários espaços vazios aqui e ali para esse fim. De quando em quando, o sistema operacional fazia um rearranjo da memória toda para organizar a bagunça, apagando as informações sem uso e compactando os arquivos em lugares contíguos para diminuir o tempo de busca de uma informação. Eu achei isso sensacional.

Mas o que me intriga, agora, é saber que alguma coisa parecida pode estar acontecendo em nossos cérebros. Dizem que durante o sono o nosso cérebro trabalha para organizar e consolidar as nossas memórias. Imagino que ele faça algo parecido com o que o sistema operacional de um computador faz (ou fazia), conforme descrito acima. Se isto for verdade, é incrível constatar que o analista de sistemas tenha imitado uma técnica biológica sem ter conhecimento dela. Indo além, essa constatação pode levar a uma outra sugestão: a de que as técnicas de inteligência artificial, desenvolvidas de forma independente dos conhecimentos sobre a mente, possam ajudar a entender o que se passa no nosso cérebro. É óbvio que se espera que as ciências da mente e da computação possam trabalhar em conjunto para atingir os seus objetivos, de modo que os resultados de uma alimentem a outra e vice-versa. Contudo, sendo um tanto radical, talvez a IA não precise esperar que se conheça profundamente o funcionamento da mente humana para produzir uma máquina senciente, mas sim desenvolver suas próprias técnicas que poderão, por sua vez, explicar o que se passa em nossas mentes. Ao invés de simular a mente humana, a IA ajudará a desvendá-la.

Dizem que a vida imita a arte, mas, neste caso, ela estaria imitando a ciência.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s