O juízo final

Bructus e Flor, como a maioria dos irmãos, têm características muito distintas. Seus nomes já dizem alguma coisa sobre suas diferenças, mas não tudo. Existem outras diferenças mais marcantes.

A menina Flor é organizada e gosta de brincar e construir brinquedos onde a ordem está sempre presente e tudo se encaixa no lugar certo e funciona como um relógio. Sim, ela constrói brinquedos, mas não são brinquedos convencionais. São brinquedos holográficos que pairam no ar como uma imagem tridimensional. Com um toque de seu dedinho indicador, um planeta aparece aqui, uma estrela ali e uma imagem impressionante vai se formando diante dela.

O menino Bructus não gosta da ordem de Flor e procura sempre se meter em seus brinquedos. Com seu dedo indicador vai destruindo a harmonia dos brinquedos de Flor. Ele não tem a imaginação dela para construir o seu próprio brinquedo, mas lhe sobra imaginação para modificar os dela. “O que faço é sempre para melhorá-los.”, garante ele, diante dos protestos da irmã. Sempre foi assim e também está sendo assim com o novo brinquedo que Flor está construindo, o Carrossel.

Flor está furiosa com tantas mudanças que seu irmão fez em seu brinquedo. “Eu coloquei o planeta azul no centro do Carrossel e você o deslocou para a periferia. Ele é o meu favorito e quero que volte ao centro!”

Bructus tem sempre uma explicação para o que faz: “Ele não tem nada de especial em relação aos outros. As estrelas são maiores e mais brilhantes. É lá que as coisas são realmente quentes e, portanto, devem ter um lugar mais privilegiado do que o seu planeta azul.”

“E as órbitas?”, continua Flor, “Fiz todas circulares, elegantes e estáveis. Você as transformou em elípticas e ainda permite que alguns astros colidam com outros. E os vulcões e terremotos que você colocou nos meus astros? Isso tudo vai acabar destruindo o meu brinquedo.”

“Bobagem! Esses acidentes vão trazer fatos novos e é disso que o seu monótono Carrossel precisava.”. Bructus continua: “É de transformação que o Carrossel precisa; aliás, a transformação é a mãe de todo o progresso.”

“Não quero progresso, quero ordem, harmonia e precisão em meus brinquedos! Por falar em precisão, você mudou as leis do meu Carrossel. Nada mais pode ser determinado com precisão; tudo agora é probabilístico. Você mudou até o conceito de tempo que eu inventei. Ele já não é mais absoluto, mas relativo. Que bagunça é esta que você fez?”

“Maninha,”, respondeu Bructus, “ninguém gosta do que é previsível; e sobre essa coisa chamada tempo – por sinal, uma incrível ideia sua – eu quis dar uma pequena contribuição fazendo-o transcorrer de formas diferentes, dependendo do ponto de vista. Não foi, também, uma grande sacada minha?”

Flor continua com a sua fúria: “E tem mais! Coloquei no planeta azul os animais mais lindos que consegui imaginar, vivendo em perfeita harmonia. Vejo, agora, que você criou outros que se alimentam dos meus. Isso mesmo! Comem os meus lindos animaizinhos. Isto eu não posso aceitar!”

Bructus: “Ah rá! Essa é a lei da evolução que eu criei. Alguns animais são presas e outros predadores. Os predadores também podem ser presas de outros. É o ciclo da vida. É assim que ela evolui. Não é uma ideia boa para um brinquedo que se chama Carrossel?”

Flor faz outra reclamação séria: “Meu Carrossel está aumentando de tamanho como se mãos o estivessem puxando pelas extremidades. Daqui a pouco não haverá mais espaço que possa abrigá-lo. Você também é o culpado por isso?”

Bructus, todo envaidecido, fala: “Modéstia à parte, essa foi mais uma de minhas brilhantes invenções. Pode chamá-la de energia escura, que é responsável por essa expansão do seu Carrossel. Um mundo em transformação, como é esse seu Carrossel, não poderia ficar restrito a um espaço limitado. Ele tem que crescer sempre. E você bem sabe que espaço nunca foi um problema para nós.”

“Temo pelo destino do meu brinquedo.”, disse Flor resignada, já sabendo que o irmão não iria desfazer o que tinha feito. Então teve uma ideia. “Vou propor a você um acordo justo.”, disse resoluta.

“Manda!”, respondeu logo Bructus.

“Vou criar um novo personagem para habitar o meu Carrossel. Ele terá livre-arbítrio para decidir sobre o que é bom e o que não é para o Carrossel. Embora com poder limitado, ele poderá se multiplicar e se espalhar tão rapidamente que suas decisões poderão interferir no destino do Carrossel. Nós dois não poderemos mais interferir neste brinquedo. Você topa?”

Bructus foi logo dizendo: “Topo, mas com uma condição. Quero me assegurar que o livre-arbítrio que você vai colocar no seu personagem é de fato livre-arbítrio.”

“Está bem! Faço isto em sua frente.”, disse Flor, meio contrariada. E com o seu dedinho indicador fez o que tinha de fazer.

“Ok. Quero ver no que vai dar.”, disse Bructus, disfarçando um sorriso maroto.

Flor, ainda preocupada com o destino do seu Carrossel, perguntou: “Por que não brincamos de outra coisa enquanto isso? Que tal de dragão e boneco de gelo?

“Ebaaa! Quero ser o dragão.”, disse Bructus, entusiasmado.

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