Música eletrônica

Num planeta muito distante vivia uma sociedade de seres mecatrônicos providos dos nossos mesmos cinco sentidos, mas com uma capacidade cognitiva exclusivamente baseada na análise combinatória. Em poucas palavras, a sua inteligência era inteiramente voltada à organização e à contagem de objetos e conjuntos de elementos de qualquer natureza. Faziam isso como ninguém e essa característica os transformava em exímios calculadores de probabilidades, mas, principalmente, os capacitava a criar combinações de notas musicais que culminavam em músicas de excelente qualidade.

As músicas eram produzidas em profusão e armazenadas em dispositivos físicos que constituíam megabibliotecas musicais. Entretanto, a produção de músicas era tão grande que os dispositivos de armazenamento já não davam conta de abrigar toda a produção daquele povo musical. Tiveram, então, que começar a deletar as músicas mais antigas e ouvidas com menor frequência para armazenar as novas criações. Não é difícil imaginar que essa tarefa trouxe uma dificuldade nova àquela sociedade: quem determinaria o que seria deletado? Conselhos foram constituídos para tomar essa decisão e funcionavam a contento até que surgiram as chamadas “sociedades protetoras das músicas” que se opunham a deletar qualquer música, com o argumento de que isso poderia levar à extinção de ritmos e tendências musicais mais antigos, o que seria uma perda muito grande para a cultura popular.

Esse debate durou o tempo necessário para se desenvolver uma tecnologia de armazenamento que desse conta da produção incomensurável de músicas. A ideia básica foi utilizar a magnetosfera do planeta como meio de armazenamento. As músicas, em arquivos digitais, eram transmitidas para a magnetosfera (upload) por meio de ondas eletromagnéticas e poderiam ser captadas (download) a qualquer momento por dispositivos apropriados. Chamaram esse meio de armazenamento de “nuvem”. As músicas não precisariam mais ser deletadas, pelo menos durante o próximo milênio.

Acontece que a magnetosfera permitia o armazenamento das músicas, mas não bloqueava a passagem das ondas eletromagnéticas, que as transportavam, para o espaço exterior. Todavia ninguém estava preocupado com isso, desde que uma cópia da música ficasse gravada. Ademais, o vazamento delas para o espaço exterior era até um efeito positivo pois, quem sabe, elas poderiam atingir algum outro ouvido alienígena. Sorte de quem conseguisse captar essas obras primas.

Com o tempo, esse vazamento foi inundando a galáxia. Mas as ondas fugidias apenas reverberavam na matéria inanimada por onde quer que viajassem. Eram refletidas, absorvidas, atenuadas por rochas, metais, gelo e outros materiais inertes, sem encontrar uma única ressonância, um único ouvinte.

Até que um dia um desses streamings atingiu o sensor de um radiotelescópio num planeta azul. “Hei! Parece que detectei um sinal!”. Soou a voz excitada de um cientista diante da tela de seu computador. “Gravem tudo! É um sinal persistente e consistente.”

Depois de horas recebendo o streaming de dados, os cientistas submeteram o arquivo a um software de reconhecimento de padrão para tentar entender o que estavam recebendo. O poderoso software, em poucos segundos, ajudou os cientistas a reconhecer músicas naquele streaming. Muitas músicas, de estilos variados. Os cientistas estavam cada vez mais excitados com a descoberta enquanto as músicas não paravam de chegar ao radiotelescópio.

Foi quando, numa segunda depuração do streaming de dados, surpreendentemente, o software reduziu todas aquelas variedades de músicas a algumas poucas dezenas de padrões. O software sugeriu um arquivo, de seu próprio banco de dados, que parecia conter os mesmos padrões dos sinais alienígenas. O arquivo tinha o nome VG12. Ao analisar a origem do arquivo VG12 os cientistas ficaram boquiabertos: era uma cópia do arquivo pertencente ao Museu de Ciências, que foi produzido nos primórdios da civilização tecnológica: o disco com músicas enviado ao espaço pelas sondas Voyager 1 e 2 há centenas de milhares de anos. Então, as músicas recebidas do espaço exterior não eram senão um plágio grosseiro das músicas transportadas pelas Voyager?

As músicas continuavam a chegar em profusão e cada uma delas não era nada mais do que uma pequena variação de alguma das músicas da Voyager. Os cientistas não tinham mais dúvidas. Tratava-se de uma comunicação clara de uma superinteligência alienígena tentando nos dizer que receberam a nossa mensagem.

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3 comentários sobre “Música eletrônica

    • Caro Ary, Obrigado por enriquecer este modesto blog com a sua bagagem musical. O curioso é que o clip parece ter centenas de milhares de anos, como descreve o texto. Grande abraço. BCD

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