“deus + deus = quatro”

O debate sobre fé e razão é antigo e talvez não tenha fim. Ele também pode ser entendido como o debate entre religião e ciência, que são os agentes e procuradores dos dois primeiros. Desse debate pode-se concluir que, para alguns, fé e razão (ou religião e ciência) não podem ser conciliadas, enquanto que para outros, elas podem conviver pacificamente.

Historicamente as religiões têm culpa pelo obscurantismo de parte dos seus adeptos com sua resistência em aceitar os avanços da ciência que contrariam a interpretação literal das escrituras sagradas. Todavia, nem a aceitação dos avanços científicos evitou que se criasse, entre os cientistas, a expressão pejorativa “Deus das lacunas” para se referir à diminuição da necessidade de se apelar para um deus para explicar os fenômenos naturais, cada vez mais dominados pela ciência. Por culpa das próprias religiões, que não conseguem definir o verdadeiro papel de seu deus, este ficou entrincheirado no espaço cada vez menor dos fenômenos que a ciência ainda não consegue explicar – as chamadas lacunas, da expressão citada. A frase mais característica dessa situação é a do cientista Stephen Hawking, que disse: “Não há lugar para Deus na teoria da criação do universo”, após delinear a sua hipótese sobre a origem do universo.

Entre os cientistas também há posições radicais que não deixam margem para a fé, mesmo quando esta não interfere no método científico ou não disputa as explicações dos fenômenos naturais com a ciência. Há, por parte desses cientistas, uma intolerância a priori com a prática religiosa ou o exercício da fé que não condiz com o direito universal à liberdade de pensamento. Assim, com culpa de lado a lado, o debate não chega a bom termo.

Eu tinha este pano de fundo, quando li “A realidade oculta”, de Brian Greene – que trata das diferentes versões dos universos paralelos -, e tomei conhecimento de uma especulação científica sobre o papel da matemática no universo. O curioso dessa especulação é que a dúvida não está mais em saber se a matemática foi criada ou descoberta pelo homem; ela está em saber se a matemática não seria a única coisa real que existe, o resto (o universo físico ou os múltiplos universos) sendo apenas decorrência dos modelos que dela derivam.

Essa especulação pode não ter nada a ver com o debate sobre fé e razão e ser mero exercício do intelecto imaginativo dos cientistas, mas, certamente, ela não ajuda em nada para resolver o imbróglio do debate mencionado. Pois foi essa a motivação que usei para dar o título a este artigo. Do lado da fé está o seu ícone maior, Deus, e do lado da razão, o seu representante mais genuíno, a Matemática. O título do artigo procura incluir essas duas entidades numa expressão (quase) numérica, “deus + deus = quatro”, e, assim, resumir o debate em questão.

Qual é a minha contribuição para o debate? Nenhuma, a não ser apelar para a sabedoria popular que diz que a verdade está sempre no meio. Assim, a metade de quatro é … deus … ops … dois. É, nem a sabedoria popular consegue resolver esse imbróglio.

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2 comentários sobre ““deus + deus = quatro”

  1. BCD,

    Data vênia máxima, você mencionou dois grupos – cientistas e religiosos, mas “esqueceu de mim” e do meu grupo – os agnósticos quânticos.

    Nós, os agnósticos quânticos, acreditamos que os dois tem razão.

    Você já leu Ken Wilber? É um filósofo americano, que escreveu um livro – “A Teoria de Tudo”, que inclui todo o conhecimento do Universo. Segundo ele, quando há duas posições opostas em debate, geralmente seus defensores tem razão no que negam, mas não no que afirmam. A conferir, como diz o JR.

    Nessa questão da existência de Deus, mudaria o nome dos dois grupos que você trouxe – os que tem fé em que Deus existe e os que tem fé que Deus não existe. E há o meu grupo, os agnósticos quânticos, que acha que não dá para saber.

    Ou não.

    O abraço,

    Ary

    • Ary, A minha intenção não foi focar a discussão na questão se Deus existe ou não, mas sim na questão se fé e razão são conciliáveis. E na discussão mencionei as posições radicais, de um lado e do outro, que tendem a tornar os conceitos antagônicos. Não mencionei o “seu” grupo, assim como não mencionei o dos cientistas religiosos e nem o dos ateus que admitem que acreditar em Deus não vai contra a ciência. Isto porque assumi que esses grupos admitem que fé e razão não se contradizem. Não é difícil deduzir do texto que o que considero ser um bom termo para o debate é concluir que fé e razão (ou religião e ciência) podem coexistir pacificamente. Abs. BCD

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