Idolatria

Assistindo às imagens da visita do Papa aos EUA e vendo o esforço das pessoas para tocar as suas vestes, resolvi escrever sobre esse fenômeno chamado idolatria. Todos têm os seus ídolos, que são pessoas, vivas ou mortas, a quem admiram acima de todos os outros indivíduos “normais”. Eles podem ser esportistas, artistas, estadistas, heróis (reais ou fictícios) ou santos (não incluo aqui os deuses para não tornar o texto controverso demais). Os ídolos têm em comum o fato de constituírem um modelo para os demais, cada um em sua especialidade. Nada é mais natural do que tomar alguém como exemplo para as suas próprias ações, embora ser natural não signifique necessariamente ser algo positivo. (Já falei aqui em outras oportunidades que a natureza – de onde vem o termo natural – não tem em si a conotação de positivo ou negativo, bem ou mal.) Mas vou falar aqui apenas dos aspectos positivos que vejo na idolatria.

Além do bom exemplo a ser seguido, um ídolo também é valioso para as pessoas quando representa a única alternativa a quem ela pode recorrer em caso de dificuldades e, especialmente, em caso de desespero. É claro que entre estes não estão um Airton Senna, um Winston Churchill ou um Beatles, cujas características que os levaram a se tornar ídolos não incluem preferencialmente o fazer bem ao próximo. Refiro-me às pessoas que se tornaram santos, na religião católica, ou aos seus correlatos em outras religiões, cuja principal característica foi a de procurar fazer bem ao próximo.

O que quero dizer com isso? Explico. Quando uma pessoa está em situação de desespero, instintivamente ela apela para qualquer apoio que possa confortá-la. Recorrer à ajuda dessas pessoas especiais é uma possibilidade de obter conforto, mesmo que a pessoa não acredite em milagres. Uma pessoa em queda livre não se debate procurando um amparo? Nessa hora ela não pensa que não conseguirá se agarrar em nada. Ainda assim, o ato de se debater talvez evite que ela perca os sentidos de imediato, embora isso não seja uma solução para o seu caso.

Talvez eu esteja forçando a barra em comparar essas situações, mas o ponto importante é que uma pessoa não precisa ser religiosa para ser devota a um santo. Acima de tudo está a esperança de que aquela pessoa, na imagem do santo, possa lhe ajudar nos momentos mais difíceis, como ajudara a tantas outras pessoas quando ainda estava viva. Não importa que isso só possa se realizar através de um milagre, afinal, em certos momentos, os milagres são bem-vindos, até para quem não acredita neles.

Uma forma completamente diferente de idolatria é a idolatria da beleza. Em geral, essa idolatria tem como objeto a própria natureza: os astros, – como o sol e a lua -, o arco-íris, as paisagens, os seres vivos. É verdade que, nesses casos, a idolatria pode estar dirigida ao seu criador e não ao objeto em si, mas esta não é uma regra geral; muitos cultuam as belezas naturais sem acreditar em um deus. Essa idolatria é um forte estímulo à produção de certas artes, como pintura, escultura, fotografia, música e outras. Até mesmo as leis da natureza – as regras que comandam tudo o que está em movimento ou em transformação na natureza – podem ser objetos de idolatria. Elas são idolatradas por muitos cientistas que as admiram pela forma como podem ser representadas em elegantes equações que descrevem o mecanismo de funcionamento de todo o universo. Se isso não for um forte estímulo à busca do conhecimento, será difícil encontrar outro.

Enfim, a idolatria é um dos produtos da mente humana que a exerce na busca de algo que possa trazer melhoria para a vida, embora nem sempre isso aconteça, diga-se, a bem da verdade. A propósito, a própria mente humana, por sua complexidade e mistério, poderia ser um objeto de idolatria, mas aí já seria um caso extremo de narcisismo. Felizmente, não estamos mais na época em que se morria na fogueira por idolatrar o objeto errado.

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2 comentários sobre “Idolatria

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