Uma questão de valores

Depois de ler alguns textos antigos que publiquei neste blog conclui que mudei de opinião várias vezes. À primeira vista, achei isto constrangedor, mas, depois, me convenci que sou uma pessoa normal, pelo menos neste aspecto. Mudar de opinião não é pecado. Há uma vantagem quando se muda de opinião: se alguém disser que você disse alguma asneira, você pode negar (isto te faz lembrar de algum ex-presidente?); se ele apresentar uma prova disso, você pode apresentar a contraprova. Mas, enfim, onde mudei de opinião?

Já elogiei a natureza humana para depois concluir que ela está no cerne de todos os nossos problemas. Já acreditei no sobrenatural para depois achar que tudo é natural, pois as leis da natureza não podem ser nunca desobedecidas. Já acreditei no livre-arbítrio e na força estranha que o garante, vinda dos recônditos de nossas mentes (almas?) para depois achar que as reações químicas no meu cérebro é que me fazem acreditar nisso. ETs ora existem, ora não; ora são mocinhos, ora bandidos. O tempo ora pode ser explicado, ora é uma simples ilusão.

São muitas mudanças de opinião ao longo desses anos e, certamente, outras ainda virão, talvez resgatando velhas crenças. O que se pode fazer? Nossa mente é um sistema muito complexo e escancarado, influenciável por tudo o que se passa ao seu redor. Mudar de opinião é, portanto, uma coisa esperada e provável e, na maioria das vezes, inofensiva. É coisa séria, entretanto, quando se trata de mudar os valores que orientam o nosso comportamento na sociedade. Mas nem nesses casos estamos livres de mudanças. E é sobre isto que quero falar.

Neste ponto devo esclarecer que vou utilizar o termo “valores” para designar tanto as normas de conduta no nível pessoal quanto aquelas que derivam das leis vigentes; estas últimas, em geral, denominadas de “princípios”. Penso que esta confusão de termos é minimizada pelo fato de que os nossos valores são, em grande medida, influenciados pelos princípios contidos nas leis vigentes.

A história da humanidade mostra que diferentes culturas prezam diferentes valores e que estes podem mudar ao longo do tempo. Exemplos como escravidão, poligamia, castas, discriminação racial e de sexo, entre outros, mostram como os valores são conceitos voláteis que se transformam ao longo do tempo. Todos nós achamos que as mudanças dos valores vêm sempre para aperfeiçoar a sociedade, mas ninguém pode apostar nisso como uma verdade. Um exemplo dessa incerteza é a discussão atual sobre a maioridade penal.

É bem verdade que as pessoas devem se orientar sempre pelos seus valores, mesmo sabendo que eles possam não ser imutáveis. Mas fica sempre o gosto amargo de pensar que o que prezo hoje como um valor inestimável possa, no futuro, ficar obsoleto diante de uma nova realidade. Daí é inevitável perguntar: existem valores universais e imutáveis?

Fala-se muito de uma regra de ouro do comportamento, que já foi mencionada tantas vezes por diferentes pessoas que não sei dizer exatamente quem é o seu autor original. A regra é (em minhas palavras): “Não faça ao próximo o que não deseja para si próprio”, e o seu corolário é: “Faça ao próximo tudo aquilo que deseja para si próprio”.

Essa regra deveria ser um candidato para um padrão de comportamento indiscutível, mas ela já foi muitas vezes ignorada e continua a ser ignorada por algumas culturas (não me refiro a indivíduos, mas a culturas). E então, como ficamos? Tudo é relativo e circunstancial e o bem e o mal não têm uma fronteira nítida e permanente? As únicas leis imutáveis são as leis da natureza? Não conseguiremos descobrir outras?

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5 comentários sobre “Uma questão de valores

  1. Caríssimo Caco,

    Você já pensou no fato de que fazer aos outros o que gostaríeis que fizessem a ti pode significar pura e simples manifestação de intolerância? Os outros são diferentes de mim, podem não gostar do que eu gosto…

    Abraço

    Nílson

    • Caro Nilson, Agradeço pela paciência em ler e comentar os meus textos. O problema que você aponta é decorrente de resumir uma ideia em uma única frase. Não sei qual foi o sentido pretendido de quem fez a frase (a original) mas penso que o termo “faça” não deve ser entendido como imposição, mas como oportunidade. De qualquer modo, seu questionamento é mais uma evidência da dificuldade de achar princípios universais e imutáveis. Um grande abraço. Caco

  2. Olá Caco.
    Mais uma vez muito obrigada pela oportunidade de eu poder ler seus textos. Sou muito grata.
    Lindo! Adorei!
    Você faz meditação? Aquela que ficamos num estado de não matéria, não tempo, não conceito de coisa alguma? É maravilhoso!!
    Abraços,
    Sandra

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