Do-ré-mi

Do, ré, mi, … são os princípios ativos de uma droga tão potente quanto o álcool, o crack ou a morfina. Eles estimulam a produção dos neurotransmissores que causam as sensações de prazer e bem-estar. Quando ouvidas em uma sequência apropriada, essas notas provocam uma imediata transformação em nosso cérebro, que se ilumina como uma noite de tempestade sob os efeitos de relâmpagos e raios ininterruptos.

Essas pequenas unidades de som têm a capacidade de penetrar em nossos cérebros, enfileiradas como nano-robôs, e vasculhar velhas memórias como se soubessem exatamente quais e onde buscá-las. Transportam-nos com velocidade maior do que a da luz para lugares inesperados e, na maioria das vezes, inexistentes. Transformam-nos em heróis e princesas de histórias inviáveis, mas sempre imaginadas. Livram-nos do medo e da ansiedade. Enchem-nos de coragem e esperança e, muitas vezes, de paz e serenidade. Fazem a festa da nossa mente.

Não era à toa que reis e imperadores pagavam regiamente aos compositores para ter o privilégio de ouvir músicas criadas exclusivamente para eles. Não é à toa que jovens e adultos não desgrudam de seus headphones hoje em dia. Estamos todos viciados em músicas e queremos cada vez mais.

Felizmente, há um número quase infinito de possibilidades de criar música. Simplesmente, elas estão à espera de mentes criativas que as descubram. E essas mentes criativas não nos decepcionam e criam em profusão os mais diferentes tipos de músicas para todos os gostos.

Entretanto, como os medicamentos de uso contínuo, as músicas também deveriam ser oferecidas ao público, sem custo, ou por um baixo custo, como no programa Farmácia Popular. Somente aqueles que precisassem de dosagens mais fortes pagariam mais para tê-las nos shows ao vivo, com os seus cantores, compositores, bandas, orquestras e maestros prediletos.

O financiamento desses programas de música popular poderia muito bem ficar a cargo do Estado, que tiraria os recursos da economia que ele faria nos gastos com a criminalidade, as guerras, as doenças mentais e as decorrentes do estresse do dia-a-dia. Quem sabe, até os corruptos perderiam os seus negócios, impedidos pelo headphone de conversar sobre propinas.

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