Os pintores não precisavam morrer

A pintura é uma arte muito sacrificante. Não falo da pintura convencional em que um artista – o pintor –, com algumas pinceladas na tela, procura transmitir ao observador o significado da cena. Falo da arte praticada pelo próprio protagonista da cena. Sim, somos todos pintores! Somos todos artistas! Nossos pincéis são nossos próprios corpos e nossas pinceladas são nossas ações. Colocamos neles todas as nossas emoções e sentimentos. Nossa obra é um conjunto infinito de telas que compõem a nossa vida. Umas são obras primas, outras são genuíno lixo, mas todas são geradas com a intenção de agradar aos observadores ou, em alguns casos, de impressioná-los.

Nem todos têm o privilégio de ter as suas obras registradas por uma câmera fotográfica ou filmadora – como tiveram a menina queimada na guerra do Vietnã, os judeus do Holocausto e, mais recentemente, o garoto sírio encontrado morto em uma praia – mas as obras de todos ficarão registradas no passado, à disposição daqueles que as queiram revivê-las, como se isso fosse possível.

Se fosse possível voltar ao passado diríamos à menina vietnamita, aos judeus do Holocausto e ao garoto sírio que havíamos entendido perfeitamente a mensagem deles e nos desculparíamos por não termos feito a coisa certa. Diríamos que eles não precisariam ter morrido para nos ensinar o óbvio e que eles deveriam continuar a sua arte somente com as cores mais alegres. (É certo que a menina vietnamita não tenha morrido naquela sua obra mais que perfeita, mas o mesmo não se pode dizer de seus sonhos anteriores àquela tragédia.)

Mas não é possível voltar ao passado e salvar a vida, ou o sonho, desses grandes pintores. Ainda que fosse possível iríamos arruinar a sua obra. As suas vidas e sonhos estavam atrelados àquelas obras primas e tinham que ser levados para que a obra se consumasse. É por isso que digo que a pintura é uma arte muito sacrificante. Porque na maioria das vezes ela exige o sacrifício do pintor para chamar a atenção para o que ele quer dizer. Fico, então, pensando: não haveria um modo menos dolorido de pintar nossas telas?

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