Ilusões

São muitas as ilusões a que estamos sujeitos nesta vida: as afetivas, as profissionais e, não menos importantes, aquelas em nosso modo de perceber a realidade. Sobre estas últimas, a ciência nos alerta que as estrelas que vemos no céu são imagens de uma época passada, que uma rocha, assim como qualquer objeto maciço, é um campo de energia muito diferente de uma coisa sólida, que a luz que observamos e os sons que ouvimos são apenas uma fração das ondas que viajam no espaço.

Entre essas ilusões no modo de perceber a realidade, uma é muito polêmica e intrigante: a nossa percepção de que temos livre-arbítrio. Já escrevi sobre este tema mais de uma dezena de vezes neste blog, o que demonstra o meu interesse por ele. O último deles foi Tico e Teco, uma ficção despretensiosa, escrito há alguns dias.

Sobre o livre-arbítrio (ou a ausência dele), a ciência não tem ainda um entendimento completo, mas muitos cientistas, como o físico Brian Greene, autor do best-seller “Universo Elegante”, têm a opinião de que o livre-arbítrio é uma ilusão do ser humano. O vídeo a seguir mostra a opinião de Greene sobre este assunto.

O que é curioso nesta história é o fato de que ninguém em sã consciência acredita que o ser humano não possa tomar a decisão que ele queira em qualquer situação de sua vida, inclusive uma decisão que possa ser prejudicial a ele próprio. Se eu quiser parar de escrever agora, eu paro. Se eu quiser comer alguma coisa, levanto-me e vou até a cozinha pegar algo para comer. São decisões que eu posso tomar, de um modo ou de outro, a meu bel prazer. Como, então, alguém vem me dizer que eu não tenho livre arbítrio?

De forma simples, o livre-arbítrio pode ser definido como a capacidade de o indivíduo poder tomar decisões diferentes em uma mesma situação. O grande problema está justamente na expressão “em uma mesma situação”. Para a ciência, uma mesma situação significa um contexto em que não sobra margem de manobra para as forças da natureza, incluindo aquelas interiores ao indivíduo, para mudar os eventos que se seguirão. Então, segundo a ciência, não pode haver um agente (a nossa intenção) que esteja acima das leis da física para definir a sequência dos eventos futuros.

Para os religiosos essa é uma questão irrelevante, pois a alma, ou espírito, ou outra entidade equivalente, caracteriza esse agente transcendental que está acima das leis físicas, por meio do qual podemos impor a nossa vontade ao mundo. Todavia, a ciência não pode ficar satisfeita com explicações metafísicas pois seu papel é buscar explicações racionais para o que acontece na natureza. Essa postura foi fundamental na descoberta da lei da evolução das espécies. Se a ciência tivesse se acomodado com a ideia de que Deus criara as espécies como elas são, Darwin, um cristão fervoroso, não teria desenvolvido a sua famosa teoria.

Com o livre-arbítrio deve ser a mesma coisa. A despeito das explicações metafísicas para ele, a ciência vai continuar estudando a mente humana em busca do entendimento dessa característica tão intrigante. Por ora, acho que devemos seguir o exemplo da ciência para lidar com as nossas outras ilusões, as afetivas, as profissionais e outras: utilizar toda a nossa razão para desmascará-las antes que elas nos prejudiquem.

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4 comentários sobre “Ilusões

  1. Caríssimo Caco,

    Seu texto é muito interessante, faz jus à riqueza de seu blog. Grato por partilhar.

    Há, no entanto, uma questão não abordada: a necessidade de ilusões.

    Não vivemos de ilusões, mas não vivemos sem elas.

    Ilusões são condição de possibilidade de projetos: sem ilusões, não projetamos.

    Sem ilusões, uma pessoa não casa. Não digo que só se casa iludido, mas sim tendo ilusões.

    Em espanhol, a conotação positiva de “ilusão” é especialmente forte: estar “ilusionado” é tudo o que buscamos.

    “Ilusão” tem uma etimologia rica, vem de iludere, ludere, ludus, jogo.

    Ter ilusões é querer continuar no jogo; sem ilusões, dizemos: não brinco mais.

    Não dá para “deletar” todas as ilusões: sem elas, entramos em parafuso.

    A razão não basta para enfrentar o dia a dia.

    Abraço fraterno

    Nílson

  2. Oi Dias,

    Como sempre,bem interessante seu texto……….
    Faço minhas as palavras do seu amigo Nilson.
    Abraço pra você e pra Mary.

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