Conversa com o Oráculo

Ele não sabia se tinha sido um sonho, ou um delírio da sua imaginação ou se fora um fato real a sua conversa com o Oráculo. Ela começou assim (É claro, depois das apresentações.):

– Então você sabe tudo sobre todas as coisas?

– Mais ou menos isso.

– Deus existe?

– Há, há, há! Essa é a pergunta que todos fazem. Para a sua decepção eu não sei a resposta. Vamos deixar uma coisa clara: eu sei tudo sobre coisas terrenas, ou melhor, do universo; fora disso, sou um completo idiota. Também só sei sobre o presente. O passado e o futuro não contam para mim. Ok?

– Ok. Já que você falou sobre passado e futuro devo deduzir que o tempo existe? Porque essa é uma das dúvidas que muitos têm.

– O tempo não existe; ele foi uma invenção de vocês para acomodar a noção de mudanças. Usei os termos “passado” e “presente” só como força de expressão e, talvez, tenha que tratar o “tempo” dessa maneira durante toda a nossa conversa para que possamos nos entender.

– Ok quanto a isso, mas tenho tantas perguntas que não sei por onde começar. Tenho medo de perder esta oportunidade fazendo as perguntas erradas ou tolas e deixando as mais importantes sem fazer.

– Não se preocupe, todos se sentem tolos diante de mim – desculpe a falta de modéstia. Portanto, tome o tempo que achar necessário e vá em frente. Como você já pode deduzir, não tenho compromisso mais tarde porque o mais tarde não existe para mim.

– Deixa-me ver … existem outros seres inteligentes no universo, quero dizer, além de nós os terráqueos?

– Sim, muitas outras espécies, algumas parecidas com a de vocês e outras muito diferentes. Umas mais avançadas – a maioria, porque vocês ainda são muito jovens – e outras ainda engatinhando. As mais avançadas já colonizaram outros planetas além do planeta natal. No entanto, aqui por perto não existe ninguém. Veja que já antecipei as respostas para outras perguntas que você poderia fazer. Eu quero muito facilitar as coisas para você. Vá em frente!

– Um dia vamos nos encontrar com alguma delas? Ops! Esqueci-me que você só fala sobre o agora. A nossa espécie vai ser extinta … ops! .., desculpe-me novamente. Vou mudar de assunto. Existem as tais leis da natureza? E se elas existem temos capacidade de desvendá-las?

– Claro que existem, senão o universo seria um verdadeiro caos. Sobre desvendá-las, infelizmente tenho más notícias. A natureza de algumas leis exige que vocês produzam as próprias ferramentas para descrevê-las – como, por exemplo, na Física, na Astrofísica, na Cosmologia – e que, obviamente, não existiam quando as leis foram criadas. Logo, as leis não poderiam seguir regras que ainda não existiam. Portanto, algumas leis só podem ser decifradas de um modo aproximado.

– Mas, então, que regras genuínas essas leis seguem?

– Você não as compreenderia se eu as explicasse aqui. Pelo menos por ora.

– Você me faz parecer mesmo um idiota, mas vou em frente. E a consciência, isto é, a capacidade do ser humano de estar ciente de si mesmo e do mundo que o cerca? Ninguém consegue entender como a interação de um amontoado de neurônios possa produzir esse resultado tão surpreendente que é a consciência. Onde ela está? Sobre isto você pode falar de forma que eu entenda?

– Até certo ponto. Alguns de vocês já falaram em propriedade emergente e estão chegando perto. Ninguém vai achar a consciência nos neurônios, assim como ninguém vê o sagrado nos tijolos de uma catedral, embora todos eles cooperem para produzir aquele efeito que se nota ao adentrar uma delas. É necessário um contexto maior para que a propriedade desabroche. No caso da igreja, a religiosidade do visitante. No caso da consciência, a realidade que cerca o indivíduo.

– Humm … já que falei de consciência, e o livre-arbítrio, ele existe? Quero dizer, nosso cérebro pode determinar uma ação à revelia das leis da física e da química que os nossos neurônios devem seguir?

– Você já deu a resposta. As leis da natureza não podem ser desobedecidas. Então não existe livre-arbítrio; tudo não passa de ilusão. A beleza está exatamente nessa ilusão de ter livre-arbítrio. Quem vai te convencer que você não é dono do seu nariz? Mas, a realidade não é essa.

– Mas, então, ninguém pode ser responsabilizado pelos seus atos? Ninguém tem culpa de nada? Nem no caso dos crimes mais horrendos?

– Como vocês gostam de utilizar a palavra culpa! Não existe culpa no universo. Com ou sem livre-arbítrio, deve-se lidar com o comportamento das pessoas da mesma maneira: procurando fazer com que ele se volte para os interesses da coletividade. Aliás, o seu sistema de justiça já deveria estar fazendo isso há muito tempo.

– Mas, então, visto de um outro ângulo, devo deduzir que as leis da natureza são soberanas e já está determinado o destino do universo!? Tudo vai seguir as leis da natureza e não há o que fazer para mudar isso!?

– Certo e errado. As leis da natureza são soberanas, mas vocês mesmos já descobriram – embora ainda nem todos acreditem nisso – que elas não são determinísticas pois incorporam uma incerteza intrínseca quando se trata do comportamento das partículas elementares. Isso dá margem a desdobramentos aleatórios na história do universo. Nada está previamente determinado.

– Por falar em partículas elementares, a nossa ciência já descobriu todas elas?

– Infelizmente vocês estão longe disso. Nem mesmo a natureza delas vocês conseguiram desvendar. Sem falar da matéria escura e da energia escura que ainda são um mistério para vocês.

– Você pode me explicar isso de forma que eu entenda?

– Não, … por enquanto.

– Por que “por enquanto”? Você já mencionou isso antes. Nós vamos ter outras conversas depois desta? Como eu posso encontrá-lo novamente?

– Estamos juntos agora. Você não vai mais a lugar algum. Ainda não se deu conta disso?

Não!!! Não é possível! Não quero saber de tudo! Quero voltar a ser ignorante! Quem é você?

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