Em qual Deus acreditar

Sei que muitos não gostam de discutir este assunto, portanto, neste texto, vou procurar não ferir suscetibilidades. Meu amigo Ary Handler – que gosta de falar sobre este assunto – diz que, antes de falar sobre Deus, é necessário definir quais são os seus atributos, para que os interlocutores falem sobre a mesma coisa. Ele está coberto de razão, visto que, de acordo com as diferentes religiões e ideologias, a palavra deus pode ser utilizada com inúmeros significados indo desde o deus presente na matéria inanimada até um ente onipotente, criador de todo o universo. Se não for fixada a ideia exata de Deus, a afirmação “Acredito em Deus” perde todo o sentido.

Historicamente, ciência e religião disputam terreno sobre a verdade acerca da existência de Deus, seja qual for a sua definição. A disputa, entretanto, é provocada por adeptos isolados de uma área ou da outra, já que não deveria haver sobreposição entre os objetos de cada uma. Há cientistas ateus que veem nos avanços científicos a prova de que Deus não existe, enquanto que outros cientistas veem na ciência justamente o contrário, a prova de que ele existe. Por outro lado, há religiosos que não aceitam alguns resultados científicos porque eles iriam contra os ensinamentos de sua religião, enquanto que outros aproveitam os fatos científicos como prova da existência de Deus. Isso deveria ser mais do que suficiente para concluir que as duas áreas não deveriam se confrontar.

Mas a musicista, advogada e filósofa, de nome Nancy Ellen Abrams, não compartilha essa ideia e procura uma solução de compromisso: um deus real, passível de ser reconhecido cientificamente e que possa ser aceito por qualquer indivíduo. Na busca desse deus real, ela começa descartando as características comumente atribuídas a Deus, que, segundo ela, são consideradas impossíveis, como:

  • Deus existiu antes do universo
  • Deus criou o universo
  • Deus sabe tudo
  • Tudo o que acontece é por intenção de Deus
  • Deus pode optar por violar as leis da natureza

E conclui que uma abordagem possível de pensar em um deus real é considerá-lo como uma propriedade emergente de nossas complexas interações, especialmente aquelas que envolvem as nossas aspirações. Não é fácil resumir aqui o pensamento dessa filósofa que escreveu um livro sobre essa sua ideia (A God that Could Be Real), mas a analogia que ela utiliza para se fazer mais clara é a do formigueiro. Segundo ela, o fenômeno que resulta nesse deus emergente pode ser comparado com o funcionamento de uma colônia de formigas que agem individualmente sem ter noção do resultado esperado de suas ações, que é a construção, manutenção e desenvolvimento da colônia. As regras dessa autorregulação não podem ser percebidas nas ações individuais das formigas, mas emergem de todas as interações presentes no formigueiro. Assim também é o fenômeno que explica o nosso comportamento espiritual, a nossa busca por um significado em nossas vidas. Não há algo a procurar na ação de cada indivíduo que possa explicar esse comportamento porque a razão ou a causa dele não está em cada um de nós. Ela emerge de nossas complexas interações regidas pelas nossas aspirações como indivíduos. Se a causa desse comportamento pode ser chamada de Deus é uma questão semântica, mas nada mereceria esse nome mais do que ela, segundo a filósofa.

Desconfio que será necessário ao leitor ler o livro citado para compreender melhor a ideia. Os que preferirem poderão ler os dois artigos da autora do livro aqui e aqui. A ideia é, no mínimo, polêmica e uma contestação dela pode ser lida no artigo do filósofo Alva Noë.

Conceitos polêmicos à parte, quero finalizar voltando ao tema principal sugerido pelo título deste artigo. Penso que a crença em um deus é uma característica do ser humano que tem explicação na nossa história evolutiva e não pode ser questionada, em nome da razão, a não ser em casos isolados quando tal crença:

  • Levar ao fanatismo e à violência;
  • Embaçar a visão do indivíduo para os fatos reais; ou
  • Paralisar as suas ações deixando-o à espera de uma graça ou milagre.

Infelizmente, um ou mais desses efeitos estão quase sempre presentes em nossa sociedade.

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5 comentários sobre “Em qual Deus acreditar

  1. Querido BCD,

    Em primeiro lugar, obrigado pela menção a este humilde servo de Deus.

    Em segundo, peço um tempo para elaborar uma resposta ao seu “post”, denso e com muitas informações importantes para serem elaboradas. O Tico e o Teco estão meio desorientados.

    Grande abraço,

    Ary

  2. Dias, a ideia de Deus está bem sólida, na minha opinião; será que vale a pena mudar? Vamos pensar!
    Aquele abraço…Aristides

  3. Prezado BCD,

    Por partes, como o Jack:

    1- Eu nunca disse “antes de falar sobre Deus, é necessário definir quais são os seus atributos, para que os interlocutores falem sobre a mesma coisa ” (ou, se eu disse isso, nego, como FHC…). O que eu disse (ou queria dizer…) é “não acho que a discussão correta é ‘Deus existe?’, mas sim ‘quais são seus atributos?’ “. Eu, por exemplo, agnóstico que sou, não acredito que Deus seja um velhinho de barbas brancas que pune os pecadores mandando-os para o Inferno e premie os fiéis, mandando-os para o Céu”. Acho, porém, que existe alguma coisa no ar, além dos aviões de carreira… – que o Caetano chamou de “Força Estranha” https://www.youtube.com/watch?v=X4RlqzbQUiI

    2- Você sabe que, politicamente, sou um radical de centro. Ou um democrata radical. E, como um bom radical, odeio os outros radicais, os de direita e os de esquerda. Religiosamente, sou um agnóstico radical. Acho que estou certo e que os outros radicais – os cientistas ateus e os religiosos fundamentalistas – estão errados.

    3- Gostei muito do exemplo das formigas. Não dá para um cientista ateu olhar para as formigas e dizer que não há uma Força Estranha que fez elas agirem assim. Também não foi o velhinho de barbas brancas que criou as formigas. Não há formigas boas que vão para o Céu e formigas ruins que vão para o Inferno (acho).

    Bem, fico por aqui… o comentário deve ser sempre menor do que o post do Blog. Se não, Deus castiga…

    Grande abraço,

    Ary

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