Fiat lux

Engraçado vê-lo trabalhar num ambiente tão escuro, ainda mais considerando que o seu trabalho era delicado e minucioso, pois ele lidava com culturas de bactérias. Mas não era preciso ser um bom observador para concluir logo que a escuridão do laboratório fazia parte necessária da sua rotina. As luzes fracas emitidas pelas diferentes culturas de bactérias só poderiam ser bem observadas e compreendidas se o ambiente estivesse às escuras ou, no máximo, na penumbra. Imersas em seu habitat líquido, em recipientes próprios de vidro, ligados por um sistema de vasos comunicantes, as culturas de bactérias emitiam cores peculiares de acordo com o caminho evolutivo tomado pelas diferentes colônias. Diferentes cores cintilavam aqui e ali mostrando a vida em evolução. Ora aqui, ora ali, a luz se desvanecia por completo indicando que a respectiva colônia não tivera sucesso e fora extinta. Em outros recipientes, colônias proliferavam com rapidez e transbordavam de seu habitat encontrando outras colônias de bactérias. Desses encontros surgiam novas espécies de bactérias com novas cores mais cintilantes do que as das espécies originais. Ou, então, espécies se aniquilavam por falta de compatibilidade entre elas. No todo, ficava claro que a população crescia e as luzes diversificavam.

Era um espetáculo que o técnico bacteriologista gostava de observar do alto do mezanino que rodeava a bancada do laboratório onde estavam as colônias de bactérias. De cima ele observava as cores – que cobriam todo o espectro do arco-íris – se alternando como a demonstrar que aquilo era um grande organismo vivo. Ele observava em êxtase o seu grande experimento. Não era um êxtase completo porque um pequeno traço na sua fisionomia denunciava alguma ansiedade. Se alguém pudesse testemunhar aquele momento, talvez interpretasse aquele sentimento como uma ligeira impaciência.

Ele é o maior de todos os bacteriologistas e ninguém duvida que ele possa criar os tipos mais diversos de bactérias, para as mais diversas aplicações. Fazia isso, claro, sempre em busca de utilizá-las com um objetivo nobre. Seu segredo maior era dar início a uma colônia de bactérias com uma receita que só ele sabia reproduzir. Aparentemente do nada ele fazia surgir uma célula viva que, em pouco tempo, se transformava em uma colônia de incontáveis bactérias.

Um dia, do alto do mezanino ele observava o seu experimento quando notou num dos recipientes centrais uma espécie de fagulha. Uma colônia de bactérias tinha evoluído a um grau tão alto que a permitia emitir uma luz branca. Sim, uma luz branca, que é a combinação de todas as outras cores. Daí em diante ele, agora completamente extasiado, observava que aqui e ali novos flashes de luz branca apareciam revelando que outras colônias atingiam o clímax da evolução, num efeito cascata. As colônias de bactérias pareciam vibrar em perfeita harmonia, emitindo luz como as sinapses entre os neurônios de um cérebro em um estado de consciência plena. Logo, a intensa luz branca invadiu o laboratório como se alguém tivesse acendido grandes refletores.

Naquele ambiente, agora totalmente iluminado pela luz que emanava das colônias de bactérias, o bacteriologista estava possuído pelo prazer de ter cumprido a maior de todas as missões. Ele não cansava de admirar aquela luz branca e brilhante e, ao mesmo tempo, pensava em como as bactérias completavam o seu mundo dando fim à escuridão que sempre o acompanhara.

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