O problema da fronteira

A fronteira pode ser tanto uma solução quanto um problema. Ela pode separar fisicamente propriedades privadas, países, geografia, ou conceitualmente o legal do ilegal, o certo do errado, as instituições políticas, religiosas etc. Quando ela delimita partes reconhecidas universalmente é uma solução; por outro lado, quando procura separar classes sociais, raças, credos incita o aparecimento de disputas, reações e preconceitos de toda natureza. O assunto é espinhoso, mas, felizmente, o problema da fronteira sobre o qual vou falar aqui não tem nada a ver com esses outros problemas. Vou me referir a situações mais abstratas em que a curiosidade está na própria indefinição da fronteira. Elas se referem aos objetos clássicos das discussões filosóficas: o universo, a vida e a consciência. Vocês verão que eu não pude evitar que a matemática também se intrometesse neste assunto.

Você já tentou compreender algo que pode ter um tamanho infinito, por exemplo, o espaço em que habitam todos os corpos celestes? Ou algo que pode não ter tido um início e nunca ter um fim, como o universo em que vivemos? Se você já pensou nisso, provavelmente não deve ter ficado satisfeito com as ideias de infinito e eterno, pois elas não são nem um pouco condizentes com a nossa maneira de entender a realidade. É mais fácil imaginar que tudo tenha um tamanho limitado, por maior que este seja, e que tudo tenha um início e um fim. Mas se o cosmos tiver um tamanho limitado, o que significa a fronteira que o separa do nada? E o tempo? Se ele não for eterno o que significa a sua interrupção, ou a fronteira entre o passar e o não passar do tempo?

Provavelmente você já parou para pensar no que significa a vida e como ela surgiu. A vida é um processo ainda não explicado totalmente pela ciência, especialmente a sua origem, mas não só isso. Um organismo vivo é constituído de átomos e moléculas como qualquer outro objeto inanimado, então, onde está a centelha que torna um vivo e mantém o outro inanimado? As reações químicas que caracterizam um organismo vivo são bem conhecidas, mas onde está a fronteira que separa as condições para que essas reações aconteçam em um organismo vivo das que impedem, por exemplo, que aconteçam em uma rocha?

A dualidade corpo-mente é outro problema de fronteira intrigante. Em nosso cérebro acontecem todas as reações que levam ao surgimento da consciência, isto é, a noção de que somos uma determinada pessoa, que sente e pensa em sua situação diante do resto do mundo. É essa consciência que nos faz acreditar que habitamos esse nosso corpo, que não pertence a ninguém mais. Todavia a ciência ainda não compreendeu como a consciência emerge dos processos neurais e nem mesmo tem certeza de que ela é originária somente desses processos neurais. O problema da fronteira neste caso é saber onde termina um (o corpo) e começa o outro (a mente) e, quem sabe, até mesmo se existe essa fronteira.

É possível que um dia a ciência explique essas dúvidas e, se o fizer, será muito provavelmente com o auxílio, direto ou indireto, da matemática. A propósito, a matemática é uma das mais belas criações (ou descobertas?) do ser humano e, talvez por hereditariedade, ela também carrega consigo alguns problemas de fronteira. A matemática não gosta do significado de infinito, de sequências infinitas, de conjuntos abertos, de divisão por zero e de outras singularidades que levam a algum tipo de indefinição de fronteiras dos conjuntos numéricos. Ainda que alguns desses problemas tenham sido resolvidos com a criação de conceitos matemáticos como limites e vizinhança de um ponto, ela ainda sofre com certos casos de singularidade.

O criador da matemática também procura resolver os seus problemas de fronteira adotando conceitos como deus, alma, mitos da criação e, claro, também por meio de especulações científicas ainda não tornadas teorias, como os multiversos, as propriedades emergentes do cérebro, a origem da célula e outras. Assim, criador e criatura lidam igualmente com problemas de fronteiras e de sua atuação conjunta certamente surgirão progressos no entendimento de alguns deles. É difícil saber, entretanto, se todas as nossas ignorâncias neste assunto poderão algum dia ser eliminadas.

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