O Todo Poderoso

Tempos atrás meu filho alertou-me para o fato de que eu estava submetendo os leitores a uma overdose de textos sobre o livre-arbítrio. De fato, eu estava. Agora vou cometer o mesmo erro mudando o foco para o assunto da espiritualidade. Já falei sobre isso nos dois últimos textos e volto a falar agora. Peço desculpas aos leitores que já estão cansados do assunto e prometo falar de coisas mais amenas no futuro próximo.

Em “Natureza sem rumo” escrevi sobre as peripécias do Homo sapiens, cuja história está brilhantemente narrada no livro do historiador Yuval Noah Harari, de título “Sapiens – Uma breve história da humanidade”. Nesse livro, o autor termina a sua narrativa conjecturando que o homem está se investindo no papel de Deus e indaga, preocupado, como isso poderá afetar o nosso futuro.

Para fazer essa conjectura, Harari se baseia nas ações do homem ao longo de sua história, mas, principalmente, nas ações do homem moderno, ao fazer uso dos avanços nas áreas da medicina e da genética, que têm o potencial de transformá-lo num ser superpoderoso. Vou adicionar aqui alguns outros aspectos que também podem estar contribuindo para que o homem se considere um deus.

Um primeiro aspecto diz respeito à questão da imortalidade. O sucesso da medicina, como o citado autor enfatiza, de fato tem aumentado o tempo de vida das pessoas a ponto de nos fazer pensar que um dia o homem será imortal (só morrerá em decorrência de acidentes). Todavia, acho que o sentimento de imortalidade já estava presente mesmo antes desses avanços da medicina. É curioso mencionar isso, mas é uma afirmação irrefutável dizer que nenhum ser ainda vivo já passou pela experiência da morte. Essa constatação óbvia pode dar ao ser humano a impressão de que a morte nunca vai lhe atingir. “Pode acontecer com os outros, mas não comigo” é um pensamento que ocorre às pessoas, ainda que elas não o admitam, nem a si próprias. Isso é uma característica da natureza humana, decorrente da nossa mente sofisticada e complexa.

Essa mesma mente nos dá a sensação de total privacidade e liberdade de pensamento. Em seu interior ninguém pode penetrar e espionar e, muito menos, proibir que ela pense no que quiser, pelo menos enquanto não houver tecnologia disponível para isso. Ela é um território com um dono único e soberano.

Outro aspecto refere-se à nossa visão do mundo. Até prova em contrário, cada indivíduo tem a sua própria percepção da realidade. A realidade que cada um percebe é fruto da interpretação das coisas e fatos pelos seus próprios processos mentais, que são exclusivos do indivíduo. Além disso, essa visão particular da realidade pode ainda ser exacerbada pelo uso de psicotrópicos. Uma doutrina filosófica antiga, chamada solipsismo, leva ao extremo essa questão da visão do mundo ao afirmar que a única coisa real no mundo é a mente pensante (quem sabe uma única mente), sendo o resto apenas uma criação dela. Embora antigo, esse conceito de solipsismo nunca foi refutado porque não há meios de fazê-lo. Como provar que uma mente (a sua ou a minha) não está só no mundo? Isso dá bem a medida da complexidade da mente, algo que faz o indivíduo acreditar que pode tudo e, ao mesmo tempo, o faz sentir uma solidão absoluta (caso sua mente seja a única coisa existente). Uma solidão, diga-se, só comparada à solidão divina.

Por fim, a tecnologia atual permite que tenhamos uma ideia muito satisfatória do resto do universo e da sua imensidão. E não há evidências de que outros seres inteligentes estejam habitando qualquer parte dele. Ainda que ETs possam existir, não há perspectivas de que possamos encontrá-los algum dia. (Leia aqui um interessante artigo sobre este assunto.) Diante desse panorama, é inevitável ao Homo sapiens pensar que o seu papel é dar significado a esse imenso universo sem vida.

Todas essas manifestações mentais são exclusivas do Homo sapiens, que teve o privilégio de receber uma mente diferenciada da dos outros animais. Em conjunto, elas o induzem a acreditar que a sua espécie tem um papel central no universo e ele, indivíduo, um papel único num mundo que é percebido a seu modo. Daí a sentir-se Deus é um pequeno pulo.

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5 comentários sobre “O Todo Poderoso

  1. Prezado BCD,

    Se (o seu) Deus é todo poderoso, não há solipsismo que nos faça pensar que cada um de nós pode ser Deus.

    Aí estão todas as frustrações e dificuldades que encontramos no nosso dia-a-dia, para mostrar que não somos todo poderosos… (Périx, o plural está certo?).

    Ou seja, o diabo nos mostra que não somos Deuses. Ou, como disse Sartre, o inferno são os outros…

    Abraço,

    Ary

  2. Oi Dias,

    Vou tentar resumir aqui o que penso sobre Deus:

    1- Acho que existe mas não tenho como provar.
    2 – Acredito que é impossível provar que não existe. Isso não quer dizer que Ele existe. Sempre que a ciência faz uma descoberta que provaria a não existência de Deus, na verdade está provando que “aquele deus” que o povo estava imaginando não existe, mas podemos sempre (pelo menos por enquanto) supor que Deus já tinha “pensado” além.
    3 – Não sei se Ele sempre existiu, se foi Ele que criou o universo, se é misericordioso ou não etc. Também puderá, com essa minha mente de batráquio não dá para saber muita coisa.
    4 – Não sei se Ele é atômico ou é um conjunto de “inteligências” interconectadas. <<< agora sim as almas do inferno virão me buscar.

    Agora:
    1 – " o homem está se investindo no papel de Deus" só se for muito bab….
    2 – "Essa mesma mente nos dá a sensação de total privacidade e …" Existe fortes evidências de que isso não acontece na prática.
    3 – " a tecnologia atual permite que tenhamos uma ideia muito satisfatória do resto do universo e da sua imensidão" Será que podemos acreditar nisso?
    4 – "é inevitável ao Homo sapiens pensar que o seu papel é dar significado a esse imenso universo sem vida" Hchiiiii a Terra voltou a ser o centro do universo? É isso mesmo? E o Galileu?

    Porém:
    1 – Acredito na imortalidade da alma / espírito.
    2 – Acredito que estamos cercados de espíritos, alguns bons outros nem tanto.
    3 – Acredito que um cara que só tinha o primário e que escreveu sobre assuntos que estavam muito além dos seus conhecimentos só pode ter sido "assessorado" por amigos do alééééééeéééém. Falo do Chico Xavier.
    4 – Acredito que perante Deus, seja do jeito que for, somos ainda mais ignorantes e mentalmente mais pobres do que uma lesma (as vezes penso que elas são mais inteligentes do que certos humanos, eu por exemplo)
    5 – Acredito na reencarnação dos espíritos. Acreditar que depois de mortos ou vamos para o céu ou para o inferno só se Deus fosse muito, mas muito mesmo, sacana e perverso.

    Peço desculpas pelas derrapadas filosóficas.

    Parabéns pelos textos que você publica e um grande abraço.

    Cinquini – O Paneleiro

    • Ayrton,
      Gostei dos seus comentários. Mas penso que existem muitos megalomaníacos no mundo e a história está repleta deles. No texto tento explicar de onde essa megalomania pode ter se originado e não é difícil concluir que ela vem dessa mente complexa que recebemos de presente no processo de evolução das espécies.
      Abs.
      Dias

  3. Olá Caco
    Obrigada por enviar-me esse belo texto e sempre muito bem escrito!
    Assunto complexo. No entanto, por experiência própria cheguei a conclusão de que nosso coração define o padrão e nossa mente o externa. Se for bom, alegre, amoroso – bom, alegre e amoroso será. Se difícil, pesado e triste…
    Tenho conhecido alguns médicos muito bem humorados e competentes. As situações que são conduzidas nesse padrão vibratório de alegria, parecem sempre acabar bem. Será que Deus é isso? Saber ter perseverança, alegria e bom humor, mesmo diante de situações adversas? Afinal vamos embora rapidinho mesmo não é?
    Um grande abraço e mais uma vez, muito obrigada!
    Sandra Carrara

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