Propósitos

“A vida sem um propósito é insuportável. Para a maioria das pessoas os momentos de prazer e alegria são muito breves comparados com os de sofrimento e tédio. Portanto, se a felicidade se baseasse apenas nesses bons momentos, a maioria das pessoas viveria a maior parte do tempo infeliz.”

O parágrafo acima está entre aspas, mas isto não significa que a citação seja de um outro autor. Ela é minha mesmo, provavelmente plagiada de alguém, mas sem qualquer má intenção. Mas não interessa! Ela é apenas um pretexto para o que eu quero escrever em seguida.

A vida não tem um propósito universal e oculto à espera de ser descoberto. Cada um tem que imaginar um propósito para a sua própria vida e vivê-la em função dele, se não quiser estar infeliz a maior parte do tempo. No entanto, isso traz um problema paralelo. Os propósitos individuais podem não ser cooperativos entre si e, o que é pior, podem até ser conflitantes. Essa pode ser a causa maior dos problemas que a sociedade enfrenta na busca de seu aperfeiçoamento. É preciso, então, buscar as motivações, ou agentes, que produzam a sinergia dos propósitos individuais, isto é que façam esses propósitos convergirem para uma direção única.

Um desses agentes nos foi presenteado pela própria natureza. A evolução nos dotou com a capacidade de perceber e se importar com o sofrimento alheio, como se ele afetasse a nós próprios. É a chamada empatia que todos nós temos com o semelhante. Essa é uma importante característica que o ser humano tem e que funciona como um agente no sentido de provocar a sinergia de nossos propósitos. Isto é, por força da empatia, ninguém imaginará um propósito para a sua vida que se realize às custas do sofrimento de outras pessoas. Acontece que a empatia tem um poder limitado. Ela atua apenas à curta distância. Em geral, não nos preocupamos muito com os que estão longe de nós. Ficamos comovidos, é certo, com as cenas de sofrimento mostradas na mídia, de povos que estão a milhares de quilômetros de nós. Mas a comoção é passageira e logo é substituída pelas nossas agruras do dia-a-dia.

A crença em um deus também pode ser um agente de convergência dos nossos propósitos. Nada pode ser tão digno quanto querer levar uma vida com decência, praticando somente o bem e amando os seus semelhantes, mesmo que isso seja feito com a ideia de ser recompensado com o paraíso depois da morte. Entretanto, não se pode esquecer que muitos dos problemas que a humanidade enfrenta hoje decorrem do fanatismo e intolerância que as diferentes seitas religiosas induzem em seus seguidores.

Em vista dessas limitações, é necessário procurar por outros critérios nos quais basear o propósito para a nossa vida. Quando olhamos o mundo à nossa volta, e nos damos conta de que tudo o que existe foi construído a partir do nada, ou quase nada, é impossível deixar de admirar essa grande obra. Tenha ela sido criada por Deus ou pelo mero acaso, é magnífica. Pois bem, aqui está um outro local onde ancorar os nossos propósitos. Nenhuma pessoa sensível gostaria de colocar por terra toda essa obra magnífica. A observação atenta da natureza – nós nela incluídos – não pode provocar outro sentimento senão o de desejar que essa obra magnífica não seja destruída ou, melhor ainda, que ela seja continuamente aperfeiçoada com a nossa ajuda.

Não é difícil concluir, então, que qualquer propósito que uma pessoa venha a atribuir à sua vida deve estar orientado para o aperfeiçoamento do mundo em que vivemos. Diga-se, a bem da verdade, que isso não parece ser uma tarefa fácil. E daí? Qualquer propósito digno deste nome tem que conter um desafio a ser perseguido por toda a vida. Se a dúvida é como fazer isso, a pista está em examinar o modo como a natureza foi construída. Eu não tenho dúvida de que em sua construção os ingredientes principais foram a beleza, a harmonia e a estética. (Não me importo se houver sobreposição no significado desses conceitos; basta entendê-los de um modo intuitivo.)

Assim, acho que qualquer propósito que venhamos a atribuir às nossas vidas tem que incorporar, de algum modo, o culto à beleza, à harmonia e à estética, sem prejuízo de outros valores. Só assim, conseguiremos dar continuidade à magnífica obra que nos foi legada.

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2 comentários sobre “Propósitos

  1. BCD,

    Gostei da parte “*A vida não tem um propósito universal e oculto à espera de ser descoberto. Cada um tem que imaginar um propósito para a sua própria vida e vivê-la em função dele, se não quiser estar infeliz a maior parte do tempo. No entanto, isso traz um problema paralelo. Os propósitos individuais podem não ser cooperativos entre si e, o que é pior, podem até ser conflitantes.*”

    Na maioria das vezes são conflitantes (“O mal estar na civilização” (Freud, 1930)) mesmo.

    Sinto desapontá-lo, mas, com todo o respeito, é impossível terminar com o final feliz que você deseja (e que eu também desejaria). Se Êle criou tudo, criou também o Mal.

    Grande abraço pesaroso,

    Ary

  2. Dias, é bom lembrar Guimarães Rosa…”O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”
    Abraços
    Aristides

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