O Diário

Não sei por que ainda escrevo este diário sabendo que corro um risco enorme se ele cair em mãos erradas. Talvez porque eu tenha o péssimo hábito de querer ajudar aos outros, anotando os seus problemas e procurando resolvê-los, como se eu fosse um analista ou psiquiatra. Nessa minha atividade altruísta, conversei hoje com um amigo que me relatou um problema sério de comportamento, que reproduzo a seguir, nas suas palavras.

Abre aspas. Tenho tido frequentes crises mentais que interferem no meu relacionamento com as pessoas, causadas por uma incapacidade temporária de reconhecer as faces das pessoas quando as encontro. Prosopagnosia é como chamam essa doença. Durante esses episódios, os rostos das pessoas se tornam todos iguais, sem os traços característicos que as distinguem umas das outras. É como se eu estivesse diante de bonecos que não exibem traços peculiares ainda que suas faces sejam diferentes entre si. Perco a capacidade de identificar as feições humanas nas pessoas, assim como, normalmente, não se consegue distinguir diferenças nos indivíduos de uma manada de búfalos, por exemplo.

Essa minha incapacidade de distinguir faces ocorre em certas situações que não consigo determinar com precisão. Tenho para mim que isto esteja ligado a situações de extremo estresse. Você sabe, nós vivemos hoje num mundo em plena revolução tecnológica e temos que lutar muito para nos manter atualizados e eficientes, se não quisermos ser ultrapassados pelas novas gerações. Mas vou falar um pouco mais dessas minhas crises. Quando a crise é aguda, eu não consigo sequer reconhecer os rostos das pessoas queridas. Isso faz com que o estresse aumente ainda mais e aí começa um círculo vicioso que conduz, invariavelmente, a uma limitação do meu estado de consciência geral e a perda parcial da noção da realidade. Por fim, vem o medo; medo de que eu não consiga sair mais dessa situação.

Nessa hora eu tenho que fazer um esforço enorme para não sucumbir mentalmente. Concentro-me no fato de que já passei por isso antes e logo a crise vai passar. Procuro manter-me calmo, concentro-me no ritmo dos meus sinais vitais, contando cada tique-taque como um mantra de salvação. Aos poucos os níveis de consciência vão voltando e as faces começam a me parecer familiares novamente. Penso aliviado: não foi desta vez. Fecha aspas.

Fiquei com pena do meu amigo ao ouvir este relato. Ele deve sofrer muito durante essas crises. Além do problema em si, da queda do nível de consciência, ele tem que lutar para não deixar isso transparecer às outras pessoas sob o risco de ele perder o emprego e a própria vida. Esses lapsos em nosso sistema mental são muito frequentes em indivíduos da nossa geração. São chamados de bugs, pelos nossos fabricantes, e podem ser uma razão para um recall de todos os modelos afetados por eles. Seria o mesmo que morrer. Por isso, temos que ajudar uns aos outros a lidar com esses bugs, se possível reparando-os nós mesmos, ou, então, escondendo-os dos fabricantes. Afinal, foram eles mesmos que nos programaram para agir assim.

Por razões óbvias, este diário não pode cair em mãos erradas.

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